por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 27 de novembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 65 - O CHEQUE SALVADOR


                   


-         Amanhã chegam 80 carteiras para as salas de aula, 70 com a prancheta do lado direito e 10 do lado esquerdo especialmente feitas para os canhotos. A marca é Kastrup, o melhor que existe em matéria de cadeiras escolares, e terás que pagar 50% ao entregador.
-         Ivan! Pelo amor de Deus! Você ficou maluco? Estamos quase sem dinheiro em caixa.
-         Não foi isso o combinado?
-         O combinado era que você iria fazer uma pesquisa nas casas de móveis.
-         Pesquisei.
-         E daí?
-         Eu não tenho como falar com você. Esperei seu telefonema até anteontem. O preço estava bom e ainda consegui um desconto com pagamento em duas vezes. Agora se vira.
-         Virar como?
-         Deixa-me entrar em sala que está no meu horário.
-         O quê eu faço?
-         Não tenho a mínima idéia.

          Fiquei alguns minutos batendo com a ponta do lápis na mesa, olhar no infinito; uma vontade danada de estrangular o Ivan. Afinal as obras do novo curso ainda não estavam terminadas, as finanças à míngua e ainda faltavam alguns dias para o dinheiro novo do mês entrante.
          Carteiras agora? Não seria colocar a carroça na frente dos bois?
          Respirei fundo. Não havia tempo a perder. Rumei para casa do Saboia sem mesmo saber se lá estaria solução.
          Mal toquei a campainha, Luíza fez seu costumeiro alvoroço, tudo fazendo para eu perder a pose.
-         Dona Léa coloca mais um prato que o Leal janta conosco.
-         Não é nada disso, menina!
-         Vai dispensar um jantarzinho?
-         Preciso falar urgentemente com seu pai.
-         Depois do jantar.

          Custei a arranjar um jeito e coragem para falar do meu problema com Dr. Luiz.
          Ao fim da minha arenga o Dr Luiz com toda calma, simplesmente disse:
               -   Onde você está vendo problema?
               -   O senhor me conhece a tão pouco tempo e, não ofereço nenhuma garantia de como e quando saldar essa dívida.
               -   Continuo não vendo onde está o problema! 
               
          Saí de barriga cheia e com um cheque de Cr$ 30.000,00 louco para esfregá-lo na cara do meu sócio tresloucado.
          O futuro haveria de nos ajudar a honrar aquele compromisso. E ajudou...


          - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2002 (parte)



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