Yo no creo en
bruxas, pero que las hay, las hay”. Para mim tal provérbio
é válido também quanto a “discos voadores” como eram chamados os óvnis na
década de sessenta.
Nos últimos dias a imprensa
voltou a explorar o assunto que sempre desperta a atenção do público e,
sobretudo, ajuda a incrementar a tiragem dos periódicos o que nos faz mui
justamente pensar, tratar-se exclusivamente de um esquema comercial.
Assim foi com Elba Ramalho
que se disse abduzida por estranhos seres e da fogosa Tiazinha que acabou
chegando a conclusão de que vira era apenas um dirigível de propaganda do Goodyear.
Até a responsabilidade pelo
blecaute de 11 de março de 1999 tentou ser imputada a estes engenhos
extraterrestres. Também se vendeu muito jornal e revista com o assunto
“chupacabras” possivelmente obra de um
viajante alienígena tecnicamente chamado de “Intruso Esporádico Agressivo, o
IEA.
A coisa complica quando o
depoimento de visões extraordinárias vem de pessoa idônea como foi o caso
relatado pelo coronel Ozires Silva, em 1986, que exercia na ocasião a
presidência da Petrobrás.
Agora a minha história.
O fato que passo a contar
aconteceu alguns dias antes do início de meu derradeiro vestibular. Para variar
estava muito tenso.
Já eram quase duas da manhã.
Aquele tinha sido mais um
dia de verão típico do mês de janeiro. Sol a pino, temporal à tarde e à noite a
atmosfera livre e solta, envolvida apenas pela brisa que trazia o suave perfume
da mata e o excitante cheiro de terra molhada.
Dia e hora de cada prova já
estavam marcados; era crucial dedicar todos os cuidados à terrível química.
NaClO³ + calor à NaCl + 3/2 O²
depois, alcanos, alcenos, alcinos... Parecia até escalação de time de
futebol.
O sono já por algum tempo
vinha querendo me derrubar. Talvez uma chegada à janela, respirar o ar puro da
noite de certo me faria bem.
A madrugada tranqüila
convidava a um bom sono, mas aquelas infelizes leis de Dalton, de Raoult e o
bendito “fator de Van´t Hoff atormentavam meu juízo.
Quando iria acabar aquele martírio?...
Súbito um som familiar
fez-se ouvir cada vez mais forte: era o bonde das duas que vinha chegando à
última viagem do dia. Fez a volta direto, pois não trazia e nem havia
passageiros a transportar.
Simbolicamente aquele
derradeiro bonde trazia o sentimento de fim, ponto final em mais um dia de
nossas vidas.
De volta, o silêncio me
avisava que era hora de retornar aos livros para mais alguns minutos de
tortura.
No entanto quando ia me
afastar da janela vejo encostar junto ao meio-fio, defronte ao portão da vila,
um taxi.
A curiosidade me prende à
janela. Quem poderia ser a estas horas?
Não havia mais dúvida era
nossa vizinha Aidê da casa 7 com os seus quarenta já passados.
-
Estudando ainda, seu Carlinhos?
-
Não é por gosto meu. Preferia estar fazendo algo bem
mais agradável...
-
Você sabe que horas são, menino?
-
Duas e tal.
-
Hora de criança estar na cama!
Quando preparava uma
resposta bem atrevida algo inusitado interrompeu nosso papo...
Uma luz branca de alta
intensidade, vinda do alto do céu, quase nos cegava. Aproximava-se lenta e
silenciosamente cada vez com maior brilho. Tudo ao nosso redor resplandeceu
como se fora o mais claro dos dias.
De repente, parou...
A “coisa” havia surgido por
detrás do apartamento do João Bosco, fronteiro à minha janela, aliás, no mesmo
edifício em que morava a “judia que judiava”, lembram-se?
Depois, ainda sem emitir
qualquer som foi subindo, primeiro, lentamente e logo após com velocidade
incrível.
Noite novamente.
Nós ali, paralisados. Assim
permanecemos por algum tempo.
Quanto? Não tenho a menor
idéia.
-
Carlinhos, meu filho! Que foi isso?
-
E eu sei Dona Idê!
-
Estou com as pernas bambas.
-
Desço já até aí.
Depois de alguns copos
d’água, pudemos conversar. Ninguém acordou e o silêncio era total.
- Meu filho, vem comigo até minha porta que eu
acho que nem a fechadura vou acertar.
-
Vamos lá.
Voltei correndo batendo
forte com os pés no chão para espantar o medo. Imagina se aquela “coisa” volta?
Tranquei a porta, subi
rapidamente para o quarto e fechei a janela mesmo estando um calor infernal.
Abandonei os livros como
estavam e deitei-me.
Um custo pegar no sono.
No dia seguinte conversando
com meus amigos fiquei sabendo que àquela mesma hora alguns deles estavam
jogando conversa fora no nosso ponto de encontro tradicional, a mureta do
Genarino.
Ninguém vira nada. E o pior:
passaram a olhar-me com certa estranheza.
Para não complicar as coisas
parei por ali e me abstive de mais comentários.
Dias depois, conversando com
Dona Idê, ela dizia da incredulidade com que a ouviam e, também, resolvera
colocar um ponto final naquela história.
Nós dois sabíamos da
veracidade do acontecido, mas como convencer os outros?
E adiantava?...
Até hoje não sei o que foi
aquilo.
“Yo no creo en
bruxas, pero que las hay, las hay”.
- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001.
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