por José Carlos Coelho Leal

sábado, 3 de novembro de 2012

'CHEIROS DA VIDA" - nº 58 - ESPELHO, ESPELHO MEU...


                          

           Minha vida mudava de rumo, tomava novo alento, progredia e em decorrência eu vivia muito voltado para dentro de mim, como nunca houvera feito até então e, no entanto, o mundo continuava a girar e as coisas aconteciam.
          Após a fracassada invasão na Baía dos Porcos promovida pela CIA, Cuba definitivamente optava pela União Soviética com Fidel Castro declarando a ilha um Estado Socialista adotando em definitivo o marxismo-leninismo.
          Ainda em outubro daquele ano de 1962 diante da descoberta de que mísseis soviéticos estavam sendo instalados em Cuba, os Estados Unidos bloquearam a ilha e se preparavam para uma invasão quando a União Soviética retirou os armamentos e o bloqueio foi cancelado.
          O mundo mais uma vez livrara-se de um conflito de conseqüências inimagináveis para a humanidade.
Enquanto os Beatles gravavam seu primeiro compacto, Love me Do e P.S. I Love you, a dupla Vinícius e Tom compunha Garota de Ipanema abrindo as portas do Carnegie Hall, de Nova York, para apresentar à cena mundial os principais nomes da bossa-nova.
          Sérgio Porto que criara o personagem Stanislaw Ponte Preta inspirado no Serafim Ponte Grade de Oswald de Andrade era o grande humorista do momento e fazia sucesso com seu livro “Tia Zulmira e Eu”.
Stan, o sobrinho da “veneranda Zulmira” criara um vocabulário próprio que logo se incorporou ao linguajar carioca como: “bossa nova”, “teatro rebolado”, “sente o drama”, “vou te contar” e muito mais.
Leon Eliachar, outro humorista da época dizia: “há duas espécies de humor – o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico e o que é verdadeiramente trágico para se fazer”.
          A intelectualidade moderna e requintada adotava a revista “Senhor” como seu órgão oficial. Nela encontravam as fotos das “musas” do momento, a decoração no estilo barroco mineiro, afinal “não há nada mais moderno que um móvel antigo” e ainda os anúncios “inteligentes, malucos e arrojados”.
Nas páginas de “Senhor” estavam presentes os universos de concreto e vidro de Niemeyer e Sérgio Bernardes, os sofás de couro de Sérgio Rodrigues, e as opiniões dos playboys que freqüentavam o Zum-Zum, o Jirau e o Black Horse.
          “O Cruzeiro” publicava: “Quando Jaqueline Kennedy, pela manhã, pergunta ao seu espelho mágico ‘Qual a mais linda primeira dama na face da terra? ’, já não está certa de ouvir unicamente o seu próprio nome”.
          O fato é que Maria Teresa Fontelle Goulart, mulher do presidente João Goulart, tornara-se, aos 23 anos, a mais jovem, a mais elegante e, seguramente a mais bonita primeira dama do Brasil em todos os tempos.
          Juca Chaves satirizava: “Dona Maria Teresa/ Diga a seu Jango Goulart/ Que a vida está uma tristeza,/ Que a fome está de amargar...”. Maria Teresa jamais se interessou por política. O primeiro e último comício que participaria seria em 13 de março de 1964, no ocaso do governo Goulart.

]        - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo em 2001.




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