Estamos em 1960.
Nem de longe poderíamos imaginar que estávamos entrando numa década, como havia sido a de 30, transformadora do Século XX.
Década de 60: pílula anticoncepcional, primeiro vôo tripulado ao redor da terra, a guerra fria, o muro de Berlim, o bloqueio naval de Cuba, o Concílio Vaticano II, o pacifismo de Luther King, a inauguração de Brasília, o assassinato de Kennedy, a intervenção americana no Vietnã, a deposição de Kruschov, a revolução de 64 no Brasil, a Revolução Cultural Proletária de Mão Tse-Tung, a minissaia de Mary Quant, a Guerra dos Seis Dias, os Beatles, os transplantes de coração, a revolta estudantil de Paris, a “Primavera de Praga”, a conquistada lua...
Mas ainda estamos em 1960.
Nos Estados Unidos um tal de John Fitzgerald Kennedy era escolhido como candidato à Presidência. No Brasil os comentaristas internacionais afirmavam categóricos: “sendo católico, não terá chances de vencer, pois o país é de maioria protestante...”.
Enquanto isso, durante a visita do presidente americano Eisenhower ao Brasil, um DC-6 da marinha americana, chocou-se em pleno ar, na altura do Forte de São João, na Urca, com um DC-3 da empresa aérea brasileira Real que vinha de Vitória.
Morreram 66 pessoas.
Salvaram-se apenas três americanos da Banda de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos que vinham alegrar a visita oficial. Os presidentes Eisenhover e Juscelino visitaram os três sobreviventes no Hospital Miguel Couto.
Mas no dia 8 de janeiro, nasce minha primeira sobrinha, Vera Lúcia, filha de Maria Helena e Guido.
Sou titio...
Depois de tantos anos, uma menininha na família.
Fui à Casa de Saúde Santa Lúcia, em Botafogo.
Logo, duas agradáveis surpresas: conhecer minha primeira sobrinha, linda-linda, e ser convidado para padrinho de batismo. Eu e Maria Lygia, irmã mais velha da Lelena.
Confesso, a escolha me tocou bastante. Esse Guido!...
No dia 20 de janeiro, aconteceu o batizado na Igreja dos Sagrados Corações.
Há meses vinha curtindo minha fossa e esta nova responsabilidade fez-me muito bem e, compartilhando da alegria geral da família, gozei alguns dias de contentamento.
No entanto a realidade era bem diferente: vestibular e nova “bomba”. Já era demais,,,
Aí, pirei de vez...
Envergonhado com o novo fracasso, perdi por completo a capacidade de reação, e os meses seguintes foram de muita angustia, solidão e desencanto.
Com alguma dificuldade tento lembrar os acontecimentos daqueles dias.
A inauguração de Brasília, a criação do Estado da Guanabara, a eleição de Jânio Quadros para presidente e de Carlos Lacerda para governador da Guanabara, e pasmem, o América tornava-se o primeiro Campeão Carioca ao vencer, na final, o Fluminense de Castilho, Pinheiro, Telê e companhia, por 2 a 1.
Aliás, nesse campeonato de 1960 aconteceu um fato curioso: o Bangu venceria o Vasco por 1 a 0, em Moça Bonita , com um gol de falta convertido pelo jogador Valter. Acontece que o banguense Décio Esteves após autorização para a cobrança do tiro-livre passa correndo sobre a bola, enganando a barreira e o goleiro vascaínos.
Os cruzmaltinos exigem a anulação da partida alegando que tal procedimento não era permitido pela FIFA. Os jornais exploram o assunto ao máximo, mas o resultado foi mantido. Depois, o lance tornou-se lugar-comum.
Outro fato consigo lembrar com nitidez.
O cenário seria a Praça da Bandeira, onde um comício reunindo Jânio Quadros, Milton Campos e Carlos Lacerda, transformou-se de súbito em pancadaria provocada por agitadores profissionais, comandados por pelegos conhecidos.
Ressurgi das cinzas!
Eu, Carlos Alberto e Fadini brigamos “pra valer”. O mais exaltado, por incrível que pareça era o Beco que nos deixou a todos preocupados quando após um tombo ficou com sua integridade física bastante vulnerável.
Ao final, salvaram-se todos; inclusive o comício teve sua continuidade assegurada após a debandada dos arruaceiros contumazes.
- Vamos até lá em casa para lavar a cara, passar um “mercúrio-cromo” nestes machucados, tomar uma água bem gelada, saborear um cafezinho “da fazenda” quente “as pampas”, e fumar um cigarrinho para reanimar – disse Carlos Alberto.
- Boa idéia! – assenti sem pestanejar.
Talvez, quem sabe, veria “minha amada” e sensibilizada por meu ato de heroísmo, se condoesse do “pobre idealista romântico massacrado na luta pela democracia”. Ato contínuo isso iria mexer com seu coração e ela voltaria para mim...
Sonhador idiota!
Tudo em vão. Quando lá chegamos, Tânia já devia estar dormindo há bastante tempo. Certamente sonhando com coisas bem menos prosaicas do que um pobre-esfarrapado, refém de um amor sem guarida.
Dispensei a lavagem de rosto, os curativos e tudo mais.
Cheguei a casa e me joguei na cama sem cara lavada, braços esfolados e com a sede por matar. O que doía mesmo era o maldito “coração” e, para isso, não haveria água gelada, mercúrio-cromo ou cafezinho “da fazenda” que desse jeito.
A “fossa” continuava avassaladora...
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