por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 27 de novembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 65 - O CHEQUE SALVADOR


                   


-         Amanhã chegam 80 carteiras para as salas de aula, 70 com a prancheta do lado direito e 10 do lado esquerdo especialmente feitas para os canhotos. A marca é Kastrup, o melhor que existe em matéria de cadeiras escolares, e terás que pagar 50% ao entregador.
-         Ivan! Pelo amor de Deus! Você ficou maluco? Estamos quase sem dinheiro em caixa.
-         Não foi isso o combinado?
-         O combinado era que você iria fazer uma pesquisa nas casas de móveis.
-         Pesquisei.
-         E daí?
-         Eu não tenho como falar com você. Esperei seu telefonema até anteontem. O preço estava bom e ainda consegui um desconto com pagamento em duas vezes. Agora se vira.
-         Virar como?
-         Deixa-me entrar em sala que está no meu horário.
-         O quê eu faço?
-         Não tenho a mínima idéia.

          Fiquei alguns minutos batendo com a ponta do lápis na mesa, olhar no infinito; uma vontade danada de estrangular o Ivan. Afinal as obras do novo curso ainda não estavam terminadas, as finanças à míngua e ainda faltavam alguns dias para o dinheiro novo do mês entrante.
          Carteiras agora? Não seria colocar a carroça na frente dos bois?
          Respirei fundo. Não havia tempo a perder. Rumei para casa do Saboia sem mesmo saber se lá estaria solução.
          Mal toquei a campainha, Luíza fez seu costumeiro alvoroço, tudo fazendo para eu perder a pose.
-         Dona Léa coloca mais um prato que o Leal janta conosco.
-         Não é nada disso, menina!
-         Vai dispensar um jantarzinho?
-         Preciso falar urgentemente com seu pai.
-         Depois do jantar.

          Custei a arranjar um jeito e coragem para falar do meu problema com Dr. Luiz.
          Ao fim da minha arenga o Dr Luiz com toda calma, simplesmente disse:
               -   Onde você está vendo problema?
               -   O senhor me conhece a tão pouco tempo e, não ofereço nenhuma garantia de como e quando saldar essa dívida.
               -   Continuo não vendo onde está o problema! 
               
          Saí de barriga cheia e com um cheque de Cr$ 30.000,00 louco para esfregá-lo na cara do meu sócio tresloucado.
          O futuro haveria de nos ajudar a honrar aquele compromisso. E ajudou...


          - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2002 (parte)



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

'CHEIROS DA VIDA" - nº 64 -A "O OPEA""


                                        


          “O futuro do planeta e a sobrevivência da sociedade dependem do que fazemos no presente”.
Este é o fecho do documento chamado Carta de Petrópolis decorrente do 4º Encontro Nacional do Movimento de Cidadania pelas Águas que aconteceu agora no passado mês de março.
          Torna-se cada vez mais irritantemente evidente que a poluição produzida nos rios deriva substancialmente da utilização de agrotóxicos nas plantações, agentes químicos responsáveis pela degradação ambiental e que são impostos para consumo do Terceiro Mundo por poderosos grupos transnacionais.
          Possivelmente a água estará para o século XXI como o petróleo esteve para o século XX.
          Apesar de a terra ser chamada por alguns de Planeta Água o modelo de sua distribuição no globo terrestre é bem preocupante principalmente considerando a pouca importância dada pelos governantes a essa problemática.
          A distribuição da água no globo terrestre obedece ao seguinte modelo: 97,5% de água salgada dos mares e oceanos; 2,493%  na forma sólida em geleiras ou aquíferos em regiões subterrâneas de difícil acesso; 0,007%, finalmente, é água doce encontrada nos rios, lagos sendo a única apta ao consumo humano.
          A ONU adverte, por sua vez: nos próximos vinte e cinco anos nada menos de 2,8 bilhões de pessoas poderão viver em regiões marcadas pela sede crônica, considerando, sobretudo que quase todos os nossos cem mil cursos d'água estão afetados por alguma forma de poluição.
          O Brasil detém quase 20% da reservas de água doce mundial e dizem alguns já deveria estar pensando na criação de uma Organização dos Países Exportadores de Água (Opea) nos mesmos moldes da Opep, pois fica evidente que a água será a grande riqueza do século XXI.
          Outro dado impressionante: uma pessoa consome, em média, 150 litros de água por dia. Já para produzir um quilo de alumínio se consome 1.300 litros e para gerar um quilo de carne bovina são necessários 18 mil litros de água doce.
          Esperemos que as autoridades brasileiras despertem para essa problemática.


         - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo em 2002 (parte)





terça-feira, 20 de novembro de 2012

EXTRA - MINHAS CANTORAS INESQUECÍVEIS

Todas as músicas selecionadas a seguir  significam algo importante para mim em alguma fase de minha vida.

Poderia mesmo destacar que elas falam, por assim dizer, algo que senti a cada momento, principalmente aqueles significativos na fase da minha juventude e início da maturidade. Estágio de aprendizado e de busca por um caminho seguro para percorrer.

Cada uma delas tem haver com momentos marcantes de minha existência,  bem como são interpretadas por cantoras que acariciaram para sempre minha alma.

ZK

"CHEIROS DA VIDA" - nº 63 - O ARQUITETO AFETADO


                 



-         Anthon! Quero te apresentar o Leal que é dono do curso em que estudo e sobre quem te falei ontem à noite.
-         Muito prazer.
-         É todo meu – respondeu com certo afeto o arquiteto.

          Era muito bem instalado o escritório do primo do René, cheio de bossa como costumam ser os escritórios de arquitetos. Alguns desenhistas, uma secretária cheia de charme, pranchetas transbordando de plantas coloridas e maquetes de casas e edifícios.
-         A noite passada, depois do telefonema de meu primo, pensei: para ser um curso o espaço deverá ser readaptado. Hoje pela manhã fiz uma planta baixa e umas perspectivas que poderão dar bem uma ideia do que proponho.
-         Você fez um projeto?
-         Não. Está tudo em forma de croquis.
-         Posso ver?
-         Claro. Aqui está. Podemos montar duas salas de aula, mais um escritório, adaptar os sanitários e ainda temos esta varanda que merece bem um anuncio luminoso virado para Av. XV.
-         Maravilha, primo.
-         Também achei. Mas quem irá fazer esta obra e quanto custará?
-         Meu escritório se encarrega de tudo e quanto ao custo da obra posso financiar para você.
-         Tenho um sócio e devemos decidir juntos
-         Vamos ver as salas depois voltamos para tomarmos um uísque.
-         Ver as salas tudo bem; quanto ao uísque fica para outro dia. As 7 tenho que dar aula no curso.

          Antes que a semana terminasse o contrato já estava assinado e as obras teriam início na segunda-feira, uma semana após o incidente provocado pelo Dr. Nazareth.


            -  Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2002 (parte) em Arraial do Cabo.

sábado, 17 de novembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 62 - O PENSAMENTO E A AÇÃO


                        
           Na terça-feira nem fui à faculdade. Minha principal preocupação era arranjar uma sala o mais rapidamente possível. No meu íntimo dois pensamentos diversos.
          O primeiro: até quando você vai acreditar nas pessoas sem pestanejar?
          O segundo: é hora de “mandar brasa”, ampliar o curso e ganhar dinheiro como “gente grande”.
          Na negociação com o Almirante, tanto eu quanto o “panaca” do meu sócio, não exigimos nenhum documento, acreditamos em tudo que ele disse e assumimos um compromisso no escuro.
Infantil nossa atitude.
           Mal sabia eu que pela vida afora repetiria várias vezes tal procedimento acreditando ser sempre a última vez.
           De resto outra verdade me seguiu por toda a vida. Praticamente em todas as ocasiões dei a “volta por cima” e, sempre para melhor.
           O “Curso Pio XII” já tinha dado o que podia. Agora era dar o passo seguinte.
           Ao entrar no primeiro corretor de imóveis minha visão do problema já era outra. Não queria alugar uma sala e sim um grupo de salas.
           Infrutífero aquele dia.
           Vi muitas salas, grupos de salas e até casas. Ou não prestavam, ou estavam longe do centro.
           Nosso novo curso deveria estar localizado no centro, preferencialmente numa transversal à Avenida XV de Novembro e, perto dos colégios, principalmente do Werneck e do Ginásio Estadual Washington Luiz.
           Após as aulas surgia sempre um papinho de fim-de-noite com um grupinho de alunos mais chegados.
           Naquela terça-feira, apesar do cansaço e da preocupação que faziam minha cabeça quase estourar, não foi diferente.
           Acabei falando de parte do problema que, na verdade veria depois, seria a solução.
-         Estamos pensando em expandir o curso - deixei escapar.
-         Como assim?
-         René você não acha que esta sala já está muito apertada?
-         Depende...
-         Queremos um grupo de salas se possível aqui perto e mais próximo aos colégios.
-         É por isso que eu perguntei, pois acho que posso ajudar – disse o René já demonstrando um entusiasmo pelo negócio, não contrariando seu sangue libanês.
-         Como assim?
-         Tenho um primo arquiteto que está com um grupo de salas para alugar na rua Barão de Tefé.
-         É verdade?
-         Preenche tudo o que você quer: no centro, transversal e entre os dois maiores colégios. Ainda, perto da Companhia Telefônica e das Lojas Americanas, Dois lugares bem movimentados e frequentados em números expressivos pela juventude petropolitana.
-         E como eu falo com ele?
-         Quando a gente descer vamos até o boteco tomar um café. Aproveito para ligar para ele e marcar um encontro para amanhã.
-         É pra já!


- Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2002 (parte)









sábado, 10 de novembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 61 - NOVO NOME PARA O CURSO


         

          Inicia-se 2002. Foi-se o primeiro ano do novo século.
          Uma novidade e, outra, nem tanto.
          A partir de 1º de janeiro doze países europeus passaram a adotar uma moeda única, o Euro. Uma novidade.
          Enquanto isso na Argentina, isso já não é novidade, o senador peronista Eduardo Duhalde assume a presidência. É o quinto presidente em dez dias. Além disso: Bush se engasga com um biscoito, a Rede Globo estréia uma “barbaridade” chamada “Big Brother Brasil”.
          No Rio  20 mil pessoas contraem dengue e o mosquito Aedes aegypti  se espalha por todo o país e, mais uma vez, a Lagoa Rodrigo de Freitas é palco do trágico espetáculo da mortandade de peixes, dessa vez em pleno Carnaval, Na quarta-feira de cinzas foram retiradas da lagoa 94 toneladas de peixes.
          A facção criminosa PCC promove rebelião em sete penitenciárias paulistas. Executa 15 presos e fere 49. Equanto isso uma bomba explode no prédio da Secretaria de Administração Penitenciária.
          O Prefeito de Santo André, Celso Daniel, do Partido dos Trabalhadores é assassinado após sair do Restaurante Rubahyat. Foi executado com oito tiros. Crime comum ou político. Pelo jeito o caso dará “pano para mangas”. "Coisa" muito séria por trás disso tudo...
          Pensando bem o Euro é a única novidade, o resto faz parte de nossa triste rotina.
          A coisa está braba (aliás, quando não esteve???...)  É melhor voltar para nossa história.
          Meio braba também ficou a coisa no nosso curso.
          Vamos recapitular: criamos um curso vestibular em Petrópolis, eu e o Ivan Sylvio alugamos a sala de certo Almirante Iramaia para usa-la somente à noite e, para tanto, pactuamos um aluguel que naquele momento chegava 7000 cruzeiros mensais.
          O curso ia indo muito bem, obrigado.
        Numa segunda-feira estava eu gozando a minha saudável permanência na Cidade Maravilhosa e já me preparava para dormir. No dia seguinte deveria estar às 5 horas da manhã na Rodoviária Mariano Procópio, pois o primeiro ônibus para Petrópolis sairia pontualmente às 5,15 horas.
          Era quase 11 da noite quando toca a campainha.
-         É o Ivan, grita mamãe lá de baixo.
-         Ivan? Essa hora?
-         Isso. Venha atendê-lo. Do jeito que estou não posso aparecer para ninguém.
-         Estou indo.

          Às segundas-feiras era dia do Ivan pernoitar em Petrópolis. Pelo menos assim fora combinado e estava funcionando muito bem.
          Dava aula até às 22 horas, tratava de providenciar o fechamento do curso e, normalmente, só retornava ao Rio no dia seguinte, para variar no ônibus das 5,15 horas, direto para firma onde estagiava aqui no Rio.
          Diabos!!!
          Se voltou hoje e veio direto cá para casa, é porque temos problemas. Certamente dos grandes – pensei com meus botões enquanto nervosamente me metia dentro das calças.
          Desci a escada correndo.
-         Cara! Você não devia estar em Petrópolis?
-         Leal! Não dá para imaginar o que aconteceu. Pedi para o Werner me substituir na última aula e me mandei para o Rio. Estou vindo direto da rodoviária.
-         Isso esta na cara! Mas o que aconteceu?
-         Você nem imagina...
-         Isso você já disse, agora fala.
-         No intervalo da segunda para terceira aula estava na secretaria quando apareceu um senhor muito bem apessoado querendo matricular o filho.
-         Mas agora? O ano já está chegando ao fim.
-         Foi isso que estranhei.
-         E daí?
-         O senhor começou a fazer uma série de perguntas inclusive querendo saber quem eram os donos do curso.
-         Só podia ser fiscal de alguma coisa.
-         Foi o que pensei.
-         Não era. A coisa é bem mais complicada.
-         Fala porra!
-         Simplesmente o Dr. Nazareth, esse seu nome, é o dono da sala.
-         O dono da sala é o Almirante.
-         Era! Era!
-         Como assim?
-         O almirante é um pilantra que não paga aluguel ao Dr. Nazareth há vários meses, aliás, um aluguel de 4.000 cruzeiros. Simplesmente esta sublocando a sala para nós na maior cara de pau. Com reajustamento deste semestre já estamos pagando ao patife 7.000 cruzeiros.
-         Cacete! Aluga por 7.000 uma sala que, teoricamente lhe custaria 4.000. Canalha!
-         É isso.
-         E agora?
-         Agora o Dr. Nazareth está colocando uma ação na justiça para despejar o Iramaia.
-         É, mas quem vai para rua somos nós.
-         Calma!
-         Como calma? Você tem certeza que a história do Nazareth é verdadeira.
-         Claro. Ele mostrou escritura e inclusive o contrato de aluguel assinado pelo Almirante com aquela letrinha de veado que ele tem.
-         Mas quem vai tomar prejuízo somos nós.
-         É isso que estou querendo dizer. O Nazareth fez todas aquelas perguntas para saber realmente quem éramos. Convencido de nossa boa-fé prometeu não tomar nenhuma providência até que tenhamos condições de alugar outra sala.
-         Dá vontade de encher de porrada a cara daquele Almirante de merda.
-         Agora é manter a calma, planejar tudo com cuidado, providenciar a mudança e só depois iremos falar poucas e boas para o “comandante de barquinho de papel”.
-         A sala já estava pequena mesmo. Agora temos que dar o pulo para valer. Vamos montar um curso de verdade.
-         Isso!
-         Pode até ir escolhendo o novo nome para nosso curso.

-  Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2002 (a partir desse capítulo) em Arraial do Cabo.





terça-feira, 6 de novembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 60 - A CARONA


                      

             Época maravilhosa aquela quando às segundas-feiras as aulas eram no Rio.
          Petrópolis só na terça.
          Eram aulas práticas de Tecnologia Mecânica ministradas nos laboratórios da Escola Técnica Nacional, juntinho do Maracanã. Aulas de torno, fresa e demais máquinas-ferramenta. Hora de colocar a mão na massa e fabricar peças previamente desenhadas nas aulas teóricas e onde a precisão milimétrica era fundamental.
          Talvez a motivação principal fosse o professor, a figura sensacional de Miguel de Assis Vieira.               
          Achava até que eu poderia dar para a coisa.   
          Em compensação aos sábados permanecíamos em Petrópolis até o fim da tarde. Pela manhã 4 horas de Geometria Descritiva e, à tarde, mais 4 horas de Mecânica Racional.
          Saíamos de Petrópolis já com noite fechada, quase sempre acompanhados do tradicional “ruço” da serra e, muito amiúde, absorvendo um frio de “bater-queixo”.
          Nas semanas em que o Fernando estava a fim de estudar tinha carona garantida apesar de não raramente eu ficar muito chateado com meu amigo. O “cara” saía completamente do seu itinerário, o “bandido” morava em Botafogo, o que me deixava sinceramente penhorado. 
          O problema é que depois de percorrer mais de 100 quilômetros, ao invés de deixar-me na porta de casa, deixava-me a cerca de cem metros do meu destino, na esquina das ruas José Higino e Conde de Bonfim.
-         Puxa Fernando! Não dá para dar uma subidinha até minha casa. Nem cem metros.
-         Complica muito meu itinerário.
-         Complica nada. Você até corta caminho...
-         Uma ladeirinha faz bem para a saúde.
-         Estou cheio de bagagem.
-         Fortalece os braços.
-         Legal! Semana que vem desço de ônibus.
-         “Lelê”! Você não vive sem mim.

           Na semana seguinte repetia-se a mesma cena.


          - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito  em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2001.
        



INVENTÁRIO DE SAUDADES - ANIVERSÁRIO DE MEU PAI


Se vivo fosse meu pai estaria fazendo hoje 107 anos.
Cesar Coelho Leal nasceu no dia seis de novembro de 1905 na cidade de São Gabriel, Estado do Rio Grande do Sul.
Faleceu aos setenta e seis anos no dia quatorze de janeiro de 1981.
Dedicou toda sua vida profissional a uma única empresa a Perfumaria Myrta S.A. fabricante do Sabonete Eucalol.
Percorreu toda a escala hierárquica da empresa  passando para todos nós seus filhos, noras, netos, patrões. companheiros e amigos um exemplo constante de honradez e dignidade.
Muita saudade de seus óculos "fundo-de-garrafa" e, seu sorriso
"maroto", espontâneo e aberto escondendo muitas vezes uma "molequice sadia".



Saudades Eternas do Seu Cesar

domingo, 4 de novembro de 2012

EXTRA - INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA DE MAMÃE


Por problemas financeiros de família, minha mãe Tininha foi trabalhar fora muito cedo
Logo ela que era a caçula de sete irmãos.
Isso me orgulha muito!
Vejam a folha inicial de sua carteira trabalhista assinada em 12 de fevereiro de 1927.
Tinha ela então treze para quatorze anos.
Consultando, no entanto, as folhas seguintes verifica-se que ela começou realmente a trabalhar dos onze para doze anos; ou seja em  23 de março de 1925.
Uma criança!!!
Seu local de atividade como ajudante de chapeleira  era no centro da cidade, à Rua sete de Setembro, 181
Dona Tininha (Albertina Mazzei Leal) um exemplo de dignidade e dedicação. 
Muita saudade!!!...
Caso tal fato acontecesse hoje seria considerado (politicamente incorreto) e meu Avô Vicenzo iria em "cana" por "abuso de menores" ou acusado de "trabalho escravo"...
Foi exatamente nessa ocasião que minha mãe conheceu meu pai, ou seja, caso nada disso tivesse acontecido e, não estaria hoje escrevendo emocionado essas linhas..



sábado, 3 de novembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 59 -" YO NO CREO EN BRUXAS"


                


          Yo no creo en bruxas, pero que las hay, las hay”. Para mim tal provérbio é válido também quanto a “discos voadores” como eram chamados os óvnis na década de sessenta.
          Nos últimos dias a imprensa voltou a explorar o assunto que sempre desperta a atenção do público e, sobretudo, ajuda a incrementar a tiragem dos periódicos o que nos faz mui justamente pensar, tratar-se exclusivamente de um esquema comercial.
          Assim foi com Elba Ramalho que se disse abduzida por estranhos seres e da fogosa Tiazinha que acabou chegando a conclusão de que vira era apenas um dirigível de propaganda do Goodyear.
          Até a responsabilidade pelo blecaute de 11 de março de 1999 tentou ser imputada a estes engenhos extraterrestres. Também se vendeu muito jornal e revista com o assunto “chupacabras”  possivelmente obra de um viajante alienígena tecnicamente chamado de “Intruso Esporádico Agressivo, o IEA.
          A coisa complica quando o depoimento de visões extraordinárias vem de pessoa idônea como foi o caso relatado pelo coronel Ozires Silva, em 1986, que exercia na ocasião a presidência da Petrobrás.
Agora a minha história.
          O fato que passo a contar aconteceu alguns dias antes do início de meu derradeiro vestibular. Para variar estava muito tenso.
          Já eram quase duas da manhã.
          Aquele tinha sido mais um dia de verão típico do mês de janeiro. Sol a pino, temporal à tarde e à noite a atmosfera livre e solta, envolvida apenas pela brisa que trazia o suave perfume da mata e o excitante cheiro de terra molhada.
          Dia e hora de cada prova já estavam marcados; era crucial dedicar todos os cuidados à terrível química.
NaClO³ + calor à NaCl + 3/2 O²  depois, alcanos, alcenos, alcinos... Parecia até escalação de time de futebol.
          O sono já por algum tempo vinha querendo me derrubar. Talvez uma chegada à janela, respirar o ar puro da noite de certo me faria bem.
          A madrugada tranqüila convidava a um bom sono, mas aquelas infelizes leis de Dalton, de Raoult e o bendito “fator de Van´t Hoff atormentavam meu juízo.
          Quando iria acabar aquele martírio?...
          Súbito um som familiar fez-se ouvir cada vez mais forte: era o bonde das duas que vinha chegando à última viagem do dia. Fez a volta direto, pois não trazia e nem havia passageiros a transportar.
Simbolicamente aquele derradeiro bonde trazia o sentimento de fim, ponto final em mais um dia de nossas vidas.
          De volta, o silêncio me avisava que era hora de retornar aos livros para mais alguns minutos de tortura.
          No entanto quando ia me afastar da janela vejo encostar junto ao meio-fio, defronte ao portão da vila, um taxi.
A curiosidade me prende à janela. Quem poderia ser a estas horas?
Não havia mais dúvida era nossa vizinha Aidê da casa 7 com os seus quarenta já passados.
-         Estudando ainda, seu Carlinhos?
-         Não é por gosto meu. Preferia estar fazendo algo bem mais agradável...
-         Você sabe que horas são, menino?
-         Duas e tal.
-         Hora de criança estar na cama!

           Quando preparava uma resposta bem atrevida algo inusitado interrompeu nosso papo...
Uma luz branca de alta intensidade, vinda do alto do céu, quase nos cegava. Aproximava-se lenta e silenciosamente cada vez com maior brilho. Tudo ao nosso redor resplandeceu como se fora o mais claro dos dias.
          De repente, parou...
          A “coisa” havia surgido por detrás do apartamento do João Bosco, fronteiro à minha janela, aliás, no mesmo edifício em que morava a “judia que judiava”, lembram-se?
          Depois, ainda sem emitir qualquer som foi subindo, primeiro, lentamente e logo após com velocidade incrível.
          Noite novamente.
          Nós ali, paralisados. Assim permanecemos por algum tempo.
          Quanto? Não tenho a menor idéia.
-         Carlinhos, meu filho! Que foi isso?
-         E eu sei Dona Idê!
-         Estou com as pernas bambas.
-         Desço já até aí.

          Depois de alguns copos d’água, pudemos conversar. Ninguém acordou e o silêncio era total.
              -   Meu filho, vem comigo até minha porta que eu acho que nem a fechadura vou acertar.
-         Vamos lá.

          Voltei correndo batendo forte com os pés no chão para espantar o medo. Imagina se aquela “coisa” volta?
          Tranquei a porta, subi rapidamente para o quarto e fechei a janela mesmo estando um calor infernal.
          Abandonei os livros como estavam e deitei-me.
          Um custo pegar no sono.
          No dia seguinte conversando com meus amigos fiquei sabendo que àquela mesma hora alguns deles estavam jogando conversa fora no nosso ponto de encontro tradicional, a mureta do Genarino.
Ninguém vira nada. E o pior: passaram a olhar-me com certa estranheza.
          Para não complicar as coisas parei por ali e me abstive de mais comentários.
          Dias depois, conversando com Dona Idê, ela dizia da incredulidade com que a ouviam e, também, resolvera colocar um ponto final naquela história.
          Nós dois sabíamos da veracidade do acontecido, mas como convencer os outros?
          E adiantava?...
          Até hoje não sei o que foi aquilo.
         “Yo no creo en bruxas, pero que las hay, las hay”.


          -  Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001.







                      

'CHEIROS DA VIDA" - nº 58 - ESPELHO, ESPELHO MEU...


                          

           Minha vida mudava de rumo, tomava novo alento, progredia e em decorrência eu vivia muito voltado para dentro de mim, como nunca houvera feito até então e, no entanto, o mundo continuava a girar e as coisas aconteciam.
          Após a fracassada invasão na Baía dos Porcos promovida pela CIA, Cuba definitivamente optava pela União Soviética com Fidel Castro declarando a ilha um Estado Socialista adotando em definitivo o marxismo-leninismo.
          Ainda em outubro daquele ano de 1962 diante da descoberta de que mísseis soviéticos estavam sendo instalados em Cuba, os Estados Unidos bloquearam a ilha e se preparavam para uma invasão quando a União Soviética retirou os armamentos e o bloqueio foi cancelado.
          O mundo mais uma vez livrara-se de um conflito de conseqüências inimagináveis para a humanidade.
Enquanto os Beatles gravavam seu primeiro compacto, Love me Do e P.S. I Love you, a dupla Vinícius e Tom compunha Garota de Ipanema abrindo as portas do Carnegie Hall, de Nova York, para apresentar à cena mundial os principais nomes da bossa-nova.
          Sérgio Porto que criara o personagem Stanislaw Ponte Preta inspirado no Serafim Ponte Grade de Oswald de Andrade era o grande humorista do momento e fazia sucesso com seu livro “Tia Zulmira e Eu”.
Stan, o sobrinho da “veneranda Zulmira” criara um vocabulário próprio que logo se incorporou ao linguajar carioca como: “bossa nova”, “teatro rebolado”, “sente o drama”, “vou te contar” e muito mais.
Leon Eliachar, outro humorista da época dizia: “há duas espécies de humor – o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico e o que é verdadeiramente trágico para se fazer”.
          A intelectualidade moderna e requintada adotava a revista “Senhor” como seu órgão oficial. Nela encontravam as fotos das “musas” do momento, a decoração no estilo barroco mineiro, afinal “não há nada mais moderno que um móvel antigo” e ainda os anúncios “inteligentes, malucos e arrojados”.
Nas páginas de “Senhor” estavam presentes os universos de concreto e vidro de Niemeyer e Sérgio Bernardes, os sofás de couro de Sérgio Rodrigues, e as opiniões dos playboys que freqüentavam o Zum-Zum, o Jirau e o Black Horse.
          “O Cruzeiro” publicava: “Quando Jaqueline Kennedy, pela manhã, pergunta ao seu espelho mágico ‘Qual a mais linda primeira dama na face da terra? ’, já não está certa de ouvir unicamente o seu próprio nome”.
          O fato é que Maria Teresa Fontelle Goulart, mulher do presidente João Goulart, tornara-se, aos 23 anos, a mais jovem, a mais elegante e, seguramente a mais bonita primeira dama do Brasil em todos os tempos.
          Juca Chaves satirizava: “Dona Maria Teresa/ Diga a seu Jango Goulart/ Que a vida está uma tristeza,/ Que a fome está de amargar...”. Maria Teresa jamais se interessou por política. O primeiro e último comício que participaria seria em 13 de março de 1964, no ocaso do governo Goulart.

]        - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo em 2001.




sexta-feira, 2 de novembro de 2012

'"CHEIROS DA VIDA" - nº57 - O PRIMEIRO E ÚLTIMO

                 
       Até que o jantar superou as expectativas. Tirando um pequeno acidente de percurso tudo saiu às mil maravilhas.
          Quanto ao acidente de percurso: nosso “cozinheiro” dispunha de panelas, panelinha, frigideira, caçarola e todos os talheres desejáveis para um bom desempenho. Faltava apenas um escorredor para macarrão.
          Questão fácil de ser superada; nada que uma boa raquete de tênis não substituísse a contento. Assim foi feito e comunicado aos demais comensais apenas após o último gole de vinho, já todo mundo meio “alto” e madrugada já se avizinhando.
-         Aquela cor vermelha-forte do molho estava reforçada pelo saibro impregnado na raquete, e deu um sabor especial, vocês hão de convir, arrematou com autoridade, o “cozinheiro” Fernando, antes que alguém ousasse interpelá-lo.
-         Estava ótimo!
-         Estava ótimo, mas amanhã tenho de estar as oito no Werneck e ainda tenho que dar uma olhadela no assunto da aula.
-         Calma, Leleco! A noite é uma criança. Vamos abrir outra garrafa para comemorar nossa liberdade.
-         O Leal está certo... Meus chapas, com meus agradecimentos e minhas desculpas, eu vou já para cama, pois não estou acostumado a estas extravagâncias – atalhou o Luiz Carlos com bastante propriedade.
-         Vocês são uns “amigos-da-onça”. Agora que a coisa estava ficando boa. Ia até fazer um brinde à nossa “mestra” de cálculo...

          Luiz Carlos não se conteve:
-         Amélia Maria... Que pitelzinho!
-         Ué! O cara já estava quase dormindo, de repente ressurge das cinzas...
-         É Leleco, basta a lembrança de um par de belas coxas; levanta até defunto.
-         Aquelas coxas não são belas... São divinas!.. E aquela pele, deve ser macia, cheirosa, doce... – completou Luiz Carlos apertando contra o peito o travesseiro todo amassado.
-         Só não entendo como uma mulher tão bonita, cheia de it pode ser assistente daquele mestre gordo e seboso o tal de Fernando Ramos; ainda por cima parece estar caidinha por ele...
-         Um desperdício arrematei.
-         Mudando de assunto, para acalmar o Luiz Carlos que ficou meio abalado com a lembrança da Amélia Maria: acho que meu jantar estava caprichado. Valeu a pena?
-         Claro, respondemos em uníssono.
-         Aliás, podíamos comer sempre que possível em casa. Comida saudável, mais barata...
-         Olha a pia da cozinha – novamente interrompeu oportunamente  o Luiz Carlos.
-         Qual o problema?
-         Olha o monte de “bagulho” para lavar.
-         É, acho que minha idéia para manter a saúde e combater a carestia não é das mais felizes.

          Na verdade aquele foi o primeiro e o último jantar que se viu acontecer naquele apartamento. Pelo menos com aqueles inquilinos.
          Quando ia propor um mutirão para lavar as louças, desisti. Luiz Carlos abraçado ao travesseiro ainda mais amarfanhado dormia a sono solto com um leve sorriso no canto da boca, talvez sonhando com sua sereia.
          Fernando, emborcado na cama já não respondia.
Pensei comigo: amanhã se dá um jeito. Ato contínuo apaguei vestido como estava...

          - Trecho de meu livro"Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ("Capital Brasileira do Mergulho") em 2001