por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 7 de agosto de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 14 - A TARDE DE MUITO SOL

                      
           A tarde era de muito sol, linda; nem quente, nem fria.
           No ar um não-sei-quê despertava os sentidos para as coisas do amor.
           Fui até à padaria. Paciência, este era meu único recurso.
- Seu Joaquim! Vou usar o telefone!
           - Não demores! – dito friamente com aquele conhecido sotaque lusitano.
           28-51-61
           - Alô!
           - Tania?
           - Oi!
           - Estou com saudades. Queria te ver!
           - Vem sim, o pessoal está aqui na maior folia...
           - O que está acontecendo?
           - Você vai ver quando chegar – sem muita conversa, bateu o telefone logo em seguida.
           Meio ressabiado, desci a Rua José Higino e na Conde de Bonfim tomei o lotação “Grajau-Praça Paris”.  
           Namorar em plena semana! Coisa rara!
           Também não era nenhuma vantagem, pois sendo meio-feriado, não tinha tido trabalho nem aulas no cursinho.
           Morais e Silva, 19.
           Maior aglomerado em frente à casa.
           O que estaria acontecendo?
           Havia de ser coisa boa, pois todos estavam alegres e sorriam sem constrangimento. O mulherio, parentes que moravam pela vizinhança então, nem se fala.
           - Ganharam na loteria? – perguntei ao Carlos Alberto.
           - Qual nada. Foi a Tité que comprou um carro. Acabou de chegar. O Zé Carlos, me primo, foi buscá-lo.
           - Mas que bafafá! Vai ser difícil chegar até o automóvel; esse povo está muito agitado.
           Com  certa dificuldade, consegui ver sua cor: azul. Mais um pouquinho, a marca, DKW e, finalmente, o moderno veículo zero-quilômetro, em todo seu estilo; até a placa registrei DF 11-92-12, assim era.
           Antes de continuar: Tité, era Dona Célia, tia e madrinha do Carlos Alberto e irmã de Dr. Mario, grande companhia da Tania durante toda sua infância e adolescência.
           A tarde-noite passou como uma estrela cadente, tendo como pano de fundo as altas vozes da família Giffoni: Dr. Mario, Dona Nice, Tio Foninho, Tia Tio Álvaro, os primos Zé Carlos, Célia Maria, Rute, Marli, Helio, Dolores, Francisco e mais Vevé, Didi e um batalhão.
           Ausentes: apenas os irmãos, Paulo Cesar, em São Paulo, estudando geologia e Luiz Mario, na Escola Naval.
           - Leal! Olha o reloginho!
           - Já sei Dona Nice. São dez horas.
           - Já vai?
           - Tchau, Tania! Ate Sábado, se “Deus quiser”!
           Andei toda a Rua  Ibituruna, olhos no chão. Passaram vários lotações. Ignorei-os.
           Fui a pé, bem devagar até minha casa.
           Não era bem essa, a tarde que esperava!
           Não era! Não era! 

           - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2001.



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