por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 7 de agosto de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 15 - O "MATUSQUELA".

                                          


           - Leal e Tania, puxem as cadeiras para frente, pois não tenho confiança neste lustre. Se cair, machuca seriamente vocês.
           Toda vez que sentávamos na varanda, juntando as cadeiras com forração macia, única chance de ficarmos juntinhos, lá vinha Dr. Mário com esta cantilena.
           Certa noite cheguei preocupado com o que vira minutos antes.
           Queria conversar com minha namorada, mas vira-e-meche a imagem voltava à minha cabeça.
           Seria verdade?
           Fiquei bom tempo em silêncio admirando o viço das samambaias e respirando fundo o perfume de alguma flor desconhecida.
           E a cabeça funcionando... Seria verdade?
           Tania já meio sem-jeito, constrangida pelo silêncio com olhar fixo no chão demonstrava desassossego.
           Finalmente, a mudez foi quebrada.
           - Tania, acho que seu pai não anda muito “certo-da-cabeça”!
           - O quê!
           - É isso mesmo, da cabeça, da cabeça...
           - Acho que você é que está vendo coisas.
           - É! Então vou contar o que presenciei, faz menos de uma hora.
           - Agora quem está preocupada sou eu.
           - Calma que vou lhe contar.
           - Já é hora!...
           - Quando vinha para cá, desci do lotação como sempre faço em frente a “Padaria Regina”. Aguardei o sinal abrir, e enquanto esperava vi seu pai do outro lado da rua tomar o bonde, ainda em movimento, andar pelo estribo ao mesmo tempo olhando para todos os lados com faro de detetive e, logo a seguir, saltar sem que de todo o bonde houvesse parado.
           - Sim.
           - Pois é; achei tão estranho que nem tive coragem de atravessar a rua.
           - Por que não atravessou?
           - Estava esquisito demais... Não é que seu pai repetiu a mesma operação uma vez, duas e, não sei quantas mais, pois em dado momento, atravessei rapidinho a rua, sem que ele desse por mim. Só o vi novamente quando, há poucos minutos, entrou alertando para a queda deste “bendito” lustre.
           Tania não conteve um riso aliviado.
           - Não é nada disso que você está pensando.
           - Então...
           - É que papai tem um contrato para exibir publicidade nos bondes. Como não confia muito na agência, ele confere pessoalmente se os “reclames” estão sendo exibidos.
           - Ufa! Então é isso?
           - É só isso. Ninguém está maluco...
           - Felizmente! Já imaginou ter um sogro “matusquela”?!!!...
           - Pára!
           Passaram-se os anos, décadas mesmo...   
           Um dia a casa da Rua Morais e Silva teve que ser vendida, certamente com as avarias normais decorrentes do uso.
           Uma coisa tenho certeza, estava íntegra fornecendo luz da melhor qualidade: o lustre da varanda.

           - Extraido do livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001.



 


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