por José Carlos Coelho Leal
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
terça-feira, 27 de novembro de 2012
"CHEIROS DA VIDA" - nº 65 - O CHEQUE SALVADOR
-
Amanhã chegam 80 carteiras para as salas de aula, 70
com a prancheta do lado direito e 10 do lado esquerdo especialmente feitas para
os canhotos. A marca é Kastrup, o melhor que existe em matéria de cadeiras
escolares, e terás que pagar 50% ao entregador.
-
Ivan! Pelo amor de Deus! Você ficou maluco? Estamos
quase sem dinheiro em caixa.
-
Não foi isso o combinado?
-
O combinado era que você iria fazer uma pesquisa nas
casas de móveis.
-
Pesquisei.
-
E daí?
-
Eu não tenho como falar com você. Esperei seu
telefonema até anteontem. O preço estava bom e ainda consegui um desconto com
pagamento em duas vezes. Agora se vira.
-
Virar como?
-
Deixa-me entrar em sala que está no meu horário.
-
O quê eu faço?
-
Não tenho a mínima idéia.
Fiquei alguns minutos
batendo com a ponta do lápis na mesa, olhar no infinito; uma vontade danada de
estrangular o Ivan. Afinal as obras do novo curso ainda não estavam terminadas,
as finanças à míngua e ainda faltavam alguns dias para o dinheiro novo do mês
entrante.
Carteiras agora? Não seria
colocar a carroça na frente dos bois?
Respirei fundo. Não havia
tempo a perder. Rumei para casa do Saboia sem mesmo saber se lá estaria solução.
Mal toquei a campainha, Luíza fez seu costumeiro alvoroço, tudo fazendo para eu perder a pose.
-
Dona Léa coloca mais um prato que o Leal janta conosco.
-
Não é nada disso, menina!
-
Vai dispensar um jantarzinho?
-
Preciso falar urgentemente com seu pai.
-
Depois do jantar.
Custei a arranjar um jeito e coragem para falar do meu problema com Dr. Luiz.
Ao fim da minha arenga o Dr Luiz com toda calma, simplesmente disse:
- Onde você está vendo problema?
- O senhor me conhece a tão pouco tempo e, não ofereço nenhuma garantia de como e quando saldar essa dívida.
- Continuo não vendo onde está o problema!
Saí de barriga cheia e com
um cheque de Cr$ 30.000,00 louco para esfregá-lo na cara do meu sócio
tresloucado.
O futuro haveria de nos ajudar a honrar aquele compromisso. E ajudou...
- Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2002 (parte)
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
'CHEIROS DA VIDA" - nº 64 -A "O OPEA""
“O futuro do planeta e a
sobrevivência da sociedade dependem do que fazemos no presente”.
Este é o fecho do documento
chamado Carta de Petrópolis decorrente do 4º Encontro Nacional do Movimento de
Cidadania pelas Águas que aconteceu agora no passado mês de março.
Torna-se cada vez mais
irritantemente evidente que a poluição produzida nos rios deriva substancialmente
da utilização de agrotóxicos nas plantações, agentes químicos responsáveis pela
degradação ambiental e que são impostos para consumo do Terceiro Mundo por
poderosos grupos transnacionais.
Possivelmente a água estará
para o século XXI como o petróleo esteve para o século XX.
Apesar de a terra ser
chamada por alguns de Planeta Água o modelo de sua distribuição no globo
terrestre é bem preocupante principalmente considerando a pouca importância
dada pelos governantes a essa problemática.
A distribuição da água no
globo terrestre obedece ao seguinte modelo: 97,5% de água salgada dos mares e
oceanos; 2,493% na forma sólida em
geleiras ou aquíferos em regiões subterrâneas de difícil acesso; 0,007%,
finalmente, é água doce encontrada nos rios, lagos sendo a única apta ao
consumo humano.
A ONU adverte, por sua vez: nos próximos vinte e cinco anos nada menos de 2,8 bilhões de pessoas poderão viver em regiões marcadas pela sede crônica, considerando, sobretudo que quase todos os nossos cem mil cursos d'água estão afetados por alguma forma de poluição.
A ONU adverte, por sua vez: nos próximos vinte e cinco anos nada menos de 2,8 bilhões de pessoas poderão viver em regiões marcadas pela sede crônica, considerando, sobretudo que quase todos os nossos cem mil cursos d'água estão afetados por alguma forma de poluição.
O Brasil detém quase 20% da
reservas de água doce mundial e dizem alguns já deveria estar pensando na
criação de uma Organização dos Países Exportadores de Água (Opea) nos mesmos
moldes da Opep, pois fica evidente que a água será a grande riqueza do século
XXI.
Outro dado impressionante:
uma pessoa consome, em média, 150 litros de água por dia. Já para produzir um
quilo de alumínio se consome 1.300 litros e para gerar um quilo de carne
bovina são necessários 18 mil litros de água doce.
Esperemos que as autoridades
brasileiras despertem para essa problemática.
- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo em 2002 (parte)
terça-feira, 20 de novembro de 2012
EXTRA - MINHAS CANTORAS INESQUECÍVEIS
Todas as músicas selecionadas a seguir significam algo importante para mim em alguma fase de minha vida.
Poderia mesmo destacar que elas falam, por assim dizer, algo que senti a cada momento, principalmente aqueles significativos na fase da minha juventude e início da maturidade. Estágio de aprendizado e de busca por um caminho seguro para percorrer.
Cada uma delas tem haver com momentos marcantes de minha existência, bem como são interpretadas por cantoras que acariciaram para sempre minha alma.
ZK
Poderia mesmo destacar que elas falam, por assim dizer, algo que senti a cada momento, principalmente aqueles significativos na fase da minha juventude e início da maturidade. Estágio de aprendizado e de busca por um caminho seguro para percorrer.
Cada uma delas tem haver com momentos marcantes de minha existência, bem como são interpretadas por cantoras que acariciaram para sempre minha alma.
ZK
"CHEIROS DA VIDA" - nº 63 - O ARQUITETO AFETADO
-
Anthon! Quero te apresentar o Leal que é dono do curso
em que estudo e sobre quem te falei ontem à noite.
-
Muito prazer.
-
É todo meu – respondeu com certo afeto o arquiteto.
Era muito bem instalado o
escritório do primo do René, cheio de bossa como costumam ser os escritórios de
arquitetos. Alguns desenhistas, uma secretária cheia de charme, pranchetas
transbordando de plantas coloridas e maquetes de casas e edifícios.
-
A noite passada, depois do telefonema de meu primo,
pensei: para ser um curso o espaço deverá ser readaptado. Hoje pela manhã fiz
uma planta baixa e umas perspectivas que poderão dar bem uma ideia do que
proponho.
-
Você fez um projeto?
-
Não. Está tudo em forma de croquis.
-
Posso ver?
-
Claro. Aqui está. Podemos montar duas salas de aula,
mais um escritório, adaptar os sanitários e ainda temos esta varanda que merece
bem um anuncio luminoso virado para Av. XV.
-
Maravilha, primo.
-
Também achei. Mas quem irá fazer esta obra e quanto
custará?
-
Meu escritório se encarrega de tudo e quanto ao custo
da obra posso financiar para você.
-
Tenho um sócio e devemos decidir juntos
-
Vamos ver as salas depois voltamos para tomarmos um
uísque.
-
Ver as salas tudo bem; quanto ao uísque fica para outro
dia. As 7 tenho que dar aula no curso.
Antes que a semana
terminasse o contrato já estava assinado e as obras teriam início na
segunda-feira, uma semana após o incidente provocado pelo Dr. Nazareth.
- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2002 (parte) em Arraial do Cabo.
sábado, 17 de novembro de 2012
"CHEIROS DA VIDA" - nº 62 - O PENSAMENTO E A AÇÃO
Na terça-feira nem fui à
faculdade. Minha principal preocupação era arranjar uma sala o mais rapidamente
possível. No meu íntimo dois pensamentos diversos.
O primeiro: até quando você
vai acreditar nas pessoas sem pestanejar?
O segundo: é hora de “mandar
brasa”, ampliar o curso e ganhar dinheiro como “gente grande”.
Na negociação com o
Almirante, tanto eu quanto o “panaca” do meu sócio, não exigimos nenhum
documento, acreditamos em tudo que ele disse e assumimos um compromisso no
escuro.
Infantil nossa atitude.
Mal sabia eu que pela vida
afora repetiria várias vezes tal procedimento acreditando ser sempre a última
vez.
De resto outra verdade
me seguiu por toda a vida. Praticamente em todas as ocasiões dei a “volta por
cima” e, sempre para melhor.
O “Curso Pio XII” já tinha
dado o que podia. Agora era dar o passo seguinte.
Ao entrar no primeiro
corretor de imóveis minha visão do problema já era outra. Não queria alugar uma
sala e sim um grupo de salas.
Infrutífero aquele dia.
Vi muitas salas, grupos de
salas e até casas. Ou não prestavam, ou estavam longe do centro.
Nosso novo curso deveria
estar localizado no centro, preferencialmente numa transversal à Avenida XV de
Novembro e, perto dos colégios, principalmente do Werneck e do Ginásio Estadual
Washington Luiz.
Após as aulas surgia sempre um papinho de fim-de-noite com um grupinho de alunos mais chegados.
Naquela terça-feira, apesar do cansaço e da preocupação que faziam minha cabeça quase estourar, não foi diferente.
Acabei falando de parte do problema que, na verdade veria depois, seria a solução.
Após as aulas surgia sempre um papinho de fim-de-noite com um grupinho de alunos mais chegados.
Naquela terça-feira, apesar do cansaço e da preocupação que faziam minha cabeça quase estourar, não foi diferente.
Acabei falando de parte do problema que, na verdade veria depois, seria a solução.
-
Estamos pensando em expandir o curso - deixei escapar.
-
Como assim?
-
René você não acha que esta sala já está muito
apertada?
-
Depende...
-
Queremos um grupo de salas se possível aqui perto e
mais próximo aos colégios.
-
É por isso que eu perguntei, pois acho que posso ajudar
– disse o René já demonstrando um entusiasmo pelo negócio, não contrariando seu
sangue libanês.
-
Como assim?
-
Tenho um primo arquiteto que está com um grupo de salas
para alugar na rua Barão de Tefé.
-
É verdade?
-
Preenche tudo o que você quer: no centro, transversal e
entre os dois maiores colégios. Ainda, perto da Companhia Telefônica e das Lojas Americanas, Dois lugares bem movimentados e frequentados em números expressivos pela juventude petropolitana.
-
E como eu falo com ele?
-
Quando a gente descer vamos até o boteco tomar um café.
Aproveito para ligar para ele e marcar um encontro para amanhã.
-
É pra já!
- Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2002 (parte)
- Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2002 (parte)
sábado, 10 de novembro de 2012
"CHEIROS DA VIDA" - nº 61 - NOVO NOME PARA O CURSO
Inicia-se 2002. Foi-se o
primeiro ano do novo século.
Uma novidade e, outra, nem
tanto.
A partir de 1º de janeiro doze países europeus passaram a adotar uma moeda única, o Euro. Uma novidade.
Enquanto isso na Argentina,
isso já não é novidade, o senador peronista Eduardo Duhalde assume a
presidência. É o quinto presidente em dez dias. Além disso: Bush se engasga
com um biscoito, a Rede Globo estréia uma “barbaridade” chamada “Big Brother
Brasil”.
No Rio 20 mil pessoas contraem dengue e o mosquito Aedes aegypti se espalha por todo o país e, mais uma vez, a
Lagoa Rodrigo de Freitas é palco do trágico espetáculo da mortandade de peixes,
dessa vez em pleno
Carnaval , Na quarta-feira de cinzas foram retiradas da lagoa
94 toneladas de peixes.
A facção criminosa PCC
promove rebelião em sete penitenciárias paulistas. Executa 15 presos e fere 49.
Equanto isso uma bomba explode no prédio da Secretaria de Administração
Penitenciária.
O Prefeito de Santo André,
Celso Daniel, do Partido dos Trabalhadores é assassinado após sair do
Restaurante Rubahyat. Foi executado com oito tiros. Crime comum ou político.
Pelo jeito o caso dará “pano para mangas”. "Coisa" muito séria por trás disso tudo...
Pensando bem o Euro é a
única novidade, o resto faz parte de nossa triste rotina.
A coisa está braba (aliás, quando não esteve???...) É melhor
voltar para nossa história.
Meio braba também ficou a
coisa no nosso curso.
Vamos recapitular: criamos
um curso vestibular em Petrópolis, eu e o Ivan Sylvio alugamos a sala de certo
Almirante Iramaia para usa-la somente à noite e, para tanto, pactuamos um
aluguel que naquele momento chegava 7000 cruzeiros mensais.
O curso ia indo muito bem,
obrigado.
Numa segunda-feira estava eu gozando a
minha saudável permanência na Cidade Maravilhosa e já me preparava para dormir.
No dia seguinte deveria estar às 5 horas da manhã na Rodoviária Mariano
Procópio, pois o primeiro ônibus para Petrópolis sairia pontualmente às 5,15
horas.
Era quase 11 da noite quando
toca a campainha.
-
É o Ivan, grita mamãe lá de baixo.
-
Ivan? Essa hora?
-
Isso. Venha atendê-lo. Do jeito que estou não posso
aparecer para ninguém.
-
Estou indo.
Às segundas-feiras era dia
do Ivan pernoitar em
Petrópolis. Pelo menos assim fora combinado e estava
funcionando muito bem.
Dava aula
até às 22 horas, tratava de providenciar o fechamento do curso e, normalmente, só
retornava ao Rio no dia seguinte, para variar no ônibus das 5,15 horas, direto
para firma onde estagiava aqui no Rio.
Diabos!!!
Se voltou hoje e
veio direto cá para casa, é porque temos problemas. Certamente dos grandes –
pensei com meus botões enquanto nervosamente me metia dentro das calças.
Desci a escada correndo.
-
Cara! Você não devia estar em Petrópolis?
-
Leal! Não dá para imaginar o que aconteceu. Pedi para o
Werner me substituir na última aula e me mandei para o Rio. Estou vindo direto
da rodoviária.
-
Isso esta na cara! Mas o que aconteceu?
-
Você nem imagina...
-
Isso você já disse, agora fala.
-
No intervalo da segunda para terceira aula estava na
secretaria quando apareceu um senhor muito bem apessoado querendo matricular o
filho.
-
Mas agora? O ano já está chegando ao fim.
-
Foi isso que estranhei.
-
E daí?
-
O senhor começou a fazer uma série de perguntas
inclusive querendo saber quem eram os donos do curso.
-
Só podia ser fiscal de alguma coisa.
-
Foi o que pensei.
-
Não era. A coisa é bem mais complicada.
-
Fala porra!
-
Simplesmente o Dr. Nazareth, esse seu nome, é o dono da
sala.
-
O dono da sala é o Almirante.
-
Era! Era!
-
Como assim?
-
O almirante é um pilantra que não paga aluguel ao Dr.
Nazareth há vários meses, aliás, um aluguel de 4.000 cruzeiros. Simplesmente
esta sublocando a sala para nós na maior cara de pau. Com reajustamento deste
semestre já estamos pagando ao patife 7.000 cruzeiros.
-
Cacete! Aluga por 7.000 uma sala que, teoricamente lhe
custaria 4.000. Canalha!
-
É isso.
-
E agora?
-
Agora o Dr. Nazareth está colocando uma ação na justiça
para despejar o Iramaia.
-
É, mas quem vai para rua somos nós.
-
Calma!
-
Como calma? Você tem certeza que a história do Nazareth
é verdadeira.
-
Claro. Ele mostrou escritura e inclusive o contrato de
aluguel assinado pelo Almirante com aquela letrinha de veado que ele tem.
-
Mas quem vai tomar prejuízo somos nós.
-
É isso que estou querendo dizer. O Nazareth fez todas
aquelas perguntas para saber realmente quem éramos. Convencido de nossa boa-fé
prometeu não tomar nenhuma providência até que tenhamos condições de alugar
outra sala.
-
Dá vontade de encher de porrada a cara daquele
Almirante de merda.
-
Agora é manter a calma, planejar tudo com cuidado,
providenciar a mudança e só depois iremos falar poucas e boas para o
“comandante de barquinho de papel”.
-
A sala já estava pequena mesmo. Agora temos que dar o
pulo para valer. Vamos montar um curso de verdade.
-
Isso!
-
Pode até ir escolhendo o novo nome para nosso curso.
- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2002 (a partir desse capítulo) em Arraial do Cabo.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
"CHEIROS DA VIDA" - nº 60 - A CARONA
Época maravilhosa aquela
quando às segundas-feiras as aulas eram no Rio.
Petrópolis só na terça.
Eram aulas práticas de
Tecnologia Mecânica ministradas nos laboratórios da Escola Técnica Nacional,
juntinho do Maracanã. Aulas de torno, fresa e demais máquinas-ferramenta. Hora de colocar a mão na
massa e fabricar peças previamente desenhadas nas aulas teóricas e onde a
precisão milimétrica era fundamental.
Talvez a motivação principal
fosse o professor, a figura sensacional de Miguel de Assis Vieira.
Achava até que eu poderia dar para a coisa.
Achava até que eu poderia dar para a coisa.
Em compensação aos sábados
permanecíamos em Petrópolis até o fim da tarde. Pela manhã 4 horas de Geometria
Descritiva e, à tarde, mais 4 horas de Mecânica Racional.
Saíamos de Petrópolis já com
noite fechada, quase sempre acompanhados do tradicional “ruço” da serra e,
muito amiúde, absorvendo um frio de “bater-queixo”.
Nas semanas em que o
Fernando estava a fim de estudar tinha carona garantida apesar de não raramente
eu ficar muito chateado com meu amigo. O “cara” saía completamente
do seu itinerário, o “bandido” morava em Botafogo, o que me deixava
sinceramente penhorado.
O problema é que depois de percorrer mais de100
quilômetros , ao invés de deixar-me na porta de casa,
deixava-me a cerca de cem metros do meu destino, na esquina das ruas José
Higino e Conde de Bonfim.
O problema é que depois de percorrer mais de
-
Puxa Fernando! Não dá para dar uma subidinha até minha
casa. Nem cem metros.
-
Complica muito meu itinerário.
-
Complica nada. Você até corta caminho...
-
Uma ladeirinha faz bem para a saúde.
-
Estou cheio de bagagem.
-
Fortalece os braços.
-
Legal! Semana que vem desço de ônibus.
-
“Lelê”! Você não vive sem mim.
Na semana seguinte
repetia-se a mesma cena.
- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2001.
INVENTÁRIO DE SAUDADES - ANIVERSÁRIO DE MEU PAI
Se vivo fosse meu pai estaria fazendo hoje 107 anos.
Cesar Coelho Leal nasceu no dia seis de novembro de 1905 na cidade de São Gabriel, Estado do Rio Grande do Sul.
Faleceu aos setenta e seis anos no dia quatorze de janeiro de 1981.
Dedicou toda sua vida profissional a uma única empresa a Perfumaria Myrta S.A. fabricante do Sabonete Eucalol.
Percorreu toda a escala hierárquica da empresa passando para todos nós seus filhos, noras, netos, patrões. companheiros e amigos um exemplo constante de honradez e dignidade.
Muita saudade de seus óculos "fundo-de-garrafa" e, seu sorriso
"maroto", espontâneo e aberto escondendo muitas vezes uma "molequice sadia".
Saudades Eternas do Seu Cesar
domingo, 4 de novembro de 2012
EXTRA - INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA DE MAMÃE
Por problemas financeiros de família, minha mãe Tininha foi trabalhar fora muito cedo
Logo ela que era a caçula de sete irmãos.
Isso me orgulha muito!
Vejam a folha inicial de sua carteira trabalhista assinada em 12 de fevereiro de 1927.
Tinha ela então treze para quatorze anos.
Consultando, no entanto, as folhas seguintes verifica-se que ela começou realmente a trabalhar dos onze para doze anos; ou seja em 23 de março de 1925.
Uma criança!!!
Seu local de atividade como ajudante de chapeleira era no centro da cidade, à Rua sete de Setembro, 181
Dona Tininha (Albertina Mazzei Leal) um exemplo de dignidade e dedicação.
Muita saudade!!!...
Caso tal fato acontecesse hoje seria considerado (politicamente incorreto) e meu Avô Vicenzo iria em "cana" por "abuso de menores" ou acusado de "trabalho escravo"...
Foi exatamente nessa ocasião que minha mãe conheceu meu pai, ou seja, caso nada disso tivesse acontecido e, não estaria hoje escrevendo emocionado essas linhas..
sábado, 3 de novembro de 2012
"CHEIROS DA VIDA" - nº 59 -" YO NO CREO EN BRUXAS"
Yo no creo en
bruxas, pero que las hay, las hay”. Para mim tal provérbio
é válido também quanto a “discos voadores” como eram chamados os óvnis na
década de sessenta.
Nos últimos dias a imprensa
voltou a explorar o assunto que sempre desperta a atenção do público e,
sobretudo, ajuda a incrementar a tiragem dos periódicos o que nos faz mui
justamente pensar, tratar-se exclusivamente de um esquema comercial.
Assim foi com Elba Ramalho
que se disse abduzida por estranhos seres e da fogosa Tiazinha que acabou
chegando a conclusão de que vira era apenas um dirigível de propaganda do Goodyear.
Até a responsabilidade pelo
blecaute de 11 de março de 1999 tentou ser imputada a estes engenhos
extraterrestres. Também se vendeu muito jornal e revista com o assunto
“chupacabras” possivelmente obra de um
viajante alienígena tecnicamente chamado de “Intruso Esporádico Agressivo, o
IEA.
A coisa complica quando o
depoimento de visões extraordinárias vem de pessoa idônea como foi o caso
relatado pelo coronel Ozires Silva, em 1986, que exercia na ocasião a
presidência da Petrobrás.
Agora a minha história.
O fato que passo a contar
aconteceu alguns dias antes do início de meu derradeiro vestibular. Para variar
estava muito tenso.
Já eram quase duas da manhã.
Aquele tinha sido mais um
dia de verão típico do mês de janeiro. Sol a pino, temporal à tarde e à noite a
atmosfera livre e solta, envolvida apenas pela brisa que trazia o suave perfume
da mata e o excitante cheiro de terra molhada.
Dia e hora de cada prova já
estavam marcados; era crucial dedicar todos os cuidados à terrível química.
NaClO³ + calor à NaCl + 3/2 O²
depois, alcanos, alcenos, alcinos... Parecia até escalação de time de
futebol.
O sono já por algum tempo
vinha querendo me derrubar. Talvez uma chegada à janela, respirar o ar puro da
noite de certo me faria bem.
A madrugada tranqüila
convidava a um bom sono, mas aquelas infelizes leis de Dalton, de Raoult e o
bendito “fator de Van´t Hoff atormentavam meu juízo.
Quando iria acabar aquele martírio?...
Súbito um som familiar
fez-se ouvir cada vez mais forte: era o bonde das duas que vinha chegando à
última viagem do dia. Fez a volta direto, pois não trazia e nem havia
passageiros a transportar.
Simbolicamente aquele
derradeiro bonde trazia o sentimento de fim, ponto final em mais um dia de
nossas vidas.
De volta, o silêncio me
avisava que era hora de retornar aos livros para mais alguns minutos de
tortura.
No entanto quando ia me
afastar da janela vejo encostar junto ao meio-fio, defronte ao portão da vila,
um taxi.
A curiosidade me prende à
janela. Quem poderia ser a estas horas?
Não havia mais dúvida era
nossa vizinha Aidê da casa 7 com os seus quarenta já passados.
-
Estudando ainda, seu Carlinhos?
-
Não é por gosto meu. Preferia estar fazendo algo bem
mais agradável...
-
Você sabe que horas são, menino?
-
Duas e tal.
-
Hora de criança estar na cama!
Quando preparava uma
resposta bem atrevida algo inusitado interrompeu nosso papo...
Uma luz branca de alta
intensidade, vinda do alto do céu, quase nos cegava. Aproximava-se lenta e
silenciosamente cada vez com maior brilho. Tudo ao nosso redor resplandeceu
como se fora o mais claro dos dias.
De repente, parou...
A “coisa” havia surgido por
detrás do apartamento do João Bosco, fronteiro à minha janela, aliás, no mesmo
edifício em que morava a “judia que judiava”, lembram-se?
Depois, ainda sem emitir
qualquer som foi subindo, primeiro, lentamente e logo após com velocidade
incrível.
Noite novamente.
Nós ali, paralisados. Assim
permanecemos por algum tempo.
Quanto? Não tenho a menor
idéia.
-
Carlinhos, meu filho! Que foi isso?
-
E eu sei Dona Idê!
-
Estou com as pernas bambas.
-
Desço já até aí.
Depois de alguns copos
d’água, pudemos conversar. Ninguém acordou e o silêncio era total.
- Meu filho, vem comigo até minha porta que eu
acho que nem a fechadura vou acertar.
-
Vamos lá.
Voltei correndo batendo
forte com os pés no chão para espantar o medo. Imagina se aquela “coisa” volta?
Tranquei a porta, subi
rapidamente para o quarto e fechei a janela mesmo estando um calor infernal.
Abandonei os livros como
estavam e deitei-me.
Um custo pegar no sono.
No dia seguinte conversando
com meus amigos fiquei sabendo que àquela mesma hora alguns deles estavam
jogando conversa fora no nosso ponto de encontro tradicional, a mureta do
Genarino.
Ninguém vira nada. E o pior:
passaram a olhar-me com certa estranheza.
Para não complicar as coisas
parei por ali e me abstive de mais comentários.
Dias depois, conversando com
Dona Idê, ela dizia da incredulidade com que a ouviam e, também, resolvera
colocar um ponto final naquela história.
Nós dois sabíamos da
veracidade do acontecido, mas como convencer os outros?
E adiantava?...
Até hoje não sei o que foi
aquilo.
“Yo no creo en
bruxas, pero que las hay, las hay”.
- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001.
'CHEIROS DA VIDA" - nº 58 - ESPELHO, ESPELHO MEU...
Após a fracassada invasão na
Baía dos Porcos promovida pela CIA, Cuba definitivamente optava pela União
Soviética com Fidel Castro declarando a ilha um Estado Socialista adotando em
definitivo o marxismo-leninismo.
Ainda em outubro daquele ano
de 1962 diante da descoberta de que mísseis soviéticos estavam sendo instalados
em Cuba, os Estados Unidos bloquearam a ilha e se preparavam para uma invasão
quando a União Soviética retirou os armamentos e o bloqueio foi cancelado.
O mundo mais uma vez
livrara-se de um conflito de conseqüências inimagináveis para a humanidade.
Enquanto os Beatles gravavam
seu primeiro compacto, Love me Do e P.S.
I Love you, a dupla Vinícius e Tom compunha Garota de Ipanema abrindo as
portas do Carnegie Hall, de Nova York, para apresentar à cena mundial os
principais nomes da bossa-nova.
Sérgio Porto que criara o
personagem Stanislaw Ponte Preta inspirado no Serafim Ponte Grade de Oswald de
Andrade era o grande humorista do momento e fazia sucesso com seu livro “Tia
Zulmira e Eu”.
Stan, o sobrinho da
“veneranda Zulmira” criara um vocabulário próprio que logo se incorporou ao
linguajar carioca como: “bossa nova”, “teatro rebolado”, “sente o drama”, “vou
te contar” e muito mais.
Leon Eliachar, outro
humorista da época dizia: “há duas espécies de humor – o trágico e o cômico. O
trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico e o que é verdadeiramente trágico
para se fazer”.
A intelectualidade moderna e
requintada adotava a revista “Senhor” como seu órgão oficial. Nela encontravam
as fotos das “musas” do momento, a decoração no estilo barroco mineiro, afinal
“não há nada mais moderno que um móvel antigo” e ainda os anúncios
“inteligentes, malucos e arrojados”.
Nas páginas de “Senhor”
estavam presentes os universos de concreto e vidro de Niemeyer e Sérgio
Bernardes, os sofás de couro de Sérgio Rodrigues, e as opiniões dos playboys que freqüentavam o Zum-Zum, o
Jirau e o Black Horse.
“O Cruzeiro” publicava:
“Quando Jaqueline Kennedy, pela manhã, pergunta ao seu espelho mágico ‘Qual a
mais linda primeira dama na face da terra? ’, já não está certa de ouvir
unicamente o seu próprio nome”.
O fato é que Maria Teresa
Fontelle Goulart, mulher do presidente João Goulart, tornara-se, aos 23 anos, a
mais jovem, a mais elegante e, seguramente a mais bonita primeira dama do
Brasil em todos os tempos.
Juca Chaves satirizava:
“Dona Maria Teresa/ Diga a seu Jango Goulart/ Que a vida está uma tristeza,/
Que a fome está de amargar...”. Maria Teresa jamais se interessou por política.
O primeiro e último comício que participaria seria em 13 de março de 1964, no ocaso
do governo Goulart.
] - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo em 2001.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
'"CHEIROS DA VIDA" - nº57 - O PRIMEIRO E ÚLTIMO
Até que o jantar superou as expectativas. Tirando um pequeno acidente de percurso tudo saiu às mil maravilhas.
Quanto ao acidente de percurso: nosso “cozinheiro” dispunha de panelas, panelinha, frigideira, caçarola e todos os talheres desejáveis para um bom desempenho. Faltava apenas um escorredor para macarrão.
Questão fácil de ser superada; nada que uma boa raquete de tênis não substituísse a contento. Assim foi feito e comunicado aos demais comensais apenas após o último gole de vinho, já todo mundo meio “alto” e madrugada já se avizinhando.
- Aquela cor vermelha-forte do molho estava reforçada pelo saibro impregnado na raquete, e deu um sabor especial, vocês hão de convir, arrematou com autoridade, o “cozinheiro” Fernando, antes que alguém ousasse interpelá-lo.
- Estava ótimo!
- Estava ótimo, mas amanhã tenho de estar as oito no Werneck e ainda tenho que dar uma olhadela no assunto da aula.
- Calma, Leleco! A noite é uma criança. Vamos abrir outra garrafa para comemorar nossa liberdade.
- O Leal está certo... Meus chapas, com meus agradecimentos e minhas desculpas, eu vou já para cama, pois não estou acostumado a estas extravagâncias – atalhou o Luiz Carlos com bastante propriedade.
- Vocês são uns “amigos-da-onça”. Agora que a coisa estava ficando boa. Ia até fazer um brinde à nossa “mestra” de cálculo...
Luiz Carlos não se conteve:
- Amélia Maria... Que pitelzinho!
- Ué! O cara já estava quase dormindo, de repente ressurge das cinzas...
- É Leleco, basta a lembrança de um par de belas coxas; levanta até defunto.
- Aquelas coxas não são belas... São divinas!.. E aquela pele, deve ser macia, cheirosa, doce... – completou Luiz Carlos apertando contra o peito o travesseiro todo amassado.
- Só não entendo como uma mulher tão bonita, cheia de it pode ser assistente daquele mestre gordo e seboso o tal de Fernando Ramos; ainda por cima parece estar caidinha por ele...
- Um desperdício arrematei.
- Mudando de assunto, para acalmar o Luiz Carlos que ficou meio abalado com a lembrança da Amélia Maria: acho que meu jantar estava caprichado. Valeu a pena?
- Claro, respondemos em uníssono.
- Aliás, podíamos comer sempre que possível em casa. Comida saudável, mais barata...
- Olha a pia da cozinha – novamente interrompeu oportunamente o Luiz Carlos.
- Qual o problema?
- Olha o monte de “bagulho” para lavar.
- É, acho que minha idéia para manter a saúde e combater a carestia não é das mais felizes.
Na verdade aquele foi o primeiro e o último jantar que se viu acontecer naquele apartamento. Pelo menos com aqueles inquilinos.
Quando ia propor um mutirão para lavar as louças, desisti. Luiz Carlos abraçado ao travesseiro ainda mais amarfanhado dormia a sono solto com um leve sorriso no canto da boca, talvez sonhando com sua sereia.
Fernando, emborcado na cama já não respondia.
Pensei comigo: amanhã se dá um jeito. Ato contínuo apaguei vestido como estava...
- Trecho de meu livro"Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ("Capital Brasileira do Mergulho") em 2001

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