por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

'"CHEIROS DA VIDA" - nº57 - O PRIMEIRO E ÚLTIMO

                 
       Até que o jantar superou as expectativas. Tirando um pequeno acidente de percurso tudo saiu às mil maravilhas.
          Quanto ao acidente de percurso: nosso “cozinheiro” dispunha de panelas, panelinha, frigideira, caçarola e todos os talheres desejáveis para um bom desempenho. Faltava apenas um escorredor para macarrão.
          Questão fácil de ser superada; nada que uma boa raquete de tênis não substituísse a contento. Assim foi feito e comunicado aos demais comensais apenas após o último gole de vinho, já todo mundo meio “alto” e madrugada já se avizinhando.
-         Aquela cor vermelha-forte do molho estava reforçada pelo saibro impregnado na raquete, e deu um sabor especial, vocês hão de convir, arrematou com autoridade, o “cozinheiro” Fernando, antes que alguém ousasse interpelá-lo.
-         Estava ótimo!
-         Estava ótimo, mas amanhã tenho de estar as oito no Werneck e ainda tenho que dar uma olhadela no assunto da aula.
-         Calma, Leleco! A noite é uma criança. Vamos abrir outra garrafa para comemorar nossa liberdade.
-         O Leal está certo... Meus chapas, com meus agradecimentos e minhas desculpas, eu vou já para cama, pois não estou acostumado a estas extravagâncias – atalhou o Luiz Carlos com bastante propriedade.
-         Vocês são uns “amigos-da-onça”. Agora que a coisa estava ficando boa. Ia até fazer um brinde à nossa “mestra” de cálculo...

          Luiz Carlos não se conteve:
-         Amélia Maria... Que pitelzinho!
-         Ué! O cara já estava quase dormindo, de repente ressurge das cinzas...
-         É Leleco, basta a lembrança de um par de belas coxas; levanta até defunto.
-         Aquelas coxas não são belas... São divinas!.. E aquela pele, deve ser macia, cheirosa, doce... – completou Luiz Carlos apertando contra o peito o travesseiro todo amassado.
-         Só não entendo como uma mulher tão bonita, cheia de it pode ser assistente daquele mestre gordo e seboso o tal de Fernando Ramos; ainda por cima parece estar caidinha por ele...
-         Um desperdício arrematei.
-         Mudando de assunto, para acalmar o Luiz Carlos que ficou meio abalado com a lembrança da Amélia Maria: acho que meu jantar estava caprichado. Valeu a pena?
-         Claro, respondemos em uníssono.
-         Aliás, podíamos comer sempre que possível em casa. Comida saudável, mais barata...
-         Olha a pia da cozinha – novamente interrompeu oportunamente  o Luiz Carlos.
-         Qual o problema?
-         Olha o monte de “bagulho” para lavar.
-         É, acho que minha idéia para manter a saúde e combater a carestia não é das mais felizes.

          Na verdade aquele foi o primeiro e o último jantar que se viu acontecer naquele apartamento. Pelo menos com aqueles inquilinos.
          Quando ia propor um mutirão para lavar as louças, desisti. Luiz Carlos abraçado ao travesseiro ainda mais amarfanhado dormia a sono solto com um leve sorriso no canto da boca, talvez sonhando com sua sereia.
          Fernando, emborcado na cama já não respondia.
Pensei comigo: amanhã se dá um jeito. Ato contínuo apaguei vestido como estava...

          - Trecho de meu livro"Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ("Capital Brasileira do Mergulho") em 2001






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