Em 1959, “Ecstasy” era apenas o nome de um disco de “Otto Cesana”, grande orquestra com temas suaves. Música ótima para namorar, ler, estudar, trabalhar...
Com o passar dos anos, tal música tornou-se “lounge” e numa tentativa de depreciá-la foi apelidada, em português, de “música-de-elevador”.
Na verdade são sons inolvidáveis, que marcaram várias gerações, sem torná-las “surdas”. Havia arte em sua interpretação. Somente instrumentos acústicos eram usados sem ajuda de qualquer efeito eletrônico, exceto aqueles que favoreciam o grande progresso na fidelidade das gravações.
Na mesma categoria estariam as “bolachas”, em doze polegadas, naturalmente, de Carmen Cavallaro, Jean Pacques ( et sa musique douce), Billy Vaughn, Nelson Riddle ( arranjador preferido de Sinatra), Mantovani, André Kostelanetz, Percy Faith, e tantos outros.
Hoje, “Ecstasy” é sinônimo de pavor atraentemente escondido
nas entranhas da fórmula MDMA (N-metil-3, 4-metilenodioxianfetamina). É a “pílula do amor” ou simplesmente “E”, droga popularizada entre os jovens da classe média, comercializada não pelo típico traficante da favela, mas por moças e rapazes de boa aparência, também usuários.
Ao contrário das demais drogas, o ecstasy não precisa de plantação, colheita e processamento. É uma droga sintética que pode matar principalmente em decorrência da elevação da temperatura corporal acima dos 41 graus e pela destruição das proteínas do sangue.
Prefiro o “Ecstasy” do Otto Cesana.
Ao som de suas criações, curti “adoidado” minhas dores-de-cotovelo...
Além da música, o cinema completava minha fuga. Compulsivamente assistia todos os lançamentos.
Sorte minha, a época era das melhores e os exibidores ainda não haviam capitulado ao domínio de Hollywood. Filmes italianos e franceses figuravam entre os meus preferidos, apesar de serem comuns filmes ingleses, alemães, espanhóis; terríveis filmes mexicanos da Pelmex contrastando com a sofisticação intelectual do cinema sueco de Bergaman.
Sem distinguir nacionalidades, alguns filmes marcaram aqueles dias: As Noites de Cabíria, Ladrões de Bicicleta, Bem-Hur, Eu Chorarei Amanhã, Sindicato de Ladrões, Marty, A Rosa Tatuada, Na Estrada da Vida, A Ponte do Rio Kwai, Meu Tio, Vidas Amargas, Mr. Roberts, A Um Passo da Eternidade, Inferno 17, As Férias do Senhor Hulot, Os Brutos também Amam, Quanto Mais Quente Melhor, La Dolce Vita , Morangos Silvestres, Hiroshima mon amour, Se Meu Apartamento Falasse, Férias de Amor, Brinquedo Proibido, Tarde Demais Para Esquecer, Cantando na Chuva, Quinteto da Morte...
Estes e muitos outros, são filmes que ainda hoje assisto na televisão com muito gosto.
Mil novecentos e sessenta passou... Lento, sofrido, muitas vezes amargo, com lampejos de entusiasmo de pouca serventia para levantar definitivamente meu ânimo.
Com o dinheiro de minha apólice, comprei um gravador de rolo, marca “Fujya”, uma raridade para a época. Com ele gravei muita coisa, inclusive as primeiras falas de minha afilhada Verinha.
Uma máquina de escrever profissional da marca “Remington” com carro super-grande e um mimeógrafo sueco “Ruf”, última palavra em “duplicadores”, assim eram chamadas essas maquinetas, coisa medieval comparadas às máquinas xerox e coisa e tal, seriam os equipamentos que comporiam minha pequena gráfica, com a qual pretendia ficar rico.
Carlos Alberto, meu sócio na empreitada, entrou com um pequeno espaço cedido por Dr. Mário no Laboratório onde montamos nosso “escritório” e o carro da Tité, sempre a postos para transportar pesadas resmas de papel ou fazer a entrega dos serviços contratados.
Certa ocasião, quando nossa sociedade não ia lá bem-das-pernas, conseguimos um serviço “salvador”. Um antigo contemporâneo do São José, Plínio Senra, convocou-nos para um serviço, para nós, milionário.
Sendo um dos donos da FBR- Fábrica Brasileira de Rolamentos, instalada em São Cristóvão , estava no comando de uma completa reformulação das linhas de montagem de sua fábrica.
Para tanto, os formulários de uso contínuo e farto nas oficinas estavam em testes, e a cada dia modificavam-se. Contava conosco para a cada fim de tarde recolher os novos modelos que deveriam estar aptos ao manuseio dos funcionários na manhã seguinte.
E lá vinham 500 cópias deste, mais 1000 daquele e assim por diante. Tudo sempre para o dia seguinte. Trabalhamos feito “mouros”.
Certa noite o espaço que dispúnhamos para desenvolver nossos trabalhos tornou-se insuficiente:
- Não tem jeito, disse Carlos Alberto, termos que usar a “sala imunológica”.
- Mas seu pai proibiu-nos taxativamente de usar aquela sala, usada apenas para fabricação de ampolas. Toda desinfetada, só ELE entra lá e, assim mesmo, protegido com sapatos, avental e touca especiais.
- E daí!...
- Como faremos uma coisa dessas? Vai dar o maior “galho”!
- Não temos que entregar o trabalho amanhã cedo?
- Claro que temos...
- Então esquece, e seja o que “Deus-quizer”!
Dava pena ver aquela sala pura como a mais casta das donzelas, azulejos brilhando de tão limpos, ser cruelmente violentada por largas manchas de tinta negra, papeis emprestáveis por toda parte.
Cometemos um verdadeiro sacrilégio ao templo imaculado da assepsia.
Madrugada já findando, encerramos os trabalhos sem não antes darmos uma faxina na sala. Até que não estava mal, mas evidentemente Dr. Mário iria reparar e de certo perderíamos nosso escritório.
A emenda foi pior que o soneto. O Mário não gostou nem um pouquinho de termos usado sua sala inviolável...
Mas o que o deixou quase apoplético, foi quando na manhã seguinte ao entrar no laboratório deparou-se, no lugar de honra da entrada, com o busto de bronze de seu pai, farmacêutico Dr. Francisco Giffoni, encimado de um estranho chapéu...
Um velho balde, enferrujado e sujo, que Carlos Alberto inadvertidamente esquecera quando ali o pousou para facilitar a procura das chaves da porta ofuscada pelos primeiros raios da alvorada.
Apesar de tudo, e agradecidos à bondade de Dr. Mário, não perdemos nosso escritório.
- Trecho e meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001
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