Já estamos indo para o quarto mês do novo século.
Tirando as águas de março que insiste em não vir, a mesmice do século que passou começa a invadir o dia-a-dia das pessoas.
Enfim, a realidade: nada mudou!
Tratando-se de escândalos, a cada vinte e quatro horas temos mais um e, o que passou vai caindo no esquecimento: a Sudan, os grampos telefônicos, os desembargadores de Brasília, os subornos em contratos de plataformas para Petrobrás, a contaminação do subsolo em Paulínia, os CDs piratas, a ocupação das favelas por traficantes com armamentos cada vez mais sofisticados....
Nesta mesma época do ano, em 1959, inaugurava-se a Ponte Aérea Rio - São Paulo, o General Lott era lançado candidato à presidente, e o filme Orfeu Negro recebia a Palma de Ouro em Cannes.
Orfeu foi um filme produzido pelo francês Marcel Camus, todo rodado no Rio de Janeiro, tendo como locação principal o Morro da Babilônia, em Copacabana. Falado em português, com artistas brasileiros, utilizaria como trilha sonora a mesma que Vinícius de Moraes e Tom Jobim haviam composto para o espetáculo teatral.
Apesar disso tudo, o prêmio foi para a França.
Colonialismo cultural!
Com ou sem colonialismo, minha vida ia sendo levada em compasso de espera. Tudo meio provisório, e na minha cabeça um monte de incertezas.
Enfim, deveria ir levando da melhor maneira possível até o fim do ano quando tudo iria se repetir: noites mal dormidas, a corrida aos papéis para nova inscrição no vestibular, enfim a expectativa cruel até o resultado final.
No trabalho, as coisas iam indo bem.
Guido dava-me imensas plantas com os detalhes da armação das ferragens da estrutura a construir. Como uma cachoeira sem controle, despejava um monte de instruções; eu que me virasse para assimilar tudo.
Sem outra saída, estudava as plantas espalhadas nas rústicas mesas do abafado escritório da obra, um barraco feito com tábuas de pinho de terceira. Quando me sentia seguro, partia para a laje em fase de montagem para conferir o que tinha sido feito e dar o parecer final, antes da concretagem.
Um pequeno detalhe: quando comecei a trabalhar a obra já ia adiantada, lá pelo quinto ou sexto piso. Não me fazia bem as alturas, pelo menos até então. Aí o problema...
Para chegar à laje onde se desenvolviam os trabalhos tinha que passar por frágil andaime colocado sob o poço dos elevadores. Na primeira vez caí na asneira de olhar para baixo e a vertigem quase me leva para o “beleléu”. Foi humilhante o riso de desdém dos operários.
Um vexame!...
Solução: toda vez que tinha verificação de ferragem, chegava à obra bem antes das sete e subia pelo bendito andaime, agarrando-me sem pudor em tudo que pudesse me dar segurança. Chegava à laje, fazia meu serviço e ficava de lá para cá numa faina sem nexo até o “prego” das onze.
Após o último operário descer para o almoço, repetia toda a operação de agarra-agarra. O vexame era só meu, sem a audiência sempre maliciosa da peãozada.
Na obra seguinte, os escritórios da Companhia Souza Cruz na Praça Pio X, no centro, subi junto com a obra e o medo foi paulatinamente indo embora...
Agora já mais confiante, recebi nova missão.
O andamento dos serviços agora era frenético, coisa de uma laje por semana, e vertiginosamente o ia tomando formas o belo edifício comercial. Tudo devia ser controlado para que o cronograma dos serviços fosse respeitado. Coube-me montar todo esquema de apropriação dos serviços.
Evidentemente, Guido deu-me as primeiras instruções, a velha e desenfreada “cachoeira”, e depois “vire-se”.
Na verdade, sentia-me valorizado, pois “meu chefe” dava muita importância ao serviço que eu fazia, mostrava-o seguidamente ao mestre e encarregados cobrando novas medidas e até levava-me às reuniões com os engenheiros das diversas obras da empresa, mostrando o meu trabalho.
Um fato interessante surgiu em determinada laje que levou mais meio dia, ou coisa parecida, para ser executada. Tudo foi verificado: ocorrência de chuva falta de material, ausência de trabalhadores, etc. Tudo estava correto.
O que teria acontecido então?
Eu tinha a resposta. Naquela época nada atrapalhava a visão que tínhamos da Praça Pio X, e por conseqüência, da parte fronteira da Igreja da Candelária.
Pois bem, na sexta-feira, em plena fase de montagem das formas e ferragens, acontecia ali, à vista de todos, um fato inusitado para a praça normalmente colocada a sossego.
Era o dia do casamento de Marta Rocha, Miss Brasil e quase Miss Universo, não fossem as tais duas polegadas para mais, ou para menos, não lembro.
Foi um alvoroço só durante todo o dia e não houve jeito de conter a excitação dos operários que a todo o momento deixavam-se envolver pelo desusado movimento da praça engalanada. Resultado: a miss perdeu o cetro, e a obra a produtividade.
Só muito tempo depois, vim, a saber, que meu salário, a maior parte do tempo, saiu do bolso do meu irmão. Coisa de não esquecer...
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