por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 23 de abril de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 134 - DIAS DE JAMAIS ESQUECER





          Apesar de cercado por meus parentes e amigos rapidamente cheguei ao carro. A porta já estava aberta sustentada pelo impecável Pedro postado qual sentinela à espera da noiva. Trocamos rápidas palavras, o suficiente para reparar que meu "elegante" motorista estava muito atento ao que se passava em volta. Achei estranha sua atitude e, imediatamente lembrei-me do tal "zum, zum, zum...".

           Ato contínuo consegui olhar em volta e reparei que todos, após um ligeiro cumprimento,  se dirigiam com inusitada pressa para seus carros. Logo em seguida ouviu-se o roncar dos motores um após outro. Não havia mais dúvida, estavam iniciando, certamente, algum trote para nós.

          Depois de livrar-se das derradeiras recomendações, abraços e bençãos de Dona Nice, Tania finalmente se aproximou acomodando-se confortavelmente esperando a minha entrada para um beijo delicioso. Pedro pôs o carro em marcha arrastando um sem-número de latas barulhentas e, seguido de um verdadeiro desfile de carros piscando os faróis e buzinando seguidamente, desrespeitando acintosamente a "Lei do Silêncio"; afinal já passava muito da meia-noite e a madrugada de sábado já se fazia presente.

         Essa barulheira nos perseguiu ao longo de todo o bairro até a Estrada Velha da Tijuca e, ao diminuir a velocidade para  fazer o "balão" de acesso à minha garagem deu para reparar na esquina um cartaz de de certa monta com os dizeres:"Silêncio! - Casal em lua-de-mel no 38".

         Enquanto pegávamos nossos pertences e, caminhávamos até o elevador, a "barulheira" continuou" com diversas voltas, daquele séquito inusitado, em torno do pequeno quarteirão que cercava nosso edifício. Provavelmente todos acordaram e, deviam estar indignados com o novo vizinho que já chegava tirando o sono de todos os moradores.

          Entramos no apartamento; depois de um beijo demorado na minha mulher, estava louco por um copo d'água, o primeiro que tomaria na "minha casa".

          Impossível! A cozinha estava trancada sem a chave na fechadura. Seguramente mais uma molecagem dessa "patota-sem-o-quê-fazer".

         Em cima da mesa da sala um pequeno aviso: "Vocês estão ansiosos pela chave do quarto, certo?".

          - Acho que esses caras foram longe demais.

          - Fica calmo e leia as instruções.

          " Sigam as instruções com toda atenção, caso contrário irão passar a noite de núpcias dormindo no sofá e sem direito a um banheiro para um banho saudável, etc. etc.".

          - Isso é que é mancada. Comprei o apartamento de meu irmão e nem tive a maldade de trocar o segredo da fechadura. Devem ter aprontado "o diabo" nessa casa...

         - Eles não iriam aprontar nada desagradável. Vai com atenção colecionando os papeis em ordem, aconselhou Tania.

         "Procurem a chave do quarto debaixo do sofá". Lá encontramos novo bilhete: "Chave da Cozinha. Pensando bem já é alguma coisa. Fome vocês não passarão.".

          Tremulamente pequei a chave e abri a porta da cozinha. Tomei de um copo e abri a geladeira e, aí, tive a primeira surpresa agradável. Papai havia cumprido sua palavra e a geladeira estava generosamente abastecida de todas as guloseimas que durariam dias para serem consumidas. Em cima do fogão havia novo bilhete: "A chave dá área está dentro do forno do fogão. Procure e não levarão muito tempo para achá-la". Levamos.

          Aberto o acesso à área de serviço, exultei: pelo menos teremos disponível um banheiro de empregada. Ledo engano...

         Olhando para cima verifiquei pendurado no varal de secagem de roupas um envelope; "Chave do quarto de empregada".


         Novo aviso em cima a cama de empregada: "Cuidado para não se perderem. Até agora vocês estão indo bem. A chave do banheiro está dentro de uma das caixas das coisas pessoais da Tania dentro do armário."

         Mais tempo passando mas, achamos a chave na ultima caixa vistoriada".

         Outro aviso. "Alvíssaras! Não precisarão fazer xixi pelos cantos; a chave está no fundo desta caixa.". Reviramos tudo e finalmente encontramos a bendita chave.

          Abrimos o banheiro e nos servimos dele. Menos mal.

          Pendurado na cortina do box estava o recado; "Chave do banheiro social. Que tal procurar em cima do armário da cozinha.". Essa foi fácil de achar.

         "Mas como vocês estão com pressa... Afinal têm toda vida para estarem juntos. Voltem para cozinha e, finalmente encontrarão a tão desejada chave. Na cozinha abram a lata de mantimentos que contém o estoque de arroz.

Muito Cuidado!".

          Misturado com o alimento estava o derradeiro aviso.

         Corremos para a cozinha e não demoramos a achar um aviso escrito em um papel minúsculo. "Fim da jornada. A chave do quarto está no fundo da lata que guarda os cinco quilos de açúcar". O negócio era arregaçar as mangas e achar a bendita chave...".

        Foi o que fiz com uma pressa e angustia de estourar o coração. Depois de tirar a camisa enfiei o braço na lata e, até com certa facilidade, achei a bendita chave". Não sei quanto tempo durou essa busca.

        Finalmente, ao entrar no quarto um perfume suave nos invadiu e a cama estava preparada como num hotel "cinco-estrelas". Coisa típica de Maria Helena, minha cunhada.

        Em fim valeu!!!

        Agora que me desculpem meus leitores, a história é privativa. Só posso adiantar que a seguir desfrutei dos dias mais felizes de minha vida e, na segunda-feira, na hora de ir para São Lourenço combinamos de comum-acordo passar mais alguns dias em nosso apartamento, mesmo porque estava chovendo muito e nossa casa estava mais aconchegante como nunca. Alguns dias depois saímos de nosso ninho e fomos para Belo Horizonte e cidades históricas.

          Dias de jamais esquecer!!!

        
         

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