por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

'CHEIROS DA VIDA" - 23 - “COM JORDÃO, NÃO DÁ PÉ...”

                       
           A notícia, já era mais ou menos esperada. Há dias os jornais vinham publicando que agravara o estado de saúde do criador da folha-seca, o mestre Didi.
           12 de maio de 2001 morre Waldir Pereira no Hospital Pedro Ernesto, em Vila Isabel.
           Luto para o futebol mundial.
           Em 16 de junho de 1949, jogando pela seleção carioca, Didi faria o primeiro gol da longa história do Estádio do Maracanã, num jogo em que os cariocas acabariam derrotados pela seleção de São Paulo por 3 a 1.
           Em 1956 é contratado pelo meu Botafogo que passa a formar o maior time de sua história, onde além dele, brilhavam Nilton Santos, Garrincha, Zagalo, Quarentinha, Amarildo e muita gente boa mais. Valor da transferência: dois milhões de cruzeiros, uma fábula para a época. Daí, campeão em 57 e bicampeão em 61 e 62.
           Apelidado por Nelson Rodrigues de “Príncipe Etíope” é dele, Didi, uma das famosas frases do folclore do futebol brasileiro: “treino é treino, jogo é jogo”.
           Sua “folha-seca” foi criada num momento crucial para o futebol brasileiro que sofria dificuldades imensas para se classificar para o Mundial de 58. Num Maracanã lotado e perplexo diante do placar de zero a zero que tiraria o Brasil da Copa, o gol de Didi, em cobrança de falta, passou à história devido à trajetória incomum do chute inapelável.
           Apesar do sufoco, o Brasil foi à Suécia.
           Ainda na Copa de 58, outro momento antológico do mestre Didi. Esta cena vez por outra a televisão mostra, testemunhando a sua personalidade peculiar.
           Grande final. A Suécia faz 1 a 0. Todos os fantasmas de 50 descem sobre 62 milhões de brasileiros.
           Calmamente o “mestre” caminha até a baliza de Gilmar, levanta a rede para liberar a bola com o bico da chuteira ao mesmo tempo fazendo-a aninhar em seus braços.
           Caminha sem pressa até o centro do campo com o “couro” apertado ao coração, espelhando otimismo.
           - “Gente, esses gringos não são de nada. Cansei de ganhar deles jogando pelo Botafogo”.
           A virada começou ali. Brasil 5 a 2 e finalmente, Campeão Mundial de Futebol.
           Sem ele, nada de bi, tri, tetra...
           Tempo da “SELEFOGO”, que me levava ao Maracanã com, ou sem “fossa”.
           Apesar do timão do Botafogo, os “deuses do futebol” faziam-me sofrer contra o Vasco, mas, em compensação, davam-me alegrias memoráveis contra o Flamengo.
           Naqueles tempos mais civilizados, cheguei ao Maracanã, sozinho, e pelo radinho de pilha escutei o apito do juiz dando início ao espetáculo. Aventurei-me na primeira entrada, e com alguma dificuldade consegui sentar entre flamenguistas. Afinal aquela era a área democrática do “meião-do-campo” e do “sol-na-cara”.
           Ao meu lado um “negão” forte como um touro, não deixava dúvidas quanto às suas opiniões.
           - Esse “Jordão” – assim ele chamava o lateral esquerdo Jordan – é o único, no mundo, que consegue marcar Garrincha... Olha só! Olha só! Já tirou a bola dele outra vez. Você sabe de uma coisa, Garrincha é um palhaço. Ginga, ginga e o Jordão sai com a bola dominada. Como é “bão” de ver...
           Eu, quieto.
           - “Virge Maria”, o “home” ta acabando com o Garincha.  Jordão!
           O primeiro tempo terminou zero a zero.
           Enquanto sorvia um “chica-bom”, mão espalmada protegendo os olhos procurei em vão um espaço que abrigasse minha fuga do “negão” pouco oportuno.
           Segundo tempo, e tudo igual.
           - Garrincha! Vai “pra” Pau-Grande! Com Jordão, não dá pé!!!
           O jogo já estava no finalzinho.
           - Você “ta” vendo, “nosso” Jordão é demais! Não “dá pedal” pro Garrincha. Jordão!!!
           Aquele “nosso” Jordão, dito com tanta certeza deixou-me preocupado e pensei: o “cara” está pensando que sou rubro-negro. Preciso tomar cuidado, pois o “bicho” é muito forte e poderá se zangar se eu disser alguma besteira, conforme a convicção dele é claro...
           O jogo cada vez mais perto do fim.
           Didi lança para Garrincha pela enésima vez.
            A definitiva.
             Balançou o corpo uma, duas vezes, deixou o Jordão sentado no gramado, esperou a saída do Garcia e tocou de leve para a rede.
           - GOOOOOL! GOOOOOL!... – eu gritava e pulava, cheio de felicidade. 
 Aí, lembrei-me do “negão”.
Senti um friozinho correr na espinha e sentei-me de imediato.
Na verdade, pavor!!!
Olhei para um lado, para o outro...
O “negão” havia sumido.
Graças a Deus...

- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo aolongo do primeiro ano do Século Vinte e Um




EXTRA - POEMAS DE MINHA NETA GABRIELA - BRUTA-FLOR

quarta-feira, outubro 20, 2010


Bruta flor

Querer, eu quero
E quero em quantidade.
Quero agora
Quero e quero
Sem questionar,
Quero-te
Quero-me em ti
Quero-te quase inteiro

Mas, não inteiro
Porque curto
O mistério
E o querer sempre
Mais.

Quanto quero...
Um só tipo de querer
E que querer não
Seja qualificado

Quero querer maltrado,
estrupício. Querer
de bordel e hospício
Querer como quase um
Suplicio.
Suplicar por aquilo
Que não posso mais ter.
E, assim mesmo, quero.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 22 - A AGUA-GELADA E O CAFEZINHO-DA-FAZENDA


           Estamos em 1960.
           Nem de longe poderíamos imaginar que estávamos entrando numa década, como havia sido a de 30, transformadora do Século XX.
           Década de 60: pílula anticoncepcional, primeiro vôo tripulado ao redor da terra, a guerra fria, o muro de Berlim, o bloqueio naval de Cuba, o Concílio Vaticano II, o pacifismo de Luther King, a inauguração de Brasília, o assassinato de Kennedy, a intervenção americana no Vietnã, a deposição de Kruschov, a revolução de 64 no Brasil, a Revolução Cultural Proletária de Mão Tse-Tung, a minissaia de Mary Quant, a Guerra dos Seis Dias, os Beatles, os transplantes de coração, a revolta estudantil de  Paris, a “Primavera de Praga”, a conquistada lua...
           Mas ainda estamos em 1960.
           Nos Estados Unidos um tal de John Fitzgerald Kennedy era escolhido como candidato à Presidência. No Brasil os comentaristas internacionais afirmavam categóricos: “sendo católico, não terá chances de vencer, pois o país é de maioria protestante...”.
           Enquanto isso, durante a visita do presidente americano Eisenhower ao Brasil, um DC-6 da marinha americana, chocou-se em pleno ar, na altura do Forte de São João, na Urca, com um DC-3 da empresa aérea brasileira Real que vinha de Vitória.
           Morreram 66 pessoas.
           Salvaram-se apenas três americanos da Banda de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos que vinham alegrar a visita oficial. Os presidentes Eisenhover e Juscelino visitaram os três sobreviventes no Hospital Miguel Couto.
           Mas no dia 8 de janeiro, nasce minha primeira sobrinha, Vera Lúcia, filha de Maria Helena e Guido.
           Sou titio...
           Depois de tantos anos, uma menininha na família.
           Fui à Casa de Saúde Santa Lúcia, em Botafogo.
           Logo, duas agradáveis surpresas: conhecer minha primeira sobrinha, linda-linda, e ser convidado para padrinho de batismo. Eu e Maria Lygia, irmã mais velha  da Lelena.
           Confesso, a escolha me tocou bastante. Esse Guido!...
           No dia 20 de janeiro, aconteceu o batizado na Igreja dos Sagrados Corações.
           Há meses vinha curtindo minha fossa e esta nova responsabilidade fez-me muito bem e, compartilhando da alegria geral da família, gozei alguns dias de contentamento.
           No entanto a realidade era bem diferente: vestibular e nova “bomba”.  Já era demais,,,
           Aí, pirei de vez...
           Envergonhado com o novo fracasso, perdi por completo a capacidade de reação, e os meses seguintes foram de muita angustia, solidão e desencanto.
           Com alguma dificuldade tento lembrar os acontecimentos daqueles dias.
           A inauguração de Brasília, a criação do Estado da Guanabara, a eleição de Jânio Quadros para presidente e de Carlos Lacerda para  governador da Guanabara, e pasmem, o América tornava-se o primeiro Campeão Carioca ao vencer, na final, o Fluminense de Castilho, Pinheiro, Telê e companhia, por 2 a 1.
           Aliás, nesse campeonato de 1960 aconteceu um fato curioso: o Bangu venceria o Vasco por 1 a 0, em Moça Bonita, com um gol de falta convertido pelo jogador Valter. Acontece que o banguense  Décio Esteves após autorização para a cobrança do tiro-livre passa correndo sobre a bola, enganando a barreira e o goleiro vascaínos.
           Os cruzmaltinos exigem a anulação da partida alegando que tal procedimento não era permitido pela FIFA. Os jornais exploram o assunto ao máximo, mas o resultado foi mantido. Depois, o lance tornou-se lugar-comum.
           Outro fato consigo lembrar com nitidez.
           O cenário seria a Praça da Bandeira, onde um comício reunindo Jânio Quadros, Milton Campos e Carlos Lacerda, transformou-se de súbito em pancadaria provocada por agitadores profissionais, comandados por pelegos conhecidos.
           Ressurgi das cinzas!
           Eu, Carlos Alberto e Fadini brigamos “pra valer”. O mais exaltado, por incrível que pareça era o Beco que nos deixou a todos preocupados quando após um tombo ficou com sua integridade física bastante vulnerável.
           Ao final, salvaram-se todos; inclusive o comício teve sua continuidade assegurada após a debandada dos arruaceiros contumazes.
           - Vamos até lá em casa para lavar a cara, passar um “mercúrio-cromo” nestes machucados, tomar uma água bem gelada, saborear um cafezinho “da fazenda” quente “as pampas”, e fumar um cigarrinho para reanimar – disse Carlos Alberto.
           - Boa idéia! – assenti sem pestanejar.
           Talvez, quem sabe, veria “minha amada” e sensibilizada por meu ato de heroísmo, se condoesse do “pobre idealista romântico massacrado na luta pela democracia”. Ato contínuo isso iria mexer com seu coração e ela voltaria para mim...
           Sonhador idiota!
           Tudo em vão. Quando lá chegamos, Tânia já devia estar dormindo há bastante tempo. Certamente sonhando com coisas bem menos prosaicas do que um pobre-esfarrapado, refém de um amor sem guarida.
           Dispensei a lavagem de rosto, os curativos e tudo mais.
           Cheguei a casa e me joguei na cama sem cara lavada, braços esfolados e com a sede por matar. O que doía mesmo era o maldito “coração” e, para isso, não haveria água gelada, mercúrio-cromo ou cafezinho “da fazenda” que desse jeito.
           A “fossa” continuava avassaladora...

          - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito ao longo do ano de 2001, primeiro ano de Século XXI na calmaria acolhedora de minha casa em Arraial do Cabo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 21 - "LOUNGE"

                                    

          
           Em 1959, “Ecstasy” era apenas o nome de um disco de “Otto Cesana”, grande orquestra com temas suaves. Música ótima para namorar, ler, estudar, trabalhar...
           Com o passar dos anos, tal música tornou-se “lounge” e numa tentativa de depreciá-la foi apelidada, em português, de “música-de-elevador”.
           Na verdade são sons inolvidáveis, que marcaram várias gerações, sem torná-las “surdas”. Havia arte em sua interpretação. Somente instrumentos acústicos eram usados sem ajuda de qualquer efeito eletrônico, exceto aqueles que favoreciam o grande progresso na fidelidade das gravações.
           Na mesma categoria estariam as “bolachas”, em doze polegadas, naturalmente, de Carmen Cavallaro, Jean Pacques ( et sa musique douce), Billy Vaughn, Nelson Riddle ( arranjador preferido de Sinatra), Mantovani, André Kostelanetz, Percy Faith, e tantos outros.
           Hoje, “Ecstasy” é sinônimo de pavor atraentemente escondido
nas entranhas da fórmula MDMA (N-metil-3, 4-metilenodioxianfetamina). É a “pílula do amor” ou simplesmente “E”, droga popularizada entre os jovens da classe média, comercializada não pelo típico traficante da favela, mas por moças e rapazes de boa aparência, também usuários.
           Ao contrário das demais drogas, o ecstasy não precisa de plantação, colheita e processamento. É uma droga sintética que pode matar principalmente em decorrência da elevação da temperatura corporal acima dos 41 graus e pela destruição das proteínas do sangue.
           Prefiro o “Ecstasy” do Otto Cesana.
           Ao som de suas criações, curti “adoidado” minhas dores-de-cotovelo...
           Além da música, o cinema completava minha fuga.       Compulsivamente assistia todos os lançamentos.   
           Sorte minha, a época era das melhores e os exibidores ainda não haviam capitulado ao domínio de Hollywood. Filmes italianos e franceses figuravam entre os meus preferidos, apesar de serem comuns filmes ingleses, alemães, espanhóis; terríveis filmes mexicanos da Pelmex contrastando com a sofisticação intelectual do cinema sueco de Bergaman.
           Sem distinguir nacionalidades, alguns filmes marcaram aqueles dias: As Noites de Cabíria, Ladrões de Bicicleta, Bem-Hur, Eu Chorarei Amanhã, Sindicato de Ladrões, Marty, A Rosa Tatuada, Na Estrada da Vida, A Ponte do Rio Kwai, Meu Tio, Vidas Amargas, Mr. Roberts, A Um Passo da Eternidade, Inferno 17, As Férias do Senhor Hulot, Os Brutos também Amam, Quanto Mais Quente Melhor, La Dolce Vita, Morangos Silvestres, Hiroshima mon amour, Se Meu Apartamento Falasse, Férias de Amor, Brinquedo Proibido, Tarde Demais Para Esquecer, Cantando na Chuva, Quinteto da Morte...
           Estes e muitos outros, são filmes que ainda hoje assisto na televisão com muito gosto.
           Mil novecentos e sessenta passou... Lento, sofrido, muitas vezes amargo, com lampejos de entusiasmo de pouca serventia para levantar definitivamente meu ânimo.
           Com o dinheiro de minha apólice, comprei um gravador de rolo, marca “Fujya”, uma raridade para a época. Com ele gravei muita coisa, inclusive as primeiras falas de minha afilhada Verinha.
           Uma máquina de escrever profissional da marca “Remington” com carro super-grande e um mimeógrafo sueco “Ruf”, última palavra em “duplicadores”, assim eram chamadas essas maquinetas, coisa medieval comparadas às máquinas xerox e coisa e tal, seriam os equipamentos que comporiam minha pequena gráfica, com a qual pretendia ficar rico.
           Carlos Alberto, meu sócio na empreitada, entrou com um pequeno espaço cedido por Dr. Mário no Laboratório onde montamos nosso “escritório” e o carro da Tité, sempre a postos para transportar pesadas resmas de papel ou fazer a entrega dos serviços contratados.
           Certa ocasião, quando nossa sociedade não ia lá bem-das-pernas, conseguimos um serviço “salvador”. Um antigo contemporâneo do São José, Plínio Senra, convocou-nos para um serviço, para nós, milionário.
           Sendo um dos donos da FBR- Fábrica Brasileira de Rolamentos, instalada em São Cristóvão, estava no comando de uma completa reformulação das linhas de montagem de sua fábrica.
           Para tanto, os formulários de uso contínuo e farto nas oficinas estavam em testes, e a cada dia modificavam-se.  Contava conosco para a cada fim de tarde recolher os novos modelos que deveriam estar aptos ao manuseio dos funcionários na manhã seguinte.
           E lá vinham 500 cópias deste, mais 1000 daquele e assim por diante. Tudo sempre para o dia seguinte. Trabalhamos feito “mouros”.
           Certa noite o espaço que dispúnhamos para desenvolver nossos trabalhos tornou-se insuficiente:
           - Não tem jeito, disse Carlos Alberto, termos que usar a “sala imunológica”.
           - Mas seu pai proibiu-nos taxativamente de usar aquela sala, usada apenas para fabricação de ampolas. Toda desinfetada, só ELE entra lá e, assim mesmo, protegido com sapatos, avental e touca especiais.
           - E daí!...
           - Como faremos uma coisa dessas? Vai dar o maior “galho”!
           - Não temos que entregar o trabalho amanhã cedo?
           - Claro que temos...
           - Então esquece, e seja o que “Deus-quizer”!
           Dava pena ver aquela sala pura como a mais casta das donzelas, azulejos brilhando de tão limpos, ser cruelmente violentada por largas manchas de tinta negra, papeis emprestáveis por toda parte.
           Cometemos um verdadeiro sacrilégio ao templo imaculado da assepsia.
           Madrugada já findando, encerramos os trabalhos sem não antes darmos uma faxina na sala. Até que não estava mal, mas evidentemente Dr. Mário iria reparar e de certo perderíamos nosso escritório.
           A emenda foi pior que o soneto. O Mário não gostou nem um pouquinho de termos usado sua sala inviolável...
           Mas o que o deixou quase apoplético, foi quando na manhã seguinte ao entrar no laboratório deparou-se, no lugar de honra da entrada, com o busto de bronze de seu pai, farmacêutico Dr. Francisco Giffoni, encimado de um estranho chapéu...
           Um velho balde, enferrujado e sujo, que Carlos Alberto inadvertidamente esquecera quando ali o pousou para facilitar a procura das chaves da porta ofuscada pelos primeiros raios da alvorada.
           Apesar de tudo, e agradecidos à bondade de Dr. Mário, não perdemos nosso escritório.

           - Trecho e meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001

domingo, 19 de agosto de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 20 - ESTOU RICO!!! QUASE...

                            

           2001 tem sido um ano pródigo em fraudes. Com a palavra os senadores Antonio Carlos Magalhães, José Roberto Arruda, Jader Barbalho e companhia... Na verdade pessoas que deveriam estar livres de qualquer suspeita.
           Acima de qualquer suspeita também deveria estar o diretor da Kosmos Capitalização, que cheio de rapapés me recebeu em seu gabinete naquele 31 de outubro de 1959.
           - Herbert, a seu dispor.
           - Boa tarde, eu vim receber o valor de sorteio de minha apólice.
           - Pois não! Aqui está seu cheque, evidentemente com o imposto de renda já deduzido.
           Imposto de renda? Mais uma que não sabia.
           Pior que o Mário, e baseado em minha inexperiência, a lábia do tal de Herbert era fulminante.
           - Você é muito jovem e ganhou um bom dinheiro. Agora é hora de investir.
           - Mas...    
           - Vamos fazer o seguinte: você compra mais duas apólices, por exemplo, duas apólices de 50 mil...
           - Meus planos são outros – disse, timidamente, tentando escapar da conversa.
           - Não senhor, com este dinheiro você pode pagar, por exemplo, seis meses adiantados e, sendo assim, posso dar um bom desconto.
           - Acho melhor... 
           - Para facilitar, mando descontar este cheque e você leva a diferença e um recibo provisório do recebimento das seis mensalidades de cada uma das apólices. Estas apólices você as receberá em casa, no máximo em duas semanas já com as seis parcelas já devidamente quitadas. Participarão dos futuros sorteios imediatamente...
- Gostaria de mais alguns esclarecimentos... Acho que não é um bom negócio..           
             - Mas está tudo muito claro. Você verá que é muito bom trabalhar conosco. Faremos ainda bons negócios. Você vai ver!                                            
           Envolto pelo ambiente luxuoso, mas austero, que denotava certa confiabilidade, não insisti mais.
           Tomei um delicioso cafezinho, enquanto esperava as providências acertadas por meu interlocutor.
           Foi tudo muito rápido...
           De repente me vi na rua. Fui direto ao banco Nacional depositar toda aquela dinheirama: um pouquinho mais do que 21 mil Cruzeiros.
           Quase quatro mil cruzeiros tinham custado o imposto de renda e aquela brincadeira marota..
           Os dias passaram, e nada de receber as apólices.
           Uma tarde, talvez um mês depois, vesti meu terninho e rumei para a Rua do Carmo.
           - Dr. Herbert não trabalha mais conosco. Na verdade descobrimos certos acertos escusos feitos por ele que está sendo processado. Caso o senhor queira, poderá participar desta ação. Vamos assinar os papéis?
           A sala era a mesma, a mesa, os quadros, as poltronas. Só o interlocutor era outro. Talvez mais velho e mais sisudo.
           Achei melhor não. Assumi meu prejuízo...
           Aprendi minha primeira lição: os “golpes” foram criados para serem aplicados. Nos “trouxas”, naturalmente..
           2001 tem sido um ano pródigo em fraudes. Para mim, 1959, também.

           - Trecho do livro "Cheiros da Vida" escrito  ao longo dos ano de 2001 em Arrail do Cabo por ocasião  da vivência dos nove primeiros anos de minha tranquila aposentadoria... Era feliz e não sabia!!! 



quinta-feira, 16 de agosto de 2012

"CHEIROS DA VIDA" -19 - AZAR NO AMOR...


           Sempre tinha dinheiro no bolso. Mesada, mais o que ganhava na Severo e ainda o pinga-pinga das aulas particulares que nunca faltavam, tornavam-me um “abonado”.
           Logo, apesar de longe da verdade, criou-se o mito.
           Em decorrência, era comum salvar algum amigo “a perigo” e, evidentemente, sofrer alguns calotes. Mas, justiça seja feita, eram raros os maus pagadores.
           Entre todos meus “clientes”, um deixou lembrança indelével.
           Era um colega do Guido dos tempos do São José que, com o passar dos tempos, tornou-se um freguês assíduo. Pior que o “cara” era notívago inveterado, sempre vindo solicitar algum numerário madrugada passada do meio.
           Para não incomodar ninguém, só a mim, é claro, assobiava uma melodia repetitiva, mãos em concha, na direção à janela do meu quarto.
           De pronto, punha-me alerta.
           Sonolento e praguejando baixinho, descia o mais silenciosamente possível os degraus da escada, carteira na mão; abria a porta e sem rodeios perguntava:
           - Quanto é?
           - Pode ser trinta?         
           - Trinta não. Vinte.
           - Tá bom, tá bom...
           - E aí?
           - Te pago dia 15.
           - Legal!
           - Boa-noite!
           - Hum...
           Dia 15 passava e, nada.
           Dia 25, pagava.
           Dia 30 pedia quarenta. Levava 30. Íamos vivendo...
           Certo dia, o “bicho” apareceu mais cedo. Desconfiei!
           - Você já ouviu falar em títulos de capitalização?
           - Não tenho a menor idéia do que se trata – respondi mais do que desconfiado. 
           A explicação consumiu uns bons dez minutos.
           - E daí, perguntei.
           - Daí que eu estou vendendo estes títulos e reservei um de 25 mil cruzeiros para você...
           - Vinte o quê?
           - Vinte e cinco mil cruzeiros!
           - Mário, você endoidou de vez. Eu aqui sofrendo uma terrível “dor de cotovelo”, e vem você com essa novidade?
           - Eu sei, mas é um bom negócio. Você escolhe uma combinação de letras, como esta aqui: FLY. Paga todo mês 25 cruzeiros até completar os 25 mil. A cada mês oito combinações são sorteadas. Se tiver sorte você recebe, na mão, 25 mil cruzeiros; senão, no final do prazo de capitalização o dinheiro é devolvido com um juro mensal de 0,02% ao mês. 
           - Grande negócio!
           - Compra um título. Todo mundo está fazendo. Com isso você poupa todo mês. Coisa moderna.        
           O sujeito dava para a coisa, ou então, eu que era muito trouxa. Enfim, comprei a bendita apólice.
           - Agora você me paga 25 cruzeiros, taxa inicial.
           - Pagando isso, já estou concorrendo?
           - Não, isso é a taxa inicial; daqui a uns dez dias vem o cobrador receber a primeira mensalidade e aporá o selo respectivo na sua apólice.
           - Então, nada feito! Mais 25 cruzeiros já é demais!
           Começou toda a lengalenga novamente.
           Vencido pelo cansaço e pela lábia do vendedor, comprei o título.
           - FLY, esta é a combinação milionária – disse o velhaco. Meu amigo vai “voar” de felicidade...
           - Pois, sim!
           Uma semana depois, apareceu o cobrador. Gastei mais vinte e cinco cruzeiros.
           Nem bem tinham passados dez dias, quem estava de volta à minha porta? O cobrador.
           - Outra vez? Veio buscar mais dinheiro?
           - Calma moço. O senhor foi sorteado. Vim avisá-lo para ir à Kosmos Capitalização, à Rua do Carmo, munido de sua apólice para receber 25 mil cruzeiros.
           Bem que me haviam dito, “azar no amor, sorte no jogo”.

           - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida"

sábado, 11 de agosto de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 18 - O APAGÃO

                                               
           O Governo já dera um sinal de grande incompetência, quando entre janeiro e março de 2001 deixara recrudescer a crise da dengue, sendo que em São Paulo o número de casos foi maior que a média dos últimos 10 anos. A febre amarela também ameaçou voltar.
           Mas o pior estaria por vir.
           No final de abril, por total falta de planejamento e desrespeito à coisa pública, o Presidente Fernando Henrique descobriu o que todo brasileiro já sabia: o país estava à beira de um colapso energético.
           Por ironia, em fevereiro de 1991 o então senador Fernando Henrique fez aprovar no senado um projeto de política energética, cujo parecer final, por ele assinado enfatizava: “ ... não elimina as necessidades de investimento em expansão, para atender à demanda futura, o que é óbvio.”. Este projeto dormita nos escaninhos da Câmara dos Deputados há oito anos...
           Apesar das privatizações e das tarifas terem subido nos últimos cinco anos 99,7% contra 48,1% de inflação, chegamos, literalmente, ao fundo do poço.
           Na verdade o governo optou por cortes sucessivos nos orçamentos das estatais responsáveis pela geração e transmissão de energia, para cumprir metas impostas pelo Fundo Monetário Internacional.
           Em vista disso, o ministro Malan vetou um projeto de um bilhão de reais para construir uma linha de transmissão ligando a região Norte ao Sul do país. Caso esta linha estivesse em funcionamento, pouparia ao país, os 3 bilhões de dólares, valor que o governo estima perder com a redução da receita de impostos em face da crise.
           O festival de barbeiragem chegou a tal ponto que o racionamento foi decretado até 2002, provocando uma freada na economia e desemprego geral, atingindo em cheio a popularidade de FHC.
           Era o “apagão”!
           Foi o que aconteceu comigo naquele ano de 1959 já passado do meio. De repente, o mundo desmoronou...
           Tive meu “apagão” particular.
           Sem mais, nem menos, Tania comunicou que nosso namoro devia terminar.
           Fiquei zonzo...
           Os argumentos... Para que servem os argumentos numa hora dessas?
           - Esse negócio de namoro sério, sufoca a gente. Estou muito nova, preciso sair com mais liberdade, ir às festas, conhecer mais pessoas, viver...
           - Quer dizer que perto de mim você não vive?
           - Não é bem assim...
           - É bem assim, sim senhora. Pois quando estou com você isto me basta, seja numa festa, num passeio, ou então quando estamos como agora, aqui na varanda de sua casa. Só nós dois.
           - Não é bem assim...
           Confesso que não ouvi mais seus argumentos. Uma dor muito forte massacrava o coração.
           Afinal, tinha feito muitos planos e lutava por eles como há muito não fazia. O futuro para mim só teria sentido junto dela e de repente o chão desaparecia debaixo dos meus pés.
           Como me despedi, não lembro; apenas no meio da conversa, afirmei:
           - Não vou desistir. Começamos a namorar num dia 20. Pois bem, todo dia 20, às oito horas da noite, telefonarei para você. Pelo menos nesse dia você irá lembrar de mim. Um dia quem sabe...
           Veio lá do fundo da alma, e não pude resistir ao desabafo e, profetizei:              
           - Você vai ser minha mulher! Quanto a isso, não tenho dúvidas!
            Só mesmo um cara muito apaixonado faria isso.
           Meu lado racional alertava: ridículo!
           Dúvidas? As tinha a mancheias...

           - Excerto de meu livro "Cheiros da Vida" escrito ao longo do ano de 2001 em Arraial do Cabo. 





quinta-feira, 9 de agosto de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 17 - MERGULHO DE CABEÇA

                               
           - Leal, Tité está nos convidando para assistir um concerto no Municipal, quarta-feira.
           - Quarta, à noite? Vai ser uma correria...
           - E de terno!
           - Claro Tania! Guido tem uma assinatura da Orquestra Sinfônica Brasileira. Vez por outra ele não pode ir a um concerto. Então, boto meu terninho e lá vou eu...
           Era assim e ainda seria por muito tempo: concerto no Municipal, só com traje “passeio completo”.
           Foi gostoso ir ao teatro com a minha namorada. A primeira vez.
           Desagradável, foi a volta.
           Nas ruas precariamente iluminadas do Rio de então, assolado que fora por várias crises de energia elétrica, Tité procurava levar em segurança seu DKW evidentemente sem contar com a colaboração dos ônibus e lotações
           Loucas ultrapassagens, fechadas, freadas inoportunas. A viagem parecia interminável.
           Finalmente, chegamos...
           - Leal, vamos entrar para um chazinho?
           - Obrigado, Dona Célia, mas amanhã devo estar antes das sete na obra. Fica para a próxima! – espero que na próxima, tomemos um taxi ou coisa parecida, pensei comigo mesmo...
            - Tchau, Tania!
            - Tchau, Leal!
          Caminhava lentamente, ainda ouvindo os acordes do solo de piano e as passagens marcantes da sinfonia majestosa. Nas mãos, na manga do casaco de tropical marinho, até no rosto, ainda sentia o doce aroma do perfume de minha amada.
           Mergulho de cabeça!
           Isto tinha acontecido comigo, mergulhara fundo naquele amor que crescia dia após dia.
           Coisa sem controle...

           - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida".




quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 16 - A MISS BRASIL

                                  
           Já estamos indo para o quarto mês do novo século.
           Tirando as águas de março que insiste em não vir, a mesmice do século que passou começa a invadir o dia-a-dia das pessoas.
           Enfim, a realidade: nada mudou!
           Tratando-se de escândalos, a cada vinte e quatro horas temos mais um e, o que passou vai caindo no esquecimento: a Sudan, os grampos telefônicos, os desembargadores de Brasília, os subornos em contratos de plataformas para Petrobrás, a contaminação do subsolo em Paulínia, os CDs piratas, a ocupação das favelas por traficantes com armamentos cada vez mais sofisticados....          
           Nesta mesma época do ano, em 1959, inaugurava-se a Ponte Aérea Rio - São Paulo, o General Lott era lançado candidato à presidente, e o filme Orfeu Negro recebia a Palma de Ouro em Cannes.
           Orfeu foi um filme produzido pelo francês Marcel Camus, todo rodado no Rio de Janeiro, tendo como locação principal o Morro da Babilônia, em Copacabana. Falado em português, com artistas brasileiros, utilizaria como trilha sonora a mesma que Vinícius de Moraes e Tom Jobim haviam composto para o espetáculo teatral.
           Apesar disso tudo, o prêmio foi para a França.
           Colonialismo cultural!
           Com ou sem colonialismo, minha vida ia sendo levada em compasso de espera. Tudo meio provisório, e na minha cabeça um monte de incertezas. 
           Enfim, deveria ir levando da melhor maneira possível até o fim do ano quando tudo iria se repetir: noites mal dormidas, a corrida aos papéis para nova inscrição no vestibular, enfim a expectativa cruel até o resultado final.
           No trabalho, as coisas iam indo bem.
           Guido dava-me imensas plantas com os detalhes da armação das ferragens da estrutura a construir. Como uma cachoeira sem controle, despejava um monte de instruções; eu que me virasse para assimilar tudo.
           Sem outra saída, estudava as plantas espalhadas nas rústicas mesas do abafado escritório da obra, um barraco feito com tábuas de pinho de terceira. Quando me sentia seguro, partia para a laje em fase de montagem para conferir o que tinha sido feito e dar o parecer final, antes da concretagem.
           Um pequeno detalhe: quando comecei a trabalhar a obra já ia adiantada, lá pelo quinto ou sexto piso. Não me fazia bem as alturas, pelo menos até então. Aí o problema...
           Para chegar à laje onde se desenvolviam os trabalhos tinha que passar por frágil andaime colocado sob o poço dos elevadores. Na primeira vez caí na asneira de olhar para baixo e a vertigem quase me leva para o “beleléu”. Foi humilhante o riso de desdém dos operários.
           Um vexame!...
           Solução: toda vez que tinha verificação de ferragem, chegava à obra bem antes das sete e subia pelo bendito andaime, agarrando-me sem pudor em tudo que pudesse me dar segurança. Chegava à laje, fazia meu serviço e ficava de lá para cá numa faina sem nexo até o “prego” das onze.
           Após o último operário descer para o almoço, repetia toda a operação de agarra-agarra. O vexame era só meu, sem a audiência sempre maliciosa da peãozada.
           Na obra seguinte, os escritórios da Companhia Souza Cruz na Praça Pio X, no centro, subi junto com a obra e o medo foi paulatinamente indo embora...
           Agora já mais confiante, recebi nova missão.
           O andamento dos serviços agora era frenético, coisa de uma laje por semana, e vertiginosamente o ia tomando formas o belo edifício comercial. Tudo devia ser controlado para que o cronograma dos serviços fosse respeitado. Coube-me montar todo esquema de apropriação dos serviços.
           Evidentemente, Guido deu-me as primeiras instruções, a velha e desenfreada “cachoeira”, e depois “vire-se”.
           Na verdade, sentia-me valorizado, pois “meu chefe” dava muita importância ao serviço que eu fazia, mostrava-o seguidamente ao mestre e encarregados cobrando novas medidas e até levava-me às reuniões com os engenheiros das diversas obras da empresa, mostrando o meu trabalho.
           Um fato interessante surgiu em determinada laje que levou mais meio dia, ou coisa parecida, para ser executada. Tudo foi verificado: ocorrência de chuva falta de material, ausência de trabalhadores, etc. Tudo estava correto.
           O que teria acontecido então?
           Eu tinha a resposta. Naquela época nada atrapalhava a visão que tínhamos da Praça Pio X, e por conseqüência, da parte fronteira da Igreja da Candelária.
           Pois bem, na sexta-feira, em plena fase de montagem das formas e ferragens, acontecia ali, à vista de todos, um fato inusitado para a praça normalmente colocada a sossego.
           Era o dia do casamento de Marta Rocha, Miss Brasil e quase Miss Universo, não fossem as tais duas polegadas para mais, ou para menos, não lembro.
           Foi um alvoroço só durante todo o dia e não houve jeito de conter a excitação dos operários que a todo o momento deixavam-se envolver pelo desusado movimento da praça engalanada. Resultado: a miss perdeu o cetro, e a obra a produtividade.
           Só muito tempo depois, vim, a saber, que meu salário, a maior parte do tempo, saiu do bolso do meu irmão. Coisa de não esquecer...     
 
           - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2001 - primeiro do novo Milênio.