por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

"CHEIROS DA VIDA" -19 - AZAR NO AMOR...


           Sempre tinha dinheiro no bolso. Mesada, mais o que ganhava na Severo e ainda o pinga-pinga das aulas particulares que nunca faltavam, tornavam-me um “abonado”.
           Logo, apesar de longe da verdade, criou-se o mito.
           Em decorrência, era comum salvar algum amigo “a perigo” e, evidentemente, sofrer alguns calotes. Mas, justiça seja feita, eram raros os maus pagadores.
           Entre todos meus “clientes”, um deixou lembrança indelével.
           Era um colega do Guido dos tempos do São José que, com o passar dos tempos, tornou-se um freguês assíduo. Pior que o “cara” era notívago inveterado, sempre vindo solicitar algum numerário madrugada passada do meio.
           Para não incomodar ninguém, só a mim, é claro, assobiava uma melodia repetitiva, mãos em concha, na direção à janela do meu quarto.
           De pronto, punha-me alerta.
           Sonolento e praguejando baixinho, descia o mais silenciosamente possível os degraus da escada, carteira na mão; abria a porta e sem rodeios perguntava:
           - Quanto é?
           - Pode ser trinta?         
           - Trinta não. Vinte.
           - Tá bom, tá bom...
           - E aí?
           - Te pago dia 15.
           - Legal!
           - Boa-noite!
           - Hum...
           Dia 15 passava e, nada.
           Dia 25, pagava.
           Dia 30 pedia quarenta. Levava 30. Íamos vivendo...
           Certo dia, o “bicho” apareceu mais cedo. Desconfiei!
           - Você já ouviu falar em títulos de capitalização?
           - Não tenho a menor idéia do que se trata – respondi mais do que desconfiado. 
           A explicação consumiu uns bons dez minutos.
           - E daí, perguntei.
           - Daí que eu estou vendendo estes títulos e reservei um de 25 mil cruzeiros para você...
           - Vinte o quê?
           - Vinte e cinco mil cruzeiros!
           - Mário, você endoidou de vez. Eu aqui sofrendo uma terrível “dor de cotovelo”, e vem você com essa novidade?
           - Eu sei, mas é um bom negócio. Você escolhe uma combinação de letras, como esta aqui: FLY. Paga todo mês 25 cruzeiros até completar os 25 mil. A cada mês oito combinações são sorteadas. Se tiver sorte você recebe, na mão, 25 mil cruzeiros; senão, no final do prazo de capitalização o dinheiro é devolvido com um juro mensal de 0,02% ao mês. 
           - Grande negócio!
           - Compra um título. Todo mundo está fazendo. Com isso você poupa todo mês. Coisa moderna.        
           O sujeito dava para a coisa, ou então, eu que era muito trouxa. Enfim, comprei a bendita apólice.
           - Agora você me paga 25 cruzeiros, taxa inicial.
           - Pagando isso, já estou concorrendo?
           - Não, isso é a taxa inicial; daqui a uns dez dias vem o cobrador receber a primeira mensalidade e aporá o selo respectivo na sua apólice.
           - Então, nada feito! Mais 25 cruzeiros já é demais!
           Começou toda a lengalenga novamente.
           Vencido pelo cansaço e pela lábia do vendedor, comprei o título.
           - FLY, esta é a combinação milionária – disse o velhaco. Meu amigo vai “voar” de felicidade...
           - Pois, sim!
           Uma semana depois, apareceu o cobrador. Gastei mais vinte e cinco cruzeiros.
           Nem bem tinham passados dez dias, quem estava de volta à minha porta? O cobrador.
           - Outra vez? Veio buscar mais dinheiro?
           - Calma moço. O senhor foi sorteado. Vim avisá-lo para ir à Kosmos Capitalização, à Rua do Carmo, munido de sua apólice para receber 25 mil cruzeiros.
           Bem que me haviam dito, “azar no amor, sorte no jogo”.

           - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida"

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