"CHEIROS DA VIDA" - 139 - "ACABOU-SE O QUE ERA DOCE"
- Na segunda-feira "acabou-se o que era doce". Vamos entrar na vida de casados para valer. No meu caso Faculdade pela manhã e Sursan à tarde até a "hora do sei lá...".
- Mas antes teremos o aniversário do meu maridinho...
- É mesmo. Dia primeiro de agosto será domingo que vem, primeiro de agosto de 1965; farei vinte e seis anos.
- A gente prepara um lanchinho, uns docinhos e refrigerantes, um bolo e convida só a família. Pais, irmãos, cunhados e sobrinhos. Está combinado?
- "Manda quem pode e obedece quem tem juízo". Lá se vão meus últimos cruzeirinhos deste mês.
- Mas vale a pena.
- Será a primeira vez que abriremos nossos salões à sociedade - falei com toda a pompa.
E assim foi. A família estava toda presente ávida de novidades.
Foi tudo muito bom e sentimos que verdadeiramente estávamos entrado numa nova fase de nossas vidas.
Na verdade depois de quase trinta dias de "boa-vida", coisa que fazia tempo eu não saboreava, já estava com saudade de meus companheiros de faculdade e do trabalho. E, sobretudo preparado para as gozações que seriam infalíveis.
Na Sursan então a coisa foi para valer sendo que o "velho" general Masson - já falei dele alguns capítulos atrás - arrastou uma boa quantidade de gente para comemorar minha volta; o "ágape" já estava previamente marcado para a Churrascaria Parque-Recreio, no Flamengo, com seu famoso "filé lanhado no sal grosso".
Interessante... Agora, no momento exato que recordo essas coisas agradáveis, madrugada já avançada, o inverossímil acontece; sinto uma nostalgia diferente daquelas que senti ao longo da vida. Muito pesada, sacrificante mesmo.
Tudo que passei nestes últimos meses marcaram fortemente meu sentir. Às vezes pressinto que talvez não tenha mais a capacidade de garimpar meu "inventário de saudades" como gosto de chamar essas linhas. Uma tristeza dorida fere minha alma. Tudo foi tão bom. A vida passou com tanta pressa. E agora...
Será que isso tudo é consequência só da doença que me atingiu, ou, existe algo mais a influir nesse estado de espírito.
Certamente não preciso de muito tempo para chegar a uma conclusão: nunca, ao longo destes setenta e seis anos de vida vi nosso país num estado tão lastimável. Roubado, vilipendiado, anarquizado, humilhado vem dia-a-dia enterrando mais e mais as esperanças de qualquer cidadão que se honra em ser brasileiro.
Lamentável que tudo isso atinge tão fortemente nosso coração e nos deixa angustiados pois, cada vez mais, ficamos impotentes para romper de vez com esse estado de coisas. Olhamos para nossos filhos e netos com uma angustia incomensurável.
Vamos respirar fundo, pedir a Deus forças e continuar sonhando com um Brasil de nossos desejos e recordando o que vivemos que foi, quase sempre, tão bom.
Nenhum comentário:
Postar um comentário