por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 2 de abril de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 127 - "A VIA SACRA" DE CARLOS LACERDA



                      Faz menos de um mês, andando pela Avenida Rio Branco, fui atraído por um tabuleiro cheio de livros, um dos muitos que existem por ali no trajeto de entrada da Estação Carioca do Metrô. Sempre que passo nesse local, com tempo, fato raro ultimamente, procuro dar uma olhada nos livros em exposição.

          Muito frequentemente sou seduzido por boa quantidade de títulos em exposição, mas um certo preconceito ou, a falta de dinheiro para esbanjar, cada vez mais corriqueiro no meu viver (graças principalmente à covardia de Lula, Cesar Maia e Helen Gracie - nunca esqueçam  esses nomes de "vendilhões do templo"), faz que me afaste com certa pressa para evitar a tentação em comprá-los, talvez vários.


           Naquele dia, no entanto fui atraído por um livro em destaque: "Carlos Lacerda - Depoimento". Esse livro fazia parte de minha modesta biblioteca e desapareceu por encanto. Certamente foi emprestado para alguém que gostou muito e o anexou à sua coleção ou, o abominou e o depositou no lixo como sua derradeira morada.


           Conversando com o livreiro da banca, o Sr. Nilo, um "quase-velhinho" simpático e falante, idade análoga à minha, mais um dos meus novos "velhos amigos" que faço, expressei minha velha querença de ter certo livro do Lacerda "A casa de meu avô".


          - Lá em casa tenho certeza de ter em estoque esse livro, talvez mais de um exemplar. Me dê quinze dias, o tempo de revirar aquela montanha de volumes. Volte aqui, nesse prazo; o trarei para o senhor.


          - Vou cobrar? Volto breve!


          - Pode voltar; vai ter seu livro.


          - Vamos ver!


          - Pode voltar...


          Nesta segunda-feira, dia 30 de março de 2015, vítima que fui de mais um dos quase cotidianos e monumentais engarrafamentos impostos por nosso "lamentável" prefeito, o "Dudu", para os muito "íntimos", em decorrência da "derrubada da Avenida Perimetral" (só para avivar a memória: por onde andam as vigas metálicas de quarenta toneladas cada, cuidadosamente tratadas eletroliticamente para durarem quatrocentos anos, resistentes o suficiente para enfrentar às intempéries agressivas de uma região junto ao mar e que foram, simplesmente surrupiadas?); em decorrência, optei por vir a pé pela Av. Rio Branco desde a Avenida Venezuela com destino final no Castelo.


           Passando pelo edifício Avenida Central lembrei do Nilo. Lá fui eu para a galeria dos livros, um verdadeiro "festival de sebos".


           De longe o Nilo me avistou:


           - Dr. José Carlos ainda não encontrei seu livro. Vou achar, nem que seja com algum colega. É só questão de tempo.


           - Você está embromando...


           - Negativo! Para provar minha vontade de atendê-lo, separei aqui um brinde para o senhor. Deixa ver... Aqui está.


           - Quanto custa?


           - Nada! É um presente para o amigo.


           - Presente? Deixa eu ver, disse eu lendo a capa do livro.  "Carlos Lacerda - meu amigo" de Antonio Dias Rebello Filho.


           - Esse livro foi escrito pelo médico particular de Lacerda que o acompanhou por não sei quantos anos até sua morte, internado que foi, na Clínica São Vicente.


           - Obrigado! Muito Obrigado! Vou voltar...


           - Volte sempre!


           Olhei para o relógio e tratei de apertar o passo até o meu escritório na Rua Santa Luzia.


          Quando já acomodado em minha mesa de trabalho, tirei o lacre do celofane que embalava o livro ato contínuo o abri numa página qualquer.


          Aqui vale um interregno para explanar um detalhe. Na internet, vez por outra recebo mensagens a cerca de um fato: "NADA ACONTECE POR ACASO".  Sempre encarei essa frase como aquelas dos almanaques de fim de ano. Ultimamente, no entanto, ao recordar tantos fatos de minha vida, cada vez mais acho que essa frase encerra uma grande sabedoria.


           O caso presente ilustra essa conclusão. Lembrando que estamos em plena Semana Santa, eis o que apareceu na página aleatoriamente  aberta do meu novo livro: com texto escrito por Carlos Lacerda, talvez o político mais significativo da política brasileira da segunda metade do Século XX, aquele que despertava emoções de amor ou ódio, de gloriosa oratória e imperecível combatividade, como me referia, apareceu o que segue e passo a transcrever.


          A VIA SACRA


          Escrito por Carlos Lacerda



          Primeira Estação: "Jesus Condenado"


         Pilatos representa o mundo limitado e mesquinho. Cristo é a generosa encarnação da eternidade. Pilatos se agarra à vida e tanto teme a morte, é a vida curta e a morte certa. Cristo que morre pelos outros, deixa a todos, por herança, a ressurreição.


         Pilatos é o medo mal-disfarçado. Cristo, o temor bem-assumido. Pilatos é a submissão incondicional. Cristo, a obediência esclarecida. Pilatos é a hipocrisia e o egoismo, versão humana da egolatria, pela qual o homem se considera deus. Cristo é a sinceridade e a dedicação, sinônimo terreno de devoção, que é divina.

        Pilatos exige do Cristo respostas sobre o reino do mundo. Mas seu reino, Cristo explica, não é deste mundo. Pilatos é o silêncio imposto pelas legiões que oprimem, apoiadas no terror. Cristo é a palavra que redime, pelo amor sustentada.


         A mulher de Pilatos lhe pede que não condene um inocente. Ela é o susto, também ela é o medo: sonhou com o castigo e trata de evitá-lo. Jesus Cristo, esse inocente, acusa. Pois o seu perdão é para quem se arrepende, não para quem se arrepende, não para quem no erro se compraz.


         Pôncio Pilatos procura ao mesmo tempo atender à mulher, que é sua consciência, e não contrariar César, que é sua conveniência. 

Escolhe o meio-termo, porque confunde a omissão com a isenção, a inércia com o equilíbrio, a pusilanimidade com a prudência. Lavando as mãos pensa ficar limpo. Mas, em vez de se purificarem, sua mãos de mancham na própria água em que se banham. Enquanto a vítima com seu próprio sangue lava os pecados do mundo.

          Os pecadores açulados preferem Bar-Abás livre e Cristo preso (observação minha: Bar abbas, vem do aramaico e significa "filho de alguém". Barrabás nasceu ao sul da Judeia.). O criminoso não exige o arrependimento e o esforço. Tudo começa melhor na companhia do pecador. Bar-Abás é cômodo, apela somente para os instintos. Cristo é incômodo, interpela principalmente a inteligência. O caminho do céu começa numa porta estreita mas se abre sobre a imensidade.


          Ninguém terá limpas as mãos enquanto for derramado o sangue do seu semelhante. Ninguém alegue inocência perante a injustiça triunfante. Pilatos optou pelo silêncio torvo, imposto à palavra luminosa. Cristo por ora vai ser punido. Mas é Pilatos que pela omissão eternamente se condena.


          Inútil fugir à obrigação de escolher. Ninguém por muito tempo se esconde quando não responde ao clamor severo da justiça. Nem mesmo quando não atende ao suave chamado da caridade.

          Nos capítulos a seguir pretendo transcrever as partes que mais me emocionaram das estações restantes, aquelas a que Lacerda conseguiu se reportar antes de partir para o Senhor.

   
          

                 


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