por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

           

           "CHEIROS DA VIDA" - 140 -  UM GRANDE PRESENTE

                     Mal havia retornado ao nosso escritório, depois do almoço promovido pelo "General" Masson, antes mesmo de  aproximar de minha mesa, não nos víamos a quase um mês, eis que chega o recado que não gostaria de ouvir: meu chefe precisava falar urgentemente comigo.
            Chegando em sua sala, fui logo ouvindo:
            - Zé Carlos temos tarefa nova e conto com você para, além das atividades de rotina, assuma uma posição de coordenação para a elaboração da "Proposta para o Orçamento-Programa" do Departamento de Urbanização para 1966.
           - Para variar não tenho a menor ideia do que se trata.  
           - É uma empreitada trabalhosa porém fundamental e de muita responsabilidade para funcionamento da Sursan no próximo ano.
           - Em que consiste essa empreitada?
           - Todo o Departamento terá que participar. Nosso trabalho é, primeiramente, coletar as informações relativas ao andamento das obras em execução, aquelas a serem terminadas e, também, as planejadas. 
           - Isso já temos em nossos arquivos que espero estejam atualizados. 
           - Depois temos que seguir passo-a-passo o preenchimento de múltiplos formulários até chegar à nossa Proposta para o Orçamento-Programa do DURB para o ano que vem, evidentemente referendada pela direção do departamento e balizada pelo valores globais fornecidos pela Coordenação de Planos e Orçamentos da Secretaria de Planejamento do Governo do Estado da Guanabara. Vais ter contato permanente com a equipe da Secretaria de Planejamento, cuja maioria você já conhece. Certamente conhecerá também o cabeça de tudo isso: Dr. Jose do Rêgo Monteiro - trata-se de um profissional de primeira e muito entusiasmado pelo que faz. 
            - Bonito o negócio... Por onde começo?
            - Leve para sua mesa toda aquela coleção de volumes que ali está. Lá estão todas as instruções de como proceder, de como obter dados, forma de apresentar as justificativas, os orçamentos e custos, bem como a importância de cada intervenção no Plano de Obras da Cidade.
            - Sei...
            - Te aconselho que antes leia com atenção a Lei 4320/64 que institui o "orçamento-programa" de cada unidade do Brasil.
            - Só isso?
            - Por enquanto.
            - Ta legal!
            - Tem mais. Existem prazos para entrega de cada parte específica.
            - Sem possibilidades de adiamento.
            - Sem!!!
            - O que tem que ser, será. Deus nos ajude...
            Logo que fiquei livre fui atrás da Lei 4320/64 - "Lei nº 4.320, de 17 de março de 1964.
            Estatui Normas Gerais De Direito Financeiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanço da União, dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal ."
            No primeiro dia de trabalho após a Lua de Mel, ganhei esse mais novo presente. O importante é citar que o Estado da Guanabara, foi o primeiro, ou um dos primeiros, a implantar tal "Orçamento-Programa" em todo o Brasil.
            O "Orçamento-Programa" consiste, na realidade, como um plano executivo, um instrumento de planejamento da ação do governo, por meio de seus programas de trabalho, projetos e atividades, além do reconhecimento de objetivos e metas a serem implementados. Todos esses elementos embasados nos respectivos custos e na prioridade real de cada empreendimento. 
            Em suma, todos esses elementos serão previamente elencados e discutidos por toda a equipe técnica da cada setor envolvido e merecerá, uma vez aprovado e, no ano de sua execução, análises de integração, planejamento, orçamento, quantificação de objetivos,  alternativas, acompanhamento físico-financeiro e finalmente avaliação de resultados.
           De imediato fiquei assustado. À medida que manuseei  todos aqueles tomos, verifiquei da importância dos documentos a serem gerados e percebi que à sua conclusão dar-se-ia antes do final daquele mês corrente; ao final estaria conhecedor de cada intervenção da Sursan em cada recanto desta cidade. 
           Seria uma oportunidade ímpar para realmente avaliar de perto todos os problemas urbanos de uma cidade-estado como era o nosso Estado da Guanabara.
           Começava, sem perceber, uma nova etapa de minha vida profissional naquele dois de agosto de 1966.

           


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

          "CHEIROS DA VIDA"  -  139  -   "ACABOU-SE O QUE ERA DOCE"

           - Na segunda-feira "acabou-se o que era doce". Vamos entrar na vida de casados para valer. No meu caso Faculdade pela manhã e Sursan à tarde até a "hora do sei lá...".
           - Mas antes teremos o aniversário do meu maridinho...
           - É mesmo. Dia primeiro de agosto será domingo que vem, primeiro de agosto de 1965; farei vinte e seis anos.
           - A gente prepara um lanchinho, uns docinhos e refrigerantes, um bolo e convida só a família. Pais, irmãos, cunhados e sobrinhos. Está combinado?
           - "Manda quem pode e obedece quem tem juízo". Lá se vão meus últimos cruzeirinhos deste mês.
           - Mas vale a pena.
           - Será a primeira vez que abriremos nossos salões à sociedade - falei com toda a pompa.
           E assim foi. A família estava toda presente ávida de novidades.
           Foi tudo muito bom e sentimos que verdadeiramente estávamos entrado numa nova fase de nossas vidas.
           Na verdade depois de quase trinta dias de "boa-vida", coisa que fazia tempo eu não saboreava, já estava com saudade de meus companheiros de faculdade e do trabalho. E, sobretudo preparado para as gozações que seriam infalíveis.
            Na Sursan então a coisa foi para valer sendo que o "velho" general Masson - já falei dele alguns capítulos atrás - arrastou uma boa quantidade de gente para comemorar minha volta; o "ágape" já estava previamente marcado para a Churrascaria Parque-Recreio, no Flamengo, com seu famoso "filé lanhado no sal grosso".
          Interessante... Agora, no momento exato que recordo essas coisas agradáveis, madrugada já avançada, o inverossímil acontece; sinto uma nostalgia diferente daquelas que senti ao longo da vida. Muito pesada, sacrificante mesmo.
          Tudo que passei nestes últimos meses marcaram fortemente meu sentir. Às vezes pressinto que talvez não tenha mais a capacidade de garimpar meu "inventário de saudades" como gosto de chamar essas linhas. Uma tristeza dorida fere minha alma. Tudo foi tão bom. A vida passou com tanta pressa. E agora...
           Será que isso tudo é consequência só da  doença que me atingiu, ou, existe algo mais a influir nesse estado de espírito.
           Certamente não preciso de muito tempo para chegar a uma conclusão: nunca, ao longo destes setenta e seis anos de vida vi nosso país num estado tão lastimável. Roubado, vilipendiado, anarquizado, humilhado vem dia-a-dia enterrando mais e mais as esperanças de qualquer cidadão que se honra em ser brasileiro.
           Lamentável que tudo isso atinge tão fortemente nosso coração e nos deixa angustiados pois, cada vez mais, ficamos impotentes para romper de vez com esse estado de coisas. Olhamos para nossos  filhos e netos com uma angustia incomensurável.
           Vamos respirar fundo, pedir a Deus forças e continuar sonhando com um Brasil de nossos desejos e recordando o que vivemos que foi, quase sempre, tão bom.           

sábado, 19 de dezembro de 2015

"CHEIROS DA VIDA"  -  138  -   "UMA LONGA  ESTRADA A PERCORRER"


          Num certo parágrafo do Capítulo 77 deste livro, escrevo: "...Sabemos que ainda não estamos livres das ciladas da vida, afinal estamos vivos, no entanto, mais do que nunca,  preparados para enfrentar o que de amargo possa vir pela frente".


          
Passados alguns anos vejo que não sou habilidoso para avaliar o futuro. Acho mesmo que ninguém é.


          Na verdade depois dessa afirmação, certamente influenciada pelo momento feliz que vivia, várias ciladas a vida tem aprontado comigo e, indiretamente, com aqueles que me cercam, principalmente minha mulher, filhos e netos.

          Todos os que me acompanham devem ter notado que há meses tenho estado ausente. Certamente algo deve ter acontecido com o Zé Carlos, pensam. E aconteceu...

          Uma cilada, talvez a mais cruel que a vida  tenha me aprontado. Dela, pouco quero contar; apenas dizer que abruptamente fiquei doente. Após três cirurgias dizem os médicos e, neles devo acreditar, fiquei curado de um câncer que invadiu minha bexiga e próstata. Tudo isso apesar do acompanhamento constante feito ao longo de toda a minha vida  adulta passado os quarenta.


          Realmente uma verdadeira cilada!


          Após a última cirurgia realizada em seis de agosto deste ano de 2015, com duração de quase sete horas, fui devolvido à vida sem bexiga, sem próstata, ou seja, fui submetido a uma "prostatocistotomia radical", herdando uma bolsinha (urostomia: intervenção feita para criação cirúrgica de uma abertura artificial - estoma - dos condutos urinários na parede abdominal) que me acompanhará até o final dos meus dias desempenhando o papel de eliminadora dos líquidos processados em meu organismo.


          Ao final da cirurgia, quando voltei à vida, as primeiras palavras que ouvi do Dr. Paulo Costa Leite, meu amigo Paulinho, foi: "Zé!!! Um trator passou por cima de você e você venceu...".


          
Tania foi mais enfática: "Deus te deu mais anos de vida. Certamente ele conta com você para realizar mais coisas nesse mundo".


          
Na verdade ainda não me recuperei de todo da "porrada" que levei. Os médicos dizem que estou muito  bem.  Para os de casa, que convivem cotidianamente comigo, afirmam: "...o que ainda não está funcionando bem é a cabeça dele!"; essa, infelizmente, não posso extirpar. Afinal sairia mal nas fotografias...


         O que tinha que ser e, o que está por vir, depende pouco de mim e não estou com vontade de me prolongar nesses comentários.


         Quero voltar a contar minhas histórias e a comentar as coisas do mundo que estamos vivendo, preocupadíssimo com os destinos de nosso país.


         Voltemos ao "CHEIROS DA VIDA". Imediatamente. Pois ainda resta uma longa estrada a percorrer...

domingo, 7 de junho de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 137 - NOVA SURPRESA!




          Vamos deixar de lado as preocupações com Gramsci. Pelo menos, por enquanto. Certamente voltarei ao assunto. O recado que gostaria de dar foi dado. Pena que o "povão" não lê e, nem de leve, tem conhecimento dessas ideologias e maquinações. 

          Aliás faz parte da estratégia colocada em ação no nosso país. Dar educação de baixo nível para a população deixando-a à míngua de conhecimentos, ou o que é pior, difundindo cartilhas cheias de inverdades históricas que atendam uma doutrinação de extrema-esquerda padrão "tupiniquim" e, sobretudo, contando com uma mídia cativa dos financiamentos e da publicidade oficial para sobreviver.

          Voltemos à nossa história que estava numa fase maravilhosa e, vai nos encontrar de volta ao nosso apartamento na Estrada Velha da Tijuca, com poucos dias faltando para o término de julho. Os dias irretocáveis que passamos em Minas e, suas cidades históricas, não superaram a emoção de estar em casa novamente. Sempre, para mim, o melhor da viagem era o ato de voltar para casa. Cultivei esse capricho por toda a vida.

          Ao entrar em casa, nova surpresa! Foi abrir a porta, deixar cair as malas no chão e sentir o perfume de uma casa recém limpa. O cheirinho carinhoso invadiu nossos pulmões e foi só olhar o panorama da sala para notar que alguém, ou mais de uma pessoa estiveram ali deixando tudo limpo, organizado e perfumado. Boa notícia pois, ao sairmos, na correria final não deixamos a casa como um modelo de asseio e arrumação. De repente, um susto!

          - Tania, reparou que as portas estão todas fechadas? Será que repetiram a armadilha da noite de núpcias? Se fizeram, certamente capricharam nas novidades e, a barra ficará bem mais pesada. São uns moleques!

          - Você é incrível. Recebe uma casa com um ambiente nota 10 e ainda está reclamando...

          - Vamos logo tirar essa dúvida

          - A porta da cozinha está destrancada.

          - No banheiro está tudo bem e o quarto está livre. Graças a Deus. Repetir a brincadeira seria coisa de muito mau gosto.

          - Bem feito! Queimou a língua. Garanto que Dona Tininha esteve aqui com a Kalú e a Dina e, fizeram uma faxina geral depois dos poucos dias que passamos o tempo todo namorando. E tem mais uma novidade; abri a geladeira e foi reposto tudo o que gastamos em nossos primeiros dias de casados.

         - Não tem mais dúvida. Isso é arte de Papai e Mamãe. Coisa típica deles. Bem que podia ser sempre assim.

         - Quando é que você vai tomar juízo, meu marido?

          - Repete!

          - Repetir o quê?

          - "Meu marido". Como soa bem isso aos meus ouvidos.

          Com um longo beijo comemoramos a volta à nossa casa e continuamos nossa lua de mel no nosso apartamento, transformado-o num aconchego de carinhos e sorvendo todas felicidades de cada momento. Coisa boa de relembrar.



          

sábado, 23 de maio de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 136 - NOSSOS FILHOS E NETOS




          Segundo Antonio Gramsci a tomada do poder, por um regime comunista, não deve se dar pela aplicação da força como aconteceu na Russia.

          No desenvolvimento de sua "tese de conquista" define que deveria acontecer essa tomada do poder na base da infiltração lenta e gradual, sempre por via pacífica, legal e constitucional executada cientificamente através o entorpecimento das consciências via uma propaganda de características subliminares, onde os incautos, normalmente a grande maioria da população, não percebessem tal ação.

          Dois deveriam ser os expedientes distintos a ser aplicados:
          - A conquista da hegemonia;
          - A ocupação de todos os espaços.

          A hegemonia manifesta-se pela criação de uma mentalidade uniforme objetivando levar a população a aceitar, sem parcimônia, como correta as medidas, critérios e situações que no futuro seriam favoráveis a aceitação, sem restrições, do "modo comunista" do uso do poder.

         Para tanto, seriam utilizados os canais formadores de opinião, os intelectuais e semi-intelectuais simpatizantes, ou não, os professores dependentes de seus salários aviltados, a mídia e o mercado editorial.

         Com essas medidas que atingem o poder de manipulação da opinião pública, se torna mais fácil a tarefa de fazer a população esteja incapacitada de analisar de maneira isenta as medidas governamentais e os acontecimentos internacionais divulgados pela imprensa.

         Nesse caso poderiam se enquadrar temas como: desarmamento das populações civis produtivas, aceitação da eutanásia, o aborto, os movimentos bem como os casamentos de gays, da inculpação social pelos crimes individuais quando a serviço de causa e atos de caráter social de movimentos com características claramente guerrilheiras do tipo MST, MLST, etc.

         Cada cidadão passa, sem perceber, a repetir sem consciência própria, as opiniões de interesse ideológico comunista. No momento certo em que o cidadão acredita que está conquistando uma democracia percebe que foi percorrido um longo caminho até o total arrasamento das instituições, a abolição do direito de propriedade e demais direitos individuais. Terão assim os extremados de esquerda se apossado de todo o poder em detrimento da liberdade do povo produtivo.

          Quanto ao segundo expediente idealizado por Gramsci, a ocupação dos espaços, é tão evidente que todos se aperceberam dela e já se sentem impotentes para enfrentá-lo. 

          Neste caso basta citar a criação de vinte mil cargos de confiança no Governo Federal todos ocupados por petistas de todas as qualificações ou, desqualificações, não importa A tomada de assalto do judiciário e, fundamentalmente, de seu órgão máximo o Supremo Tribunal Federal é a coroação de uma metodologia fria de "conquista do poder".

          A pulverização do poder dividido num número indesejável de ministérios, a mentira como arma corriqueira de propaganda e o abandono da educação e saúde são estágios de uma marcha premeditada e covarde.

          A destruição definitiva da infra-estrutura, o desmantelamento das estatais, o protecionismo através dos recursos arrancados das mãos do cidadão pelos impostos mais altos do mundo civilizado, para financiar países dominados por ditaduras de esquerda e com a participação do BNDES é um expediente odiento que favorece, inclusive a corrupção em alta escala.

          Finalmente não esquecer o sucateamento das forças-armadas, a criação de forças revolucionárias vindas de republiquetas do exterior tudo obedecendo as diretrizes do famigerado Foro de São Paulo.

         Para encerrar esse desagradável assunto jamais se viu em nossa terra um presidente sair incólume a todos os desmandos possíveis.

        Todo cidadão consciente deve analisar o que vem acontecendo em nosso país e avaliar em que degrau estamos nessa escalada inglória, perversa e contrária aos destinos de uma nação livre que nasceu à sombra da Cruz de Cristo.

         Devemos orar muito para que Deus se apiede de nós e, principalmente, nossos filhos e netos considerando, sobretudo, que a família formal vem sendo atacada diretamente pelos meios modernos de comunicação.               

          

"CHEIROS DA VIDA" - 135 - A MISSÃO.




          O país está em crise. Trata-se de uma verdadeira convulsão política, econômica e social sem precedentes. Aquele que arriscar um desenlace para este caos que estamos vivenciando será um mero jogador palpiteiro. 

           A auto-estima do povo brasileiro está no mesmo nível de nossas atuais "reservas hídricas", usando o chamado "volume morto". A total demonstração da falta de vergonha aplicada pela classe política, aliada aos níveis de corrupção apocalíptico-obsceno, arranca do cidadão comum a mais tênue esperança de uma solução a curto ou médio prazo. 


           Apesar de tudo os escândalos financeiros continuam acontecendo e, a violência e o desemprego crescendo de maneira avassaladora. Dizem até que não há mais luz no fim do túnel; "foi cortada por falta de pagamento...".


           Um possível projeto ideológico de extrema esquerda que se imaginava estar sendo implantado, por si só perigoso e totalmente avesso à índole da grande maioria do povo brasileiro, assim como foi repudiado em 1964, tornou-se novamente uma paixão desvairada pela tomada do poder "ad-aeternum".


           Veremos, mais adiante, que tais fatos não se sucedem atoa, estando a serviço de uma ideologia espúria. 


          Agora, a "intelligentsia-esquerdista" que não é o Lula, José Dirceu, Dilma e demais asseclas que detém o poder (esses "marionetes" apenas põem em ação, algo planejado por gente de capacidade política muita acima deles); cumprem com diligência o que Antonio Gramsci preconizava na década de vinte, do século passado, para chegada ao poder total de uma doutrina comunista que viria, neste início de Século XXI a dominar o maior país da América do Sul, com consequências impensáveis para todo o resto do mundo civilizado.


          Infelizmente, sinto-me na obrigação de expor resumidamente toda esta teoria, que vem sendo imposta, lamentavelmente, com muito sucesso em nosso Brasil. Sou instado a deixar de lado a minha história que vinha, com certeza, descrevendo a fase mais feliz da minha vida. 


          Muito angustiado com a situação de nosso país, não consigo prosseguir com minha viagem no tempo, sem expor o que relato a seguir.


         Basta analisar todos os fatos que vem ocorrendo nos últimos doze anos, para certificar que passo a passo vamos seguindo, iguais "carneirinhos inocentes", o caminho preconizado por Gramsci sem tomar conhecimento (a grande massa) do gigantesco precipício que nos aguarda à frente.


         Tendo em vista essa explanação, tomo como missão escrever algumas linhas sobre esses fatos. É o que farei a seguir da maneira mais concisa possível. Espero que consiga.


____________________________________

- Antonio Gramsci - Filósofo, político, cientista político, comunista e antifascista italiano (1891-1937) -  Em 1926 após atentado contra Mussolini é preso, com outros deputados comunistas em um cárcere em Roma; obteve liberdade condicional sendo solto em 25 de outubro de 1934. Morre em Roma na madrugada do dia 27 de abril de 1937.          

          








quinta-feira, 23 de abril de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 134 - DIAS DE JAMAIS ESQUECER





          Apesar de cercado por meus parentes e amigos rapidamente cheguei ao carro. A porta já estava aberta sustentada pelo impecável Pedro postado qual sentinela à espera da noiva. Trocamos rápidas palavras, o suficiente para reparar que meu "elegante" motorista estava muito atento ao que se passava em volta. Achei estranha sua atitude e, imediatamente lembrei-me do tal "zum, zum, zum...".

           Ato contínuo consegui olhar em volta e reparei que todos, após um ligeiro cumprimento,  se dirigiam com inusitada pressa para seus carros. Logo em seguida ouviu-se o roncar dos motores um após outro. Não havia mais dúvida, estavam iniciando, certamente, algum trote para nós.

          Depois de livrar-se das derradeiras recomendações, abraços e bençãos de Dona Nice, Tania finalmente se aproximou acomodando-se confortavelmente esperando a minha entrada para um beijo delicioso. Pedro pôs o carro em marcha arrastando um sem-número de latas barulhentas e, seguido de um verdadeiro desfile de carros piscando os faróis e buzinando seguidamente, desrespeitando acintosamente a "Lei do Silêncio"; afinal já passava muito da meia-noite e a madrugada de sábado já se fazia presente.

         Essa barulheira nos perseguiu ao longo de todo o bairro até a Estrada Velha da Tijuca e, ao diminuir a velocidade para  fazer o "balão" de acesso à minha garagem deu para reparar na esquina um cartaz de de certa monta com os dizeres:"Silêncio! - Casal em lua-de-mel no 38".

         Enquanto pegávamos nossos pertences e, caminhávamos até o elevador, a "barulheira" continuou" com diversas voltas, daquele séquito inusitado, em torno do pequeno quarteirão que cercava nosso edifício. Provavelmente todos acordaram e, deviam estar indignados com o novo vizinho que já chegava tirando o sono de todos os moradores.

          Entramos no apartamento; depois de um beijo demorado na minha mulher, estava louco por um copo d'água, o primeiro que tomaria na "minha casa".

          Impossível! A cozinha estava trancada sem a chave na fechadura. Seguramente mais uma molecagem dessa "patota-sem-o-quê-fazer".

         Em cima da mesa da sala um pequeno aviso: "Vocês estão ansiosos pela chave do quarto, certo?".

          - Acho que esses caras foram longe demais.

          - Fica calmo e leia as instruções.

          " Sigam as instruções com toda atenção, caso contrário irão passar a noite de núpcias dormindo no sofá e sem direito a um banheiro para um banho saudável, etc. etc.".

          - Isso é que é mancada. Comprei o apartamento de meu irmão e nem tive a maldade de trocar o segredo da fechadura. Devem ter aprontado "o diabo" nessa casa...

         - Eles não iriam aprontar nada desagradável. Vai com atenção colecionando os papeis em ordem, aconselhou Tania.

         "Procurem a chave do quarto debaixo do sofá". Lá encontramos novo bilhete: "Chave da Cozinha. Pensando bem já é alguma coisa. Fome vocês não passarão.".

          Tremulamente pequei a chave e abri a porta da cozinha. Tomei de um copo e abri a geladeira e, aí, tive a primeira surpresa agradável. Papai havia cumprido sua palavra e a geladeira estava generosamente abastecida de todas as guloseimas que durariam dias para serem consumidas. Em cima do fogão havia novo bilhete: "A chave dá área está dentro do forno do fogão. Procure e não levarão muito tempo para achá-la". Levamos.

          Aberto o acesso à área de serviço, exultei: pelo menos teremos disponível um banheiro de empregada. Ledo engano...

         Olhando para cima verifiquei pendurado no varal de secagem de roupas um envelope; "Chave do quarto de empregada".


         Novo aviso em cima a cama de empregada: "Cuidado para não se perderem. Até agora vocês estão indo bem. A chave do banheiro está dentro de uma das caixas das coisas pessoais da Tania dentro do armário."

         Mais tempo passando mas, achamos a chave na ultima caixa vistoriada".

         Outro aviso. "Alvíssaras! Não precisarão fazer xixi pelos cantos; a chave está no fundo desta caixa.". Reviramos tudo e finalmente encontramos a bendita chave.

          Abrimos o banheiro e nos servimos dele. Menos mal.

          Pendurado na cortina do box estava o recado; "Chave do banheiro social. Que tal procurar em cima do armário da cozinha.". Essa foi fácil de achar.

         "Mas como vocês estão com pressa... Afinal têm toda vida para estarem juntos. Voltem para cozinha e, finalmente encontrarão a tão desejada chave. Na cozinha abram a lata de mantimentos que contém o estoque de arroz.

Muito Cuidado!".

          Misturado com o alimento estava o derradeiro aviso.

         Corremos para a cozinha e não demoramos a achar um aviso escrito em um papel minúsculo. "Fim da jornada. A chave do quarto está no fundo da lata que guarda os cinco quilos de açúcar". O negócio era arregaçar as mangas e achar a bendita chave...".

        Foi o que fiz com uma pressa e angustia de estourar o coração. Depois de tirar a camisa enfiei o braço na lata e, até com certa facilidade, achei a bendita chave". Não sei quanto tempo durou essa busca.

        Finalmente, ao entrar no quarto um perfume suave nos invadiu e a cama estava preparada como num hotel "cinco-estrelas". Coisa típica de Maria Helena, minha cunhada.

        Em fim valeu!!!

        Agora que me desculpem meus leitores, a história é privativa. Só posso adiantar que a seguir desfrutei dos dias mais felizes de minha vida e, na segunda-feira, na hora de ir para São Lourenço combinamos de comum-acordo passar mais alguns dias em nosso apartamento, mesmo porque estava chovendo muito e nossa casa estava mais aconchegante como nunca. Alguns dias depois saímos de nosso ninho e fomos para Belo Horizonte e cidades históricas.

          Dias de jamais esquecer!!!

        
         

sábado, 18 de abril de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 133 - COISA MUITO FINA





          Tania e eu havíamos combinado  que a Noite de Nupcias seria celebrada em nosso apartamento. Lá também deveríamos passar os primeiros dias de nossa vida em comum. Para nós não havia lugar mais apropriado e significativo. Nossa casa, fruto do nosso amor, nosso esforço e símbolo de uma conquista feita a dois, com o mais sublime dos carinhos. Nesses cinquenta anos de casados que iremos completar em julho, jamais pagamos um centavo sequer de aluguel. Os vários tetos que nos abrigaram ao longo de nossas vidas, sempre foram frutos do nosso trabalho; dedicação, amor e afeto perenes.

          Achávamos mesmo que não tinha sentido que tudo acontecesse em um apartamento de hotel, por mais luxuoso que fosse, totalmente anônimo e, que não teria, para nós, o menor valor sentimental. Os "cruzeirinhos" a serem gastos poderiam ficar reservados para mais alguns dias de viagem que havíamos planejado para São Lourenço.

         Ainda na recepção, dois fatos inusitados.
Em certo momento a festa parecia esvaziar-se com a ausência de vários convidados, principalmente parentes mais chegados da Tania. Achei intrigante tal descortesia. Rapidamente esclareci o problema.

          A TV Tupi estava apresentando, aquela época, os últimos capítulos da novela "O Direito de Nascer". Principalmente as tias e primas da Tania acorreram à casa dos vizinhos, todos da família, para assistir, se ao menos fosse, o final do capítulo daquela noite.

         Claro que fiquei muito magoado; Tania, nem tanto pois, sua capacidade de aceitação dos fatos sempre foi muito superior à minha. Acabamos levando na "esportiva" mas, mesmo assim não deixei da fazer uma evidente cara "de poucos amigos" para uma "plêiade" de fujões.

         Outro fato, esse comum de acontecer numa festa como aquela, um certo "zum,zum,zum...". Certamente estavam aprontado "algo"para nós. Quanto a isso não liguei e preparei meu espírito para aguentar o que viesse acontecer. Nada poderia diminuir minha alegria e felicidade...

         Depois do brinde e do bolo, além das cantorias, palmas abraços e beijos, Tania e eu estávamos muito cançados e, loucos para zarpar para "nossa casa".

        Tania pediu licença a todos os convidados e subiu ao seu, agora, antigo quarto de solteira para trocar de roupa. Alguns minutos, muitos afinal, desceu a escada, elegante como sempre, vestindo um redingote na cor rosa-claro. Mais linda do que estava, impossível . Alguém, não lembro quem, desceu em seguida com duas pequenas maletas que levou para o carro à  nossa espera. Pedro lá estava pronto para prestar sua derradeira tarefa do dia: nos levar à Estrada Velha da Tijuca, 38 Apto. 304 - a residência do casal Tania e José Carlos. 

          Coisa muito fina!!! 

segunda-feira, 13 de abril de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 132 - A CELEBRAÇÃO DA MISSA NUPCIAL




          Voltemos ao cenário montado na Igreja de São Pedro de Alcântara. Com bastante empáfia dizia ao meus amigos que meu casamento fazia parte do calendário das comemorações do IV Centenário de Fundação da Cidade do Rio de Janeiro.

          Um fato inusitado, para muitos, aconteceu no transcorrer da cerimônia. Estávamos em pleno desenvolvimento do "Concílio Vaticano II" que se encerraria em dezembro daquele ano de 1965. Algumas modificações na liturgia da Missa já haviam sido adotadas.


         Assim, em casos especiais, como numa Missa Nupcial, entre outros, o Bispo podia autorizar que a comunhão dos noivos se fizesse sob as duas espécies, do pão e do vinho. Frei Gabriel tomou as providências necessárias e, Tania e eu comungamos nesta nova modalidade, criando uma expectativa altamente indagativa de praticamente todos os presentes, que se perguntavam baixinho se aquilo era válido.


          Para alguns conservadores tal fato representava uma ação inovadora talvez desrespeitosa aos tradicionais "cânones" da Igreja. Tão concentrados estávamos no ato que celebrávamos que, só tomamos conhecimento destas reações já durante a recepção acontecida na casa dos meus sogros, à Rua Morais e Silva, 19.


         Foi com emoção renovada e muito respeito que recebemos a Santa Eucaristia que iria dirigir nossos passos nesses quase cinquenta anos de vida comum. A plenitude da presença de Deus em nossas vidas fez-se sentir com vigor, esperança e confiança no porvir que certamente nos presentearia com filhos e netos maravilhosos.


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Tania e Eu recebendo a Eucaristia   sob a espécie do vinho. Novidade para a época.



                     



sexta-feira, 3 de abril de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 131 - OS DERRADEIROS PASSOS ATÉ O GÓLGOTA





              Sétima Estação 

              - Jesus cai pela segunda vez


              Como para demonstrar que suas forças não são superiores às de quantos pertencem, como ele ousou pertencer, à espécie humana, sob o peso da cruz, Jesus caiu mais de uma vez. Como para mostrar que a misericórdia não tem limites, por mais uma vez caído, ele mais de uma vez levanta.

             Essa capacidade de constantemente levantar-se, de a cada momento recuperar a força perdida, é essa força estranha a nós, mas dentro de nós, chamada fé. Onde termina a força humana, começa a obra da graça. Onde nada mais fica de pé, ela ergue, o seu triunfo sobre a fraqueza humana, e o transfigura, e o dignifica. E o justifica.

             Jesus derrotado foi o Jesus triunfante. No seu martírio, a sua glória. Não se compraz no sofrimento, mas o supera. Não se limita a sofrer por sofrer, ele tem a quem oferecer sua mágoas, sua lágrimas, seu suplício.

             Não é um  Cristo inerme e débil, é um Cristo forte esse generoso Cristo que enfrenta o seu sofrimento e acaba por vencê-lo. É um Cristo vitorioso, esse que a cada queda se engrandece. Não se deixa abater quando cai, antes seu vulto mais cresce no exemplo que nos dá de sua força, feita de uma invencível vontade de chegar até o fim sua missão, de cumpri-la como razão de vida ainda mais do que de morte.

             A morte de Cristo é uma porta aberta á sua ressurreição. A sua morte nos aproxima dele, porque somos seus irmãos na eternidade. Mas a sua vida o identifica conosco, como se fosse um de nós.

             Só quem cai pode levantar-se. Só os soberbos não caem, por isto nunca se levantam. Só os humildes de coração sabem que, vencidos, são vencedores.


             Décima Estação

             - Jesus é despojado de suas vestes

             Tiraram-lhe manto e o disputaram no jogo. Rasgaram-lhe a túnica e revelaram ao povo o corpo de Deus feito homem. É bem fraco esse corpo que suportou o suplício e a agonia de morte.

             Julgavam-se fortes, os que o despiam. Não sabem que os que se julgam mais fortes, e por isso exibem a sua força opressora, são os mais fracos de todos. Precisam exibir o que supõem possuir, para esconderem dos outros o que a si mesmos já não conseguem ocultar.

             O medo dos fortes vem da consciência que têm de sua íntima fraqueza.

             Jesus martirizado, este. sim. é forte, porque não pertence a ninguém, não depende de nada. Desde que venceu o sofrimento, este começa a não existir. Então a fraqueza se torna força. Os que se julgam fortes, com medo de tudo, com medo de todos, perdem toda grandeza e se tornam mesquinhos diante do irremediável.

           Naquela hora, no alto do monte, os soldados que disputam nos dados o manto de Cristo são fracos, precisam distrair-se para não se revoltar, precisam encher-se de ódio para que a compaixão não os domine, nem os paralise o remorso.

           Sozinho, fraco, desarmado, desfigurado pela tortura, coroado de espinhos e de injúrias, o Cristo é o mais forte. Os torturadores tiveram muitos descendentes, os fracos que se fingem fortes, os insinceros, os que não ousam encarar a verdade e abraçar-se a ela. Mas ninguém conhece o seu nome. E todos se envergonharão quando  souberem quem são, ao saber que foram, naquela tarde, no alto do monte, os que riam e jogavam sobre o manto de Senhor.


             Décima Terceira Estação

             - Jesus é descido da cruz.

             O corpo que gente piedosa retira da cruz é o de um morto. A cena destina-se a dar a todos a certeza de um Deus se fez homem. Não é por acaso que ali está o corpo que vai à sepultura. É para que saibam que ele é carne e osso, e não apenas um espírito etéreo, imaterial. Os que lá estavam, no alto do monte, viram quando ele morreu, e vêem agora quando despregam da cruz o corpo magro, lanhado de chicote e rasgado de lança. Suas mãos, seus pés foram pregados à cruz onde agonizou aquele moço de 33 anos, depois de uma vida dedicada a nos ensinar a viver.

            Como da semente disse seu discípulo João, quando a depositam na terra escura, ela primeiro morre para depois renascer como planta que dá flor e fruto. Assim o corpo de Jesus vai para dentro da terra. É um Deus que morreu. Os deuses antigos quando os homens procuravam matar sua fome de absoluto, seu desejo de explicar o sentido da vida e encontrar os caminhos da eternidade, moravam distantes do homem, faziam incursões na terra mas aqui não demoravam. Os deuses antigos separavam os homens porque se separavam dos homens. Eis o Cristo que veio para unir os homens, unindo-se à humanidade. Esse filho de Deus se fez homem para que os homens saibam o que são, reconheçam sua origem e compreendam para onde vão. Por isso há quase 2 mil anos quanto mais negam a sua existência mais ele afirma a sua presença.

             Jesus agora morreu, como toda a gente. Um dia tal como Jesus, toda gente ressuscitará.

             
             Aqui se encerra essa série de capítulos. 

             Há muito tempo não atravesso esses dias da Semana Santa tão profundamente envolvido nos acontecimento da Paixão de Cristo como neste ano de 2015. Por alguns momentos esqueci de todas as sérias crises que vimos passando. Meditei sobre esses acontecimentos de suma importância para toda a humanidade inspirado por um texto escrito por um "político" polêmico, porém um lutador que jamais esmoreceu na pugna por aquilo que sua consciência balizava com justo e certo para seus compatriotas.

              Sei que poderei afetar crenças, certezas, ideologias e tudo mais  que envolve a pessoa que evocou essa verdadeira oração que seguimos passo a passo. Sou no entanto compelido, por uma questão de justiça, afirmar:

              Obrigado Carlos Frederico Werneck de Lacerda!!!

"CHEIROS DA VIDA" - 130 - MARIA, A AUXILIADORA E O MEDO DE AMAR





            Quando comecei a postar esses recentes capítulos sabia que haveria reações devido ao personagem central de que tratam os textos.

          Alguns telefonemas, e-mails e até conversas informais nos meios onde transito atestam esse fato. Respondo, de imediato, que nada mais natural nesses dias da Semana Santa, para um Cristão, do que tratar das ações de Jesus Cristo no transcorrer dos últimos momentos de sua vida pública.


           Alguns não aceitam a minha ponderação e, se referem a Carlos Lacerda, sobretudo aqueles que já passaram dos cinquenta. Até os dias atuais as reações de amor e ódio referidas a Lacerda não cessam apesar de ter saído da história há quase quarenta anos atrás.


          Repito: o personagem central é Cristo onde alicerço minha fé. Vamos portanto continuar nossa peregrinação e deixar de lado as ofensas e os elogios. Coisas efêmeras em vista do tema principal.


          É importante também esclarecer, mais uma vez, que este feliz encontro com essa verdadeira oração escrita por Carlos Lacerda decorre da consulta ao livro "Carlos Lacerda - Meu Amigo" escrito pelo Doutor Antonio Dias Rebello Filho, médico particular de Lacerda por décadas. Espero que estas postagens não gerem para mim processos referentes a direitos autorais quer em relação ao autor do livro, quanto à família do verdadeiro escritor do que está sendo postado, Lacerda. Para mim essas publicações fazem parte de um tributo ao grande tribuno brasileiro.

   
           Outro detalhe: no livro consultado é dito que Lacerda não terminou sua obra, morto que foi ao longo da elaboração de sua "Via Sacra".
Na realidade são oito o número de estações publicadas. Não sei se o autor por alguma questão pessoal tenha omitida a publicação de alguma outra Estação escrita por Lacerda.

           Vamos seguir nossa oração:


            Quarta Estação


            - Jesus Encontra Sua Mãe


           Na confusão da ladeira, Jesus e Maria se avistam. Enquanto o próprio Cristo, feito homem, quase desespera, sua mãe sempre confia. Precisa ajudá-lo na tarefa que se impôs. Por isto lhe traz, sobre a cabeça de curiosos e de aflitos, um olhar de paz e compreensão. Ela é a que não julga. É a que ajuda. A auxiliadora.


           É possível que, naquele momento, Maria se lembre de uma noite, há 33 anos passados, quando a viagem se interrompeu, não havia vaga na hospedaria e por isto José levou-a à estrebaria, onde ela deu ao mundo o seu menino.


          Então um anjo anunciou alegria para todo o povo porque tinha chegado o Salvador que agora vai morrer para cumprir sua missão.


          Em vez da estrela que naquela noite antiga se ascendera, hoje as trevas vão cobrir a terra. No luto do universo brilhará somente uma luz, a das lágrimas de Maria. Seu filho é o cordeiro de Deus que curte os pecados do mundo. Porém ela chora pelo menino que ele foi, pelo homem que ele é.


          Na participação está o seu exemplo. Na resignação, sua força. Maria de Nazaré parece fraca; é a mais forte. Parece nada; é tudo. Na hora da morte, Jesus apontando um moço:"Eis ai o teu filho". E ao jovem discípulo dirá: "eis ai a tua mãe". Jesus cumpre a sua missão no mundo. A missão de Maria continua. Adotará os seguidores de seu filho para animá-los, compreender suas angústias, perdoar seu erros. Antes de morrer na cruz o filho pede que ela seja a mãe de todos. E Maria, também, faz a vontade de seu filho.


           Quinta Estação


          - O Cirineu  ajuda a levar a cruz


          Chamava-se Simão, era da colônia romana de Cirenéia. Vinha do campo e apenas passava, na ocasião. Entre os que choravam e os que zombavam de Jesus havia muitos como Simão. Em que pensava? Do que cuidava esse homem que vinha do campo e apenas passava, na ocasião?


           Só os incidentes e preocupações de sua vida, com certeza, lhe interessavam. Meus filhos, que será deles? Minha lavoura, meu jantar desta noite, minha conta amanhã? Simão era de um tempo habituado à violência e à mera competição. Que mal lhe faria uma cruz a mais no ombro de mais um outro, no fim do dia repleto e no entanto - vazio, no fim das horas trabalhosas - e no entanto vadias?


           Mas os soldados da escolta estão com pressa e Jesus não aguenta o peso da cruz, que sozinho assumiu. Os soldados meio que convencem meio que obrigam Simão  a ajudar Cristo. É mesmo pressa dos saldados ou oportunidade de Deus? Simão padece daquele mal de tanta gente, o medo que tantos têm de se dar mal se ousarem procurar o bem.


          Simão morreria anônimo, sem história nem consequência, se não o tivessem obrigado a se livrar de sua invisível prisão, a romper com a indiferença que o mantém emparedado no meio da multidão. Simão descobre novas coragens, perde esse medo, o mais horrível de todos, chamado medo de amar.


           Porque deu de si o que podia, já não foi nunca mais um Simão qualquer... Foi Simão livre de egoismo, Simão limpo de remorso. Para dividir o peso da cruz com ela afinal se abraçou.


          Em vez da vida inútil e a morte obscura, Simão chamado o Cireneu naquela tarde de trevas seu futuro iluminou. Pois Rufo e Alexandre, que assim se chamavam seus filhos, pela ajuda de pai se tornaram cristãos.



"CHEIROS DA VIDA" - 129 - TRATA-SE DE UMA MISSÃO






          Estou escrevendo essas páginas em plena Semana Santa de 2015. Sinto, como explanei anteriormente, que a chegada às minhas mãos do livro sobre Carlos Lacerda a que venho me reportando não foi obra do acaso. 

          Encaro tal acontecimento de uma maneira quase mística, como se a mim fosse passada uma missão de tornar mais conhecida essas laudas escritas por um homem primordialmente político, intelectual, argumentador arguto, questionador implacável, critico contumaz, orador envolvente, além de escritor, jornalista, financista, empresário, e não sei quantas coisas mais. Até tradutor e redação de legendas de filmes estrangeiros ele foi quando do exílio.

         Tornar mais conhecidas páginas impregnadas de religiosidade, sensíveis e que, querendo ou não, nos toca a sensibilidade de forma arrebatadora nos envolvendo numa aura de paz, fé e profunda reflexão sobre o projeto divino em nossas vidas.

         Depois de transcrever ipsis litteris a narrativa da Primeira Estação me senti tentado a resumir as demais para não tornar longo em demasia os capítulos a seguir. Depois de analisar cada texto, ler e reler cheguei a conclusão ser essa missão impossível e, certamente, deselegante com o autor. Vou transcrever  cada trecho na integra. Aos leitores fica delegada a responsabilidade excluir a leitura dos capítulos considerados supérfluos.

          Segunda Estação

         - Jesus com a cruz às costas



           
          Porque a crucificação era o modo mais infamante de morrer, foi escolhida para Jesus Cristo. Naquele tempo o povo falava por símbolos. As histórias eram apólogos, e as lições, parábolas. Por isto cada fato contém uma significação, cada episódio uma alusão, cada personagem um papel, cada história, uma conclusão. Assim é o caso do Cirineu que foi obrigado a ajudar Cristo a suportar o peso da cruz. É o do próprio Jesus que nos ensina a enfrentar a a vida com coragem para salvá-la; a encarar a morte com resignação, para merecê-la.

          Não faltaram desafios. "Se és filho de Deus. desce da cruz", zombavam curiosos e incrédulos, amontoados no estreito caminho que se chamou "Via Dolorosa".

          Esses também têm descendentes. São os que só acreditam no êxito imediato e na vitória sem esforço. Se fosse para se salvar a si mesmo, por que viria Cristo ao mundo?

          Ao suportar, como homem, o peso da cruz, Jesus veio ser um dos nossos, para nos lembrar o que há de divino em cada um de nós. O filho de Deus não foi poupado ao sofrimento antes de voltar para a casa paterna, ao fim da peregrinação no país dos homens. Pois o Pai "não dá o que se pede e sim o de que se precisa".

          A sua resignação não é passiva, e atuante. Não é morna, é ardente a paz que nos oferece. O amor que eles nos tem é exigente. Por que não havemos de retribuir, imitando-o? Não chegaremos a ser o que ele foi. Mas o mérito consiste em procurar ser.

          Quando tomou nos ombros a cruz, ele tornou mais leve a nossa. Como Cirineu o ajudou, assim Jesus nos ajuda.

          Pelo exemplo, ele nos deu um ponto de apoio.

         
                  Sejam, pois, nossa cruzes, alavancas com as quais transformaremos o mundo até que, numa primavera de amor, no pesado lenho refloresça a árvore da vida.

          Terceira Estação

          - Jesus cai pela primeira vez.

          Esse que andou sobre as ondas, a caminho dos discípulos, agora se arrasta com sua cruz nas pedras da cidade, ao encontro da morte. O povo que o recebeu com festas hoje se divide entre os que o desprezam porque Ele não se livra do martírio - e os que se comovem não entendem sua lição.

          Ele pôde livrar os outros do mal, mas não se livra a si mesmo. Pôde ressuscitar os mortos mas não impede que o matem. Pôde multiplicar o pão mas não estanca o sangue das torturas que sofreu.

         É que ele pena pelos oprimidos. Ele sofre pelos inocentes e até pelo arrependimento dos culpados.

         Vítima de sua humana fraqueza, sob o peso da cruz ele cai. Quem o levanta é a divina força da fé.

          Sempre que a frágil condição humana nos derruba, possa nos erguer o que de divino existe em nossa natureza. Essa força que ninguém pode destruir dentro de nós, senão nós mesmos, é a mesma que levanta Jesus das pedras de Jerusalém. É semente da fé, que Deus plantou em nós.

          Mas, a fé não cresce sozinha. Como as plantas raras, tem de ser cultivada para não degenerar. Como a água, tem de ser purificada para não se poluir. Como o fogo, precisa ser avivada para não apagar. Ela não é apenas espetacular e grandiosa. Guia nossos passos mais anônimos e inspira nossos mais humildes pensamentos. Dá coragem a quem tem medo; e ao temerário, prudência. Dá á própria mudez eloquência; e povoa de música o silêncio mais terrível. Faz de um sorriso um tesouro. E de um simples olhar faz duas estrelas cintilantes.

         Sem a fé, nossa vida não passa de uma obrigação obscura e monótona. Com ela, se transforma numa fascinante peregrinação

quinta-feira, 2 de abril de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 128 - O FIM DA "VIA CRUCIS" PESSOAL DE CARLOS LACERDA



                     Do mesmo livro no qual venho percorrendo a "Via Crucis", segundo a visão de Carlos Lacerda, sinto a necessidade de transcrever suas derradeiras linhas que coincidem com a morte deste grande cidadão brasileiro. É o que farei a seguir.

          ... Ele ainda me reconheceu e, ansioso e inquieto, pediu:
          - Rebello, me tira esses tubos; esses homens estão me matando...
          Tentei acalmá-lo. Era inútil: a agitação persistia.
          Procurei completar o eletrocardiograma, que não pudera ser feito até o final, mas que não obstante, indicava, de modo insofismável, nas derivações realizadas, a causa daquela tragédia: infarto agudo do miocárdio.
          Nesse momento, alguém da valorosa e dedicada equipe  que atendia o enfermo disse:
          - Não adianta mais.
          Olhei e, aterrorizado, vi Lacerda inconsciente e enrijecido, em convulsão tônica.
Logo sobreveio o relaxamento, mas também a respiração difícil, estertorosa e irregular. Cessaram afinal os batimentos cardíacos.
          E, ás 2 horas da madrugada daquele sábado trágico, 21 de maio de 1977, assisti, perplexo e impotente, como, de um instante para outro, cessou a vida e surgiu a morte.
         A morte do amigo querido, como poucos em minha vida.
         A morte do homem bom, generoso, capaz de amar e perdoar, de rir, de criar amizades duradouras, e de, com ardor insuperável, lutar as boas lutas e combater o bom combate.
         A morte do homem inteligente que, pelos tempo afora, provocará, nas gerações vindouras, admiração pela obra jornalística, política, administrativa, e literária que realizou.
         Ao morrer Carlos Lacerda, focou-nos, aos amigos e companheiros, a saudade indelével, que nunca se apagará. À Pátria restou o vácuo difícil - senão impossível - de ser preenchido.
         Permanece, contudo, para ela e para os amigos de Lacerda, o exemplo dignificante de sua vida, dedicada por inteiro ao bem comum e alicerçada na inteligência, na honradez, na energia e na coragem altiva e, até mesmo bravia. E duram e perduram as lições que nos legou, de humildade e grandeza.

          Que, embora já tardiamente, a Pátria, que tanto amou, lhe reconheça os méritos e lhe reverencie a memória.
         Como, de há muito fazem seus incontáveis amigos.

         Analisando, hoje, a situação de nosso país, chegamos à conclusão que meia dúzia de homens como Lacerda mudariam o rumo desastroso que percorremos.
         
         No próximo capítulo voltaremos ao que mais importante contém a "Via Sacra" sob a visão deste grande brasileiro. Amado e odiado.
Fiel até o fim às suas ideias e leal à terra que o viu nascer.

        Assim penso eu...

       

"CHEIROS DA VIDA" - 127 - "A VIA SACRA" DE CARLOS LACERDA



                      Faz menos de um mês, andando pela Avenida Rio Branco, fui atraído por um tabuleiro cheio de livros, um dos muitos que existem por ali no trajeto de entrada da Estação Carioca do Metrô. Sempre que passo nesse local, com tempo, fato raro ultimamente, procuro dar uma olhada nos livros em exposição.

          Muito frequentemente sou seduzido por boa quantidade de títulos em exposição, mas um certo preconceito ou, a falta de dinheiro para esbanjar, cada vez mais corriqueiro no meu viver (graças principalmente à covardia de Lula, Cesar Maia e Helen Gracie - nunca esqueçam  esses nomes de "vendilhões do templo"), faz que me afaste com certa pressa para evitar a tentação em comprá-los, talvez vários.


           Naquele dia, no entanto fui atraído por um livro em destaque: "Carlos Lacerda - Depoimento". Esse livro fazia parte de minha modesta biblioteca e desapareceu por encanto. Certamente foi emprestado para alguém que gostou muito e o anexou à sua coleção ou, o abominou e o depositou no lixo como sua derradeira morada.


           Conversando com o livreiro da banca, o Sr. Nilo, um "quase-velhinho" simpático e falante, idade análoga à minha, mais um dos meus novos "velhos amigos" que faço, expressei minha velha querença de ter certo livro do Lacerda "A casa de meu avô".


          - Lá em casa tenho certeza de ter em estoque esse livro, talvez mais de um exemplar. Me dê quinze dias, o tempo de revirar aquela montanha de volumes. Volte aqui, nesse prazo; o trarei para o senhor.


          - Vou cobrar? Volto breve!


          - Pode voltar; vai ter seu livro.


          - Vamos ver!


          - Pode voltar...


          Nesta segunda-feira, dia 30 de março de 2015, vítima que fui de mais um dos quase cotidianos e monumentais engarrafamentos impostos por nosso "lamentável" prefeito, o "Dudu", para os muito "íntimos", em decorrência da "derrubada da Avenida Perimetral" (só para avivar a memória: por onde andam as vigas metálicas de quarenta toneladas cada, cuidadosamente tratadas eletroliticamente para durarem quatrocentos anos, resistentes o suficiente para enfrentar às intempéries agressivas de uma região junto ao mar e que foram, simplesmente surrupiadas?); em decorrência, optei por vir a pé pela Av. Rio Branco desde a Avenida Venezuela com destino final no Castelo.


           Passando pelo edifício Avenida Central lembrei do Nilo. Lá fui eu para a galeria dos livros, um verdadeiro "festival de sebos".


           De longe o Nilo me avistou:


           - Dr. José Carlos ainda não encontrei seu livro. Vou achar, nem que seja com algum colega. É só questão de tempo.


           - Você está embromando...


           - Negativo! Para provar minha vontade de atendê-lo, separei aqui um brinde para o senhor. Deixa ver... Aqui está.


           - Quanto custa?


           - Nada! É um presente para o amigo.


           - Presente? Deixa eu ver, disse eu lendo a capa do livro.  "Carlos Lacerda - meu amigo" de Antonio Dias Rebello Filho.


           - Esse livro foi escrito pelo médico particular de Lacerda que o acompanhou por não sei quantos anos até sua morte, internado que foi, na Clínica São Vicente.


           - Obrigado! Muito Obrigado! Vou voltar...


           - Volte sempre!


           Olhei para o relógio e tratei de apertar o passo até o meu escritório na Rua Santa Luzia.


          Quando já acomodado em minha mesa de trabalho, tirei o lacre do celofane que embalava o livro ato contínuo o abri numa página qualquer.


          Aqui vale um interregno para explanar um detalhe. Na internet, vez por outra recebo mensagens a cerca de um fato: "NADA ACONTECE POR ACASO".  Sempre encarei essa frase como aquelas dos almanaques de fim de ano. Ultimamente, no entanto, ao recordar tantos fatos de minha vida, cada vez mais acho que essa frase encerra uma grande sabedoria.


           O caso presente ilustra essa conclusão. Lembrando que estamos em plena Semana Santa, eis o que apareceu na página aleatoriamente  aberta do meu novo livro: com texto escrito por Carlos Lacerda, talvez o político mais significativo da política brasileira da segunda metade do Século XX, aquele que despertava emoções de amor ou ódio, de gloriosa oratória e imperecível combatividade, como me referia, apareceu o que segue e passo a transcrever.


          A VIA SACRA


          Escrito por Carlos Lacerda



          Primeira Estação: "Jesus Condenado"


         Pilatos representa o mundo limitado e mesquinho. Cristo é a generosa encarnação da eternidade. Pilatos se agarra à vida e tanto teme a morte, é a vida curta e a morte certa. Cristo que morre pelos outros, deixa a todos, por herança, a ressurreição.


         Pilatos é o medo mal-disfarçado. Cristo, o temor bem-assumido. Pilatos é a submissão incondicional. Cristo, a obediência esclarecida. Pilatos é a hipocrisia e o egoismo, versão humana da egolatria, pela qual o homem se considera deus. Cristo é a sinceridade e a dedicação, sinônimo terreno de devoção, que é divina.

        Pilatos exige do Cristo respostas sobre o reino do mundo. Mas seu reino, Cristo explica, não é deste mundo. Pilatos é o silêncio imposto pelas legiões que oprimem, apoiadas no terror. Cristo é a palavra que redime, pelo amor sustentada.


         A mulher de Pilatos lhe pede que não condene um inocente. Ela é o susto, também ela é o medo: sonhou com o castigo e trata de evitá-lo. Jesus Cristo, esse inocente, acusa. Pois o seu perdão é para quem se arrepende, não para quem se arrepende, não para quem no erro se compraz.


         Pôncio Pilatos procura ao mesmo tempo atender à mulher, que é sua consciência, e não contrariar César, que é sua conveniência. 

Escolhe o meio-termo, porque confunde a omissão com a isenção, a inércia com o equilíbrio, a pusilanimidade com a prudência. Lavando as mãos pensa ficar limpo. Mas, em vez de se purificarem, sua mãos de mancham na própria água em que se banham. Enquanto a vítima com seu próprio sangue lava os pecados do mundo.

          Os pecadores açulados preferem Bar-Abás livre e Cristo preso (observação minha: Bar abbas, vem do aramaico e significa "filho de alguém". Barrabás nasceu ao sul da Judeia.). O criminoso não exige o arrependimento e o esforço. Tudo começa melhor na companhia do pecador. Bar-Abás é cômodo, apela somente para os instintos. Cristo é incômodo, interpela principalmente a inteligência. O caminho do céu começa numa porta estreita mas se abre sobre a imensidade.


          Ninguém terá limpas as mãos enquanto for derramado o sangue do seu semelhante. Ninguém alegue inocência perante a injustiça triunfante. Pilatos optou pelo silêncio torvo, imposto à palavra luminosa. Cristo por ora vai ser punido. Mas é Pilatos que pela omissão eternamente se condena.


          Inútil fugir à obrigação de escolher. Ninguém por muito tempo se esconde quando não responde ao clamor severo da justiça. Nem mesmo quando não atende ao suave chamado da caridade.

          Nos capítulos a seguir pretendo transcrever as partes que mais me emocionaram das estações restantes, aquelas a que Lacerda conseguiu se reportar antes de partir para o Senhor.

   
          

                 


quinta-feira, 26 de março de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 126 - A MONTAGEM DE UM CENÁRIO INESQUECÍVEL






          Ao subir os degraus que me levavam ao átrio da Igreja vários sentimentos, emoções e expectativas me assaltaram. Tais fatos lembrados hoje parecem meio confusos, afinal, estava vivenciando momentos fartos de significados que  marcariam em definitivo meu fado. Devo ainda considerar que daquele momento até hoje lá se vão cinquenta anos; fácil a memória nos trair com o olvidar de algum detalhe.

          Lembro, no entanto, que de repente senti todos os olhares se voltarem para mim, a maioria olhos masculinos (conhecidos ou não) que permaneciam na área externa enquanto seus acompanhantes, mulheres e demais familiares, se acomodavam abrigados no interior do templo sentados comodamente nos bancos, a essa altura quase todos preenchidos. Era a tradicional espera da noiva, a verdadeira estrela da festa.

         Um misto de satisfação, alegria e gratitude à vida tomou conta de mim. Meus olhos inquietos procuravam por meus velhos camaradas. Lá estavam muitos deles alegres me cercando com profusos abraços, quando não, com sinal de "tudo em cima, ok". A emoção de cruzar, mesmo à distância, com olhos de velhos companheiros há muito dispersos e agora, novamente tão vizinhos dos meus emocionavam. Algumas ausências também machucaram meu coração; certamente estariam por perto ou motivos muito fortes poderiam estar a nos separar.

          Um fato que jamais esquecerei; meus mais "novos velhos amigos da Sursan" estavam todos presentes (Darly, Mewton, Alvaro, Augusto... Tão poucos meses de convívio não os afastaram de Tania e de mim.


         Logo juntei-me à minha cunhada Maria Helena; de braços dados, passos lentos e naturais, fomos até o altar. A espera da noiva foi breve. Tania não tardou a chegar e, ao som do "Magnificat", distribuiu sorrisos ao longo do trajeto de braços dados com seu pai, Dr. Mario Giffoni.


          Finalmente, todos juntos no altar com simplicidade das cerimônias daqueles anos. Nos alheamos de tudo, olhos fitos um no outro. sem nos dar conta que estávamos cercados de muitos convidados, de todas as idades, das duas famílias somados aos amigos de fé.


          Ainda no altar chegou meu irmão Luiz para acompanhar sua mulher; Tia Nilda e, Tio Alvaro meus padrinhos. Do outro lado completavam o cenário meus amados e iminentes sogros Dona Nice, Dr Mario e mais Paulo Cesar e Luiz Mario, irmãos da Tânia  e, ainda Tité - Tia Célia, tia da Tania e a partir daquele dia minha tia também. Estava pronto o cenário para  para o início da Cerimônia. 


         A cerimônia foi longa, com celebração de uma Missa Nupcial,  homilia cheia de histórias e emoção de Frei Gabriel, amigo da família de Tânia, a assinatura dos papeis do casamento civil e a interminável procissão dos cumprimentos. 


         Não haveria cansaço que superasse a minha felicidade e, sem falsa modéstia, a de Tania também que com suas mãos delicadas e geladas não abandonou as minhas ao longo de todo o ritual.


         Mais um pouco, seríamos marido e mulher; os mais felizes do mundo.


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               Ao som do "Magnificat", lá do altar, só tinha olhos para minha noiva, linda e suave a se aproximar de mim, conduzida por seu pai Dr. Mario Giffoni. As "daminhas de honra" foram as primas de Tania, filhas de tia Nilda e tio Álvaro as gêmeas Maria Tereza e Maria Elvira. Desde então, como até hoje, minhas queridas primas também.