por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 3 de abril de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 129 - TRATA-SE DE UMA MISSÃO






          Estou escrevendo essas páginas em plena Semana Santa de 2015. Sinto, como explanei anteriormente, que a chegada às minhas mãos do livro sobre Carlos Lacerda a que venho me reportando não foi obra do acaso. 

          Encaro tal acontecimento de uma maneira quase mística, como se a mim fosse passada uma missão de tornar mais conhecida essas laudas escritas por um homem primordialmente político, intelectual, argumentador arguto, questionador implacável, critico contumaz, orador envolvente, além de escritor, jornalista, financista, empresário, e não sei quantas coisas mais. Até tradutor e redação de legendas de filmes estrangeiros ele foi quando do exílio.

         Tornar mais conhecidas páginas impregnadas de religiosidade, sensíveis e que, querendo ou não, nos toca a sensibilidade de forma arrebatadora nos envolvendo numa aura de paz, fé e profunda reflexão sobre o projeto divino em nossas vidas.

         Depois de transcrever ipsis litteris a narrativa da Primeira Estação me senti tentado a resumir as demais para não tornar longo em demasia os capítulos a seguir. Depois de analisar cada texto, ler e reler cheguei a conclusão ser essa missão impossível e, certamente, deselegante com o autor. Vou transcrever  cada trecho na integra. Aos leitores fica delegada a responsabilidade excluir a leitura dos capítulos considerados supérfluos.

          Segunda Estação

         - Jesus com a cruz às costas



           
          Porque a crucificação era o modo mais infamante de morrer, foi escolhida para Jesus Cristo. Naquele tempo o povo falava por símbolos. As histórias eram apólogos, e as lições, parábolas. Por isto cada fato contém uma significação, cada episódio uma alusão, cada personagem um papel, cada história, uma conclusão. Assim é o caso do Cirineu que foi obrigado a ajudar Cristo a suportar o peso da cruz. É o do próprio Jesus que nos ensina a enfrentar a a vida com coragem para salvá-la; a encarar a morte com resignação, para merecê-la.

          Não faltaram desafios. "Se és filho de Deus. desce da cruz", zombavam curiosos e incrédulos, amontoados no estreito caminho que se chamou "Via Dolorosa".

          Esses também têm descendentes. São os que só acreditam no êxito imediato e na vitória sem esforço. Se fosse para se salvar a si mesmo, por que viria Cristo ao mundo?

          Ao suportar, como homem, o peso da cruz, Jesus veio ser um dos nossos, para nos lembrar o que há de divino em cada um de nós. O filho de Deus não foi poupado ao sofrimento antes de voltar para a casa paterna, ao fim da peregrinação no país dos homens. Pois o Pai "não dá o que se pede e sim o de que se precisa".

          A sua resignação não é passiva, e atuante. Não é morna, é ardente a paz que nos oferece. O amor que eles nos tem é exigente. Por que não havemos de retribuir, imitando-o? Não chegaremos a ser o que ele foi. Mas o mérito consiste em procurar ser.

          Quando tomou nos ombros a cruz, ele tornou mais leve a nossa. Como Cirineu o ajudou, assim Jesus nos ajuda.

          Pelo exemplo, ele nos deu um ponto de apoio.

         
                  Sejam, pois, nossa cruzes, alavancas com as quais transformaremos o mundo até que, numa primavera de amor, no pesado lenho refloresça a árvore da vida.

          Terceira Estação

          - Jesus cai pela primeira vez.

          Esse que andou sobre as ondas, a caminho dos discípulos, agora se arrasta com sua cruz nas pedras da cidade, ao encontro da morte. O povo que o recebeu com festas hoje se divide entre os que o desprezam porque Ele não se livra do martírio - e os que se comovem não entendem sua lição.

          Ele pôde livrar os outros do mal, mas não se livra a si mesmo. Pôde ressuscitar os mortos mas não impede que o matem. Pôde multiplicar o pão mas não estanca o sangue das torturas que sofreu.

         É que ele pena pelos oprimidos. Ele sofre pelos inocentes e até pelo arrependimento dos culpados.

         Vítima de sua humana fraqueza, sob o peso da cruz ele cai. Quem o levanta é a divina força da fé.

          Sempre que a frágil condição humana nos derruba, possa nos erguer o que de divino existe em nossa natureza. Essa força que ninguém pode destruir dentro de nós, senão nós mesmos, é a mesma que levanta Jesus das pedras de Jerusalém. É semente da fé, que Deus plantou em nós.

          Mas, a fé não cresce sozinha. Como as plantas raras, tem de ser cultivada para não degenerar. Como a água, tem de ser purificada para não se poluir. Como o fogo, precisa ser avivada para não apagar. Ela não é apenas espetacular e grandiosa. Guia nossos passos mais anônimos e inspira nossos mais humildes pensamentos. Dá coragem a quem tem medo; e ao temerário, prudência. Dá á própria mudez eloquência; e povoa de música o silêncio mais terrível. Faz de um sorriso um tesouro. E de um simples olhar faz duas estrelas cintilantes.

         Sem a fé, nossa vida não passa de uma obrigação obscura e monótona. Com ela, se transforma numa fascinante peregrinação

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