por José Carlos Coelho Leal
quinta-feira, 23 de abril de 2015
"CHEIROS DA VIDA" - 134 - DIAS DE JAMAIS ESQUECER
Apesar de cercado por meus parentes e amigos rapidamente cheguei ao carro. A porta já estava aberta sustentada pelo impecável Pedro postado qual sentinela à espera da noiva. Trocamos rápidas palavras, o suficiente para reparar que meu "elegante" motorista estava muito atento ao que se passava em volta. Achei estranha sua atitude e, imediatamente lembrei-me do tal "zum, zum, zum...".
Ato contínuo consegui olhar em volta e reparei que todos, após um ligeiro cumprimento, se dirigiam com inusitada pressa para seus carros. Logo em seguida ouviu-se o roncar dos motores um após outro. Não havia mais dúvida, estavam iniciando, certamente, algum trote para nós.
Depois de livrar-se das derradeiras recomendações, abraços e bençãos de Dona Nice, Tania finalmente se aproximou acomodando-se confortavelmente esperando a minha entrada para um beijo delicioso. Pedro pôs o carro em marcha arrastando um sem-número de latas barulhentas e, seguido de um verdadeiro desfile de carros piscando os faróis e buzinando seguidamente, desrespeitando acintosamente a "Lei do Silêncio"; afinal já passava muito da meia-noite e a madrugada de sábado já se fazia presente.
Essa barulheira nos perseguiu ao longo de todo o bairro até a Estrada Velha da Tijuca e, ao diminuir a velocidade para fazer o "balão" de acesso à minha garagem deu para reparar na esquina um cartaz de de certa monta com os dizeres:"Silêncio! - Casal em lua-de-mel no 38".
Enquanto pegávamos nossos pertences e, caminhávamos até o elevador, a "barulheira" continuou" com diversas voltas, daquele séquito inusitado, em torno do pequeno quarteirão que cercava nosso edifício. Provavelmente todos acordaram e, deviam estar indignados com o novo vizinho que já chegava tirando o sono de todos os moradores.
Entramos no apartamento; depois de um beijo demorado na minha mulher, estava louco por um copo d'água, o primeiro que tomaria na "minha casa".
Impossível! A cozinha estava trancada sem a chave na fechadura. Seguramente mais uma molecagem dessa "patota-sem-o-quê-fazer".
Em cima da mesa da sala um pequeno aviso: "Vocês estão ansiosos pela chave do quarto, certo?".
- Acho que esses caras foram longe demais.
- Fica calmo e leia as instruções.
" Sigam as instruções com toda atenção, caso contrário irão passar a noite de núpcias dormindo no sofá e sem direito a um banheiro para um banho saudável, etc. etc.".
- Isso é que é mancada. Comprei o apartamento de meu irmão e nem tive a maldade de trocar o segredo da fechadura. Devem ter aprontado "o diabo" nessa casa...
- Eles não iriam aprontar nada desagradável. Vai com atenção colecionando os papeis em ordem, aconselhou Tania.
"Procurem a chave do quarto debaixo do sofá". Lá encontramos novo bilhete: "Chave da Cozinha. Pensando bem já é alguma coisa. Fome vocês não passarão.".
Tremulamente pequei a chave e abri a porta da cozinha. Tomei de um copo e abri a geladeira e, aí, tive a primeira surpresa agradável. Papai havia cumprido sua palavra e a geladeira estava generosamente abastecida de todas as guloseimas que durariam dias para serem consumidas. Em cima do fogão havia novo bilhete: "A chave dá área está dentro do forno do fogão. Procure e não levarão muito tempo para achá-la". Levamos.
Aberto o acesso à área de serviço, exultei: pelo menos teremos disponível um banheiro de empregada. Ledo engano...
Olhando para cima verifiquei pendurado no varal de secagem de roupas um envelope; "Chave do quarto de empregada".
Novo aviso em cima a cama de empregada: "Cuidado para não se perderem. Até agora vocês estão indo bem. A chave do banheiro está dentro de uma das caixas das coisas pessoais da Tania dentro do armário."
Mais tempo passando mas, achamos a chave na ultima caixa vistoriada".
Outro aviso. "Alvíssaras! Não precisarão fazer xixi pelos cantos; a chave está no fundo desta caixa.". Reviramos tudo e finalmente encontramos a bendita chave.
Abrimos o banheiro e nos servimos dele. Menos mal.
Pendurado na cortina do box estava o recado; "Chave do banheiro social. Que tal procurar em cima do armário da cozinha.". Essa foi fácil de achar.
"Mas como vocês estão com pressa... Afinal têm toda vida para estarem juntos. Voltem para cozinha e, finalmente encontrarão a tão desejada chave. Na cozinha abram a lata de mantimentos que contém o estoque de arroz.
Muito Cuidado!".
Misturado com o alimento estava o derradeiro aviso.
Corremos para a cozinha e não demoramos a achar um aviso escrito em um papel minúsculo. "Fim da jornada. A chave do quarto está no fundo da lata que guarda os cinco quilos de açúcar". O negócio era arregaçar as mangas e achar a bendita chave...".
Foi o que fiz com uma pressa e angustia de estourar o coração. Depois de tirar a camisa enfiei o braço na lata e, até com certa facilidade, achei a bendita chave". Não sei quanto tempo durou essa busca.
Finalmente, ao entrar no quarto um perfume suave nos invadiu e a cama estava preparada como num hotel "cinco-estrelas". Coisa típica de Maria Helena, minha cunhada.
Em fim valeu!!!
Agora que me desculpem meus leitores, a história é privativa. Só posso adiantar que a seguir desfrutei dos dias mais felizes de minha vida e, na segunda-feira, na hora de ir para São Lourenço combinamos de comum-acordo passar mais alguns dias em nosso apartamento, mesmo porque estava chovendo muito e nossa casa estava mais aconchegante como nunca. Alguns dias depois saímos de nosso ninho e fomos para Belo Horizonte e cidades históricas.
Dias de jamais esquecer!!!
sábado, 18 de abril de 2015
"CHEIROS DA VIDA" - 133 - COISA MUITO FINA
Tania e eu havíamos combinado que a Noite de Nupcias seria celebrada em nosso apartamento. Lá também deveríamos passar os primeiros dias de nossa vida em comum. Para nós não havia lugar mais apropriado e significativo. Nossa casa, fruto do nosso amor, nosso esforço e símbolo de uma conquista feita a dois, com o mais sublime dos carinhos. Nesses cinquenta anos de casados que iremos completar em julho, jamais pagamos um centavo sequer de aluguel. Os vários tetos que nos abrigaram ao longo de nossas vidas, sempre foram frutos do nosso trabalho; dedicação, amor e afeto perenes.
Achávamos mesmo que não tinha sentido que tudo acontecesse em um apartamento de hotel, por mais luxuoso que fosse, totalmente anônimo e, que não teria, para nós, o menor valor sentimental. Os "cruzeirinhos" a serem gastos poderiam ficar reservados para mais alguns dias de viagem que havíamos planejado para São Lourenço.
Ainda na recepção, dois fatos inusitados.
Em certo momento a festa parecia esvaziar-se com a ausência de vários convidados, principalmente parentes mais chegados da Tania. Achei intrigante tal descortesia. Rapidamente esclareci o problema.
A TV Tupi estava apresentando, aquela época, os últimos capítulos da novela "O Direito de Nascer". Principalmente as tias e primas da Tania acorreram à casa dos vizinhos, todos da família, para assistir, se ao menos fosse, o final do capítulo daquela noite.
Claro que fiquei muito magoado; Tania, nem tanto pois, sua capacidade de aceitação dos fatos sempre foi muito superior à minha. Acabamos levando na "esportiva" mas, mesmo assim não deixei da fazer uma evidente cara "de poucos amigos" para uma "plêiade" de fujões.
Outro fato, esse comum de acontecer numa festa como aquela, um certo "zum,zum,zum...". Certamente estavam aprontado "algo"para nós. Quanto a isso não liguei e preparei meu espírito para aguentar o que viesse acontecer. Nada poderia diminuir minha alegria e felicidade...
Depois do brinde e do bolo, além das cantorias, palmas abraços e beijos, Tania e eu estávamos muito cançados e, loucos para zarpar para "nossa casa".
Tania pediu licença a todos os convidados e subiu ao seu, agora, antigo quarto de solteira para trocar de roupa. Alguns minutos, muitos afinal, desceu a escada, elegante como sempre, vestindo um redingote na cor rosa-claro. Mais linda do que estava, impossível . Alguém, não lembro quem, desceu em seguida com duas pequenas maletas que levou para o carro à nossa espera. Pedro lá estava pronto para prestar sua derradeira tarefa do dia: nos levar à Estrada Velha da Tijuca, 38 Apto. 304 - a residência do casal Tania e José Carlos.
Coisa muito fina!!!
segunda-feira, 13 de abril de 2015
"CHEIROS DA VIDA" - 132 - A CELEBRAÇÃO DA MISSA NUPCIAL
Voltemos ao cenário montado na Igreja de São Pedro de Alcântara. Com bastante empáfia dizia ao meus amigos que meu casamento fazia parte do calendário das comemorações do IV Centenário de Fundação da Cidade do Rio de Janeiro.
Um fato inusitado, para muitos, aconteceu no transcorrer da cerimônia. Estávamos em pleno desenvolvimento do "Concílio Vaticano II" que se encerraria em dezembro daquele ano de 1965. Algumas modificações na liturgia da Missa já haviam sido adotadas.
Assim, em casos especiais, como numa Missa Nupcial, entre outros, o Bispo podia autorizar que a comunhão dos noivos se fizesse sob as duas espécies, do pão e do vinho. Frei Gabriel tomou as providências necessárias e, Tania e eu comungamos nesta nova modalidade, criando uma expectativa altamente indagativa de praticamente todos os presentes, que se perguntavam baixinho se aquilo era válido.
Para alguns conservadores tal fato representava uma ação inovadora talvez desrespeitosa aos tradicionais "cânones" da Igreja. Tão concentrados estávamos no ato que celebrávamos que, só tomamos conhecimento destas reações já durante a recepção acontecida na casa dos meus sogros, à Rua Morais e Silva, 19.
Foi com emoção renovada e muito respeito que recebemos a Santa Eucaristia que iria dirigir nossos passos nesses quase cinquenta anos de vida comum. A plenitude da presença de Deus em nossas vidas fez-se sentir com vigor, esperança e confiança no porvir que certamente nos presentearia com filhos e netos maravilhosos.
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Tania e Eu recebendo a Eucaristia sob a espécie do vinho. Novidade para a época.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
"CHEIROS DA VIDA" - 131 - OS DERRADEIROS PASSOS ATÉ O GÓLGOTA
Sétima Estação
- Jesus cai pela segunda vez
Como para demonstrar que suas forças não são superiores às de quantos pertencem, como ele ousou pertencer, à espécie humana, sob o peso da cruz, Jesus caiu mais de uma vez. Como para mostrar que a misericórdia não tem limites, por mais uma vez caído, ele mais de uma vez levanta.
Essa capacidade de constantemente levantar-se, de a cada momento recuperar a força perdida, é essa força estranha a nós, mas dentro de nós, chamada fé. Onde termina a força humana, começa a obra da graça. Onde nada mais fica de pé, ela ergue, o seu triunfo sobre a fraqueza humana, e o transfigura, e o dignifica. E o justifica.
Jesus derrotado foi o Jesus triunfante. No seu martírio, a sua glória. Não se compraz no sofrimento, mas o supera. Não se limita a sofrer por sofrer, ele tem a quem oferecer sua mágoas, sua lágrimas, seu suplício.
Não é um Cristo inerme e débil, é um Cristo forte esse generoso Cristo que enfrenta o seu sofrimento e acaba por vencê-lo. É um Cristo vitorioso, esse que a cada queda se engrandece. Não se deixa abater quando cai, antes seu vulto mais cresce no exemplo que nos dá de sua força, feita de uma invencível vontade de chegar até o fim sua missão, de cumpri-la como razão de vida ainda mais do que de morte.
A morte de Cristo é uma porta aberta á sua ressurreição. A sua morte nos aproxima dele, porque somos seus irmãos na eternidade. Mas a sua vida o identifica conosco, como se fosse um de nós.
Só quem cai pode levantar-se. Só os soberbos não caem, por isto nunca se levantam. Só os humildes de coração sabem que, vencidos, são vencedores.
Décima Estação
- Jesus é despojado de suas vestes
Tiraram-lhe manto e o disputaram no jogo. Rasgaram-lhe a túnica e revelaram ao povo o corpo de Deus feito homem. É bem fraco esse corpo que suportou o suplício e a agonia de morte.
Julgavam-se fortes, os que o despiam. Não sabem que os que se julgam mais fortes, e por isso exibem a sua força opressora, são os mais fracos de todos. Precisam exibir o que supõem possuir, para esconderem dos outros o que a si mesmos já não conseguem ocultar.
O medo dos fortes vem da consciência que têm de sua íntima fraqueza.
Jesus martirizado, este. sim. é forte, porque não pertence a ninguém, não depende de nada. Desde que venceu o sofrimento, este começa a não existir. Então a fraqueza se torna força. Os que se julgam fortes, com medo de tudo, com medo de todos, perdem toda grandeza e se tornam mesquinhos diante do irremediável.
Naquela hora, no alto do monte, os soldados que disputam nos dados o manto de Cristo são fracos, precisam distrair-se para não se revoltar, precisam encher-se de ódio para que a compaixão não os domine, nem os paralise o remorso.
Sozinho, fraco, desarmado, desfigurado pela tortura, coroado de espinhos e de injúrias, o Cristo é o mais forte. Os torturadores tiveram muitos descendentes, os fracos que se fingem fortes, os insinceros, os que não ousam encarar a verdade e abraçar-se a ela. Mas ninguém conhece o seu nome. E todos se envergonharão quando souberem quem são, ao saber que foram, naquela tarde, no alto do monte, os que riam e jogavam sobre o manto de Senhor.
Décima Terceira Estação
- Jesus é descido da cruz.
O corpo que gente piedosa retira da cruz é o de um morto. A cena destina-se a dar a todos a certeza de um Deus se fez homem. Não é por acaso que ali está o corpo que vai à sepultura. É para que saibam que ele é carne e osso, e não apenas um espírito etéreo, imaterial. Os que lá estavam, no alto do monte, viram quando ele morreu, e vêem agora quando despregam da cruz o corpo magro, lanhado de chicote e rasgado de lança. Suas mãos, seus pés foram pregados à cruz onde agonizou aquele moço de 33 anos, depois de uma vida dedicada a nos ensinar a viver.
Como da semente disse seu discípulo João, quando a depositam na terra escura, ela primeiro morre para depois renascer como planta que dá flor e fruto. Assim o corpo de Jesus vai para dentro da terra. É um Deus que morreu. Os deuses antigos quando os homens procuravam matar sua fome de absoluto, seu desejo de explicar o sentido da vida e encontrar os caminhos da eternidade, moravam distantes do homem, faziam incursões na terra mas aqui não demoravam. Os deuses antigos separavam os homens porque se separavam dos homens. Eis o Cristo que veio para unir os homens, unindo-se à humanidade. Esse filho de Deus se fez homem para que os homens saibam o que são, reconheçam sua origem e compreendam para onde vão. Por isso há quase 2 mil anos quanto mais negam a sua existência mais ele afirma a sua presença.
Jesus agora morreu, como toda a gente. Um dia tal como Jesus, toda gente ressuscitará.
Aqui se encerra essa série de capítulos.
Há muito tempo não atravesso esses dias da Semana Santa tão profundamente envolvido nos acontecimento da Paixão de Cristo como neste ano de 2015. Por alguns momentos esqueci de todas as sérias crises que vimos passando. Meditei sobre esses acontecimentos de suma importância para toda a humanidade inspirado por um texto escrito por um "político" polêmico, porém um lutador que jamais esmoreceu na pugna por aquilo que sua consciência balizava com justo e certo para seus compatriotas.
Sei que poderei afetar crenças, certezas, ideologias e tudo mais que envolve a pessoa que evocou essa verdadeira oração que seguimos passo a passo. Sou no entanto compelido, por uma questão de justiça, afirmar:
Obrigado Carlos Frederico Werneck de Lacerda!!!
"CHEIROS DA VIDA" - 130 - MARIA, A AUXILIADORA E O MEDO DE AMAR
Quando comecei a postar esses recentes capítulos sabia que haveria reações devido ao personagem central de que tratam os textos.
Alguns telefonemas, e-mails e até conversas informais nos meios onde transito atestam esse fato. Respondo, de imediato, que nada mais natural nesses dias da Semana Santa, para um Cristão, do que tratar das ações de Jesus Cristo no transcorrer dos últimos momentos de sua vida pública.
Alguns não aceitam a minha ponderação e, se referem a Carlos Lacerda, sobretudo aqueles que já passaram dos cinquenta. Até os dias atuais as reações de amor e ódio referidas a Lacerda não cessam apesar de ter saído da história há quase quarenta anos atrás.
Repito: o personagem central é Cristo onde alicerço minha fé. Vamos portanto continuar nossa peregrinação e deixar de lado as ofensas e os elogios. Coisas efêmeras em vista do tema principal.
É importante também esclarecer, mais uma vez, que este feliz encontro com essa verdadeira oração escrita por Carlos Lacerda decorre da consulta ao livro "Carlos Lacerda - Meu Amigo" escrito pelo Doutor Antonio Dias Rebello Filho, médico particular de Lacerda por décadas. Espero que estas postagens não gerem para mim processos referentes a direitos autorais quer em relação ao autor do livro, quanto à família do verdadeiro escritor do que está sendo postado, Lacerda. Para mim essas publicações fazem parte de um tributo ao grande tribuno brasileiro.
Outro detalhe: no livro consultado é dito que Lacerda não terminou sua obra, morto que foi ao longo da elaboração de sua "Via Sacra".
Na realidade são oito o número de estações publicadas. Não sei se o autor por alguma questão pessoal tenha omitida a publicação de alguma outra Estação escrita por Lacerda.
Vamos seguir nossa oração:
Quarta Estação
- Jesus Encontra Sua Mãe
Na confusão da ladeira, Jesus e Maria se avistam. Enquanto o próprio Cristo, feito homem, quase desespera, sua mãe sempre confia. Precisa ajudá-lo na tarefa que se impôs. Por isto lhe traz, sobre a cabeça de curiosos e de aflitos, um olhar de paz e compreensão. Ela é a que não julga. É a que ajuda. A auxiliadora.
É possível que, naquele momento, Maria se lembre de uma noite, há 33 anos passados, quando a viagem se interrompeu, não havia vaga na hospedaria e por isto José levou-a à estrebaria, onde ela deu ao mundo o seu menino.
Então um anjo anunciou alegria para todo o povo porque tinha chegado o Salvador que agora vai morrer para cumprir sua missão.
Em vez da estrela que naquela noite antiga se ascendera, hoje as trevas vão cobrir a terra. No luto do universo brilhará somente uma luz, a das lágrimas de Maria. Seu filho é o cordeiro de Deus que curte os pecados do mundo. Porém ela chora pelo menino que ele foi, pelo homem que ele é.
Na participação está o seu exemplo. Na resignação, sua força. Maria de Nazaré parece fraca; é a mais forte. Parece nada; é tudo. Na hora da morte, Jesus apontando um moço:"Eis ai o teu filho". E ao jovem discípulo dirá: "eis ai a tua mãe". Jesus cumpre a sua missão no mundo. A missão de Maria continua. Adotará os seguidores de seu filho para animá-los, compreender suas angústias, perdoar seu erros. Antes de morrer na cruz o filho pede que ela seja a mãe de todos. E Maria, também, faz a vontade de seu filho.
Quinta Estação
- O Cirineu ajuda a levar a cruz
Chamava-se Simão, era da colônia romana de Cirenéia. Vinha do campo e apenas passava, na ocasião. Entre os que choravam e os que zombavam de Jesus havia muitos como Simão. Em que pensava? Do que cuidava esse homem que vinha do campo e apenas passava, na ocasião?
Só os incidentes e preocupações de sua vida, com certeza, lhe interessavam. Meus filhos, que será deles? Minha lavoura, meu jantar desta noite, minha conta amanhã? Simão era de um tempo habituado à violência e à mera competição. Que mal lhe faria uma cruz a mais no ombro de mais um outro, no fim do dia repleto e no entanto - vazio, no fim das horas trabalhosas - e no entanto vadias?
Mas os soldados da escolta estão com pressa e Jesus não aguenta o peso da cruz, que sozinho assumiu. Os soldados meio que convencem meio que obrigam Simão a ajudar Cristo. É mesmo pressa dos saldados ou oportunidade de Deus? Simão padece daquele mal de tanta gente, o medo que tantos têm de se dar mal se ousarem procurar o bem.
Simão morreria anônimo, sem história nem consequência, se não o tivessem obrigado a se livrar de sua invisível prisão, a romper com a indiferença que o mantém emparedado no meio da multidão. Simão descobre novas coragens, perde esse medo, o mais horrível de todos, chamado medo de amar.
Porque deu de si o que podia, já não foi nunca mais um Simão qualquer... Foi Simão livre de egoismo, Simão limpo de remorso. Para dividir o peso da cruz com ela afinal se abraçou.
Em vez da vida inútil e a morte obscura, Simão chamado o Cireneu naquela tarde de trevas seu futuro iluminou. Pois Rufo e Alexandre, que assim se chamavam seus filhos, pela ajuda de pai se tornaram cristãos.
"CHEIROS DA VIDA" - 129 - TRATA-SE DE UMA MISSÃO
Estou escrevendo essas páginas em plena Semana Santa de 2015. Sinto, como explanei anteriormente, que a chegada às minhas mãos do livro sobre Carlos Lacerda a que venho me reportando não foi obra do acaso.
Encaro tal acontecimento de uma maneira quase mística, como se a mim fosse passada uma missão de tornar mais conhecida essas laudas escritas por um homem primordialmente político, intelectual, argumentador arguto, questionador implacável, critico contumaz, orador envolvente, além de escritor, jornalista, financista, empresário, e não sei quantas coisas mais. Até tradutor e redação de legendas de filmes estrangeiros ele foi quando do exílio.
Tornar mais conhecidas páginas impregnadas de religiosidade, sensíveis e que, querendo ou não, nos toca a sensibilidade de forma arrebatadora nos envolvendo numa aura de paz, fé e profunda reflexão sobre o projeto divino em nossas vidas.
Depois de transcrever ipsis litteris a narrativa da Primeira Estação me senti tentado a resumir as demais para não tornar longo em demasia os capítulos a seguir. Depois de analisar cada texto, ler e reler cheguei a conclusão ser essa missão impossível e, certamente, deselegante com o autor. Vou transcrever cada trecho na integra. Aos leitores fica delegada a responsabilidade excluir a leitura dos capítulos considerados supérfluos.
Segunda Estação
- Jesus com a cruz às costas
Porque a crucificação era o modo mais infamante de morrer, foi escolhida para Jesus Cristo. Naquele tempo o povo falava por símbolos. As histórias eram apólogos, e as lições, parábolas. Por isto cada fato contém uma significação, cada episódio uma alusão, cada personagem um papel, cada história, uma conclusão. Assim é o caso do Cirineu que foi obrigado a ajudar Cristo a suportar o peso da cruz. É o do próprio Jesus que nos ensina a enfrentar a a vida com coragem para salvá-la; a encarar a morte com resignação, para merecê-la.
Não faltaram desafios. "Se és filho de Deus. desce da cruz", zombavam curiosos e incrédulos, amontoados no estreito caminho que se chamou "Via Dolorosa".
Esses também têm descendentes. São os que só acreditam no êxito imediato e na vitória sem esforço. Se fosse para se salvar a si mesmo, por que viria Cristo ao mundo?
Ao suportar, como homem, o peso da cruz, Jesus veio ser um dos nossos, para nos lembrar o que há de divino em cada um de nós. O filho de Deus não foi poupado ao sofrimento antes de voltar para a casa paterna, ao fim da peregrinação no país dos homens. Pois o Pai "não dá o que se pede e sim o de que se precisa".
A sua resignação não é passiva, e atuante. Não é morna, é ardente a paz que nos oferece. O amor que eles nos tem é exigente. Por que não havemos de retribuir, imitando-o? Não chegaremos a ser o que ele foi. Mas o mérito consiste em procurar ser.
Quando tomou nos ombros a cruz, ele tornou mais leve a nossa. Como Cirineu o ajudou, assim Jesus nos ajuda.
Pelo exemplo, ele nos deu um ponto de apoio.
Sejam, pois, nossa cruzes, alavancas com as quais transformaremos o mundo até que, numa primavera de amor, no pesado lenho refloresça a árvore da vida.
Terceira Estação
- Jesus cai pela primeira vez.
Esse que andou sobre as ondas, a caminho dos discípulos, agora se arrasta com sua cruz nas pedras da cidade, ao encontro da morte. O povo que o recebeu com festas hoje se divide entre os que o desprezam porque Ele não se livra do martírio - e os que se comovem não entendem sua lição.
Ele pôde livrar os outros do mal, mas não se livra a si mesmo. Pôde ressuscitar os mortos mas não impede que o matem. Pôde multiplicar o pão mas não estanca o sangue das torturas que sofreu.
É que ele pena pelos oprimidos. Ele sofre pelos inocentes e até pelo arrependimento dos culpados.
Vítima de sua humana fraqueza, sob o peso da cruz ele cai. Quem o levanta é a divina força da fé.
Sempre que a frágil condição humana nos derruba, possa nos erguer o que de divino existe em nossa natureza. Essa força que ninguém pode destruir dentro de nós, senão nós mesmos, é a mesma que levanta Jesus das pedras de Jerusalém. É semente da fé, que Deus plantou em nós.
Mas, a fé não cresce sozinha. Como as plantas raras, tem de ser cultivada para não degenerar. Como a água, tem de ser purificada para não se poluir. Como o fogo, precisa ser avivada para não apagar. Ela não é apenas espetacular e grandiosa. Guia nossos passos mais anônimos e inspira nossos mais humildes pensamentos. Dá coragem a quem tem medo; e ao temerário, prudência. Dá á própria mudez eloquência; e povoa de música o silêncio mais terrível. Faz de um sorriso um tesouro. E de um simples olhar faz duas estrelas cintilantes.
Sem a fé, nossa vida não passa de uma obrigação obscura e monótona. Com ela, se transforma numa fascinante peregrinação
quinta-feira, 2 de abril de 2015
"CHEIROS DA VIDA" - 128 - O FIM DA "VIA CRUCIS" PESSOAL DE CARLOS LACERDA
Do mesmo livro no qual venho percorrendo a "Via Crucis", segundo a visão de Carlos Lacerda, sinto a necessidade de transcrever suas derradeiras linhas que coincidem com a morte deste grande cidadão brasileiro. É o que farei a seguir.
... Ele ainda me reconheceu e, ansioso e inquieto, pediu:
- Rebello, me tira esses tubos; esses homens estão me matando...
Tentei acalmá-lo. Era inútil: a agitação persistia.
Procurei completar o eletrocardiograma, que não pudera ser feito até o final, mas que não obstante, indicava, de modo insofismável, nas derivações realizadas, a causa daquela tragédia: infarto agudo do miocárdio.
Nesse momento, alguém da valorosa e dedicada equipe que atendia o enfermo disse:
- Não adianta mais.
Olhei e, aterrorizado, vi Lacerda inconsciente e enrijecido, em convulsão tônica.
Logo sobreveio o relaxamento, mas também a respiração difícil, estertorosa e irregular. Cessaram afinal os batimentos cardíacos.
E, ás 2 horas da madrugada daquele sábado trágico, 21 de maio de 1977, assisti, perplexo e impotente, como, de um instante para outro, cessou a vida e surgiu a morte.
A morte do amigo querido, como poucos em minha vida.
A morte do homem bom, generoso, capaz de amar e perdoar, de rir, de criar amizades duradouras, e de, com ardor insuperável, lutar as boas lutas e combater o bom combate.
A morte do homem inteligente que, pelos tempo afora, provocará, nas gerações vindouras, admiração pela obra jornalística, política, administrativa, e literária que realizou.
Ao morrer Carlos Lacerda, focou-nos, aos amigos e companheiros, a saudade indelével, que nunca se apagará. À Pátria restou o vácuo difícil - senão impossível - de ser preenchido.
Permanece, contudo, para ela e para os amigos de Lacerda, o exemplo dignificante de sua vida, dedicada por inteiro ao bem comum e alicerçada na inteligência, na honradez, na energia e na coragem altiva e, até mesmo bravia. E duram e perduram as lições que nos legou, de humildade e grandeza.
Que, embora já tardiamente, a Pátria, que tanto amou, lhe reconheça os méritos e lhe reverencie a memória.
Como, de há muito fazem seus incontáveis amigos.
Analisando, hoje, a situação de nosso país, chegamos à conclusão que meia dúzia de homens como Lacerda mudariam o rumo desastroso que percorremos.
No próximo capítulo voltaremos ao que mais importante contém a "Via Sacra" sob a visão deste grande brasileiro. Amado e odiado.
Fiel até o fim às suas ideias e leal à terra que o viu nascer.
Assim penso eu...
"CHEIROS DA VIDA" - 127 - "A VIA SACRA" DE CARLOS LACERDA
Faz menos de um mês, andando pela Avenida Rio Branco, fui atraído por um tabuleiro cheio de livros, um dos muitos que existem por ali no trajeto de entrada da Estação Carioca do Metrô. Sempre que passo nesse local, com tempo, fato raro ultimamente, procuro dar uma olhada nos livros em exposição.
Muito frequentemente sou seduzido por boa quantidade de títulos em exposição, mas um certo preconceito ou, a falta de dinheiro para esbanjar, cada vez mais corriqueiro no meu viver (graças principalmente à covardia de Lula, Cesar Maia e Helen Gracie - nunca esqueçam esses nomes de "vendilhões do templo"), faz que me afaste com certa pressa para evitar a tentação em comprá-los, talvez vários.
Naquele dia, no entanto fui atraído por um livro em destaque: "Carlos Lacerda - Depoimento". Esse livro fazia parte de minha modesta biblioteca e desapareceu por encanto. Certamente foi emprestado para alguém que gostou muito e o anexou à sua coleção ou, o abominou e o depositou no lixo como sua derradeira morada.
Conversando com o livreiro da banca, o Sr. Nilo, um "quase-velhinho" simpático e falante, idade análoga à minha, mais um dos meus novos "velhos amigos" que faço, expressei minha velha querença de ter certo livro do Lacerda "A casa de meu avô".
- Lá em casa tenho certeza de ter em estoque esse livro, talvez mais de um exemplar. Me dê quinze dias, o tempo de revirar aquela montanha de volumes. Volte aqui, nesse prazo; o trarei para o senhor.
- Vou cobrar? Volto breve!
- Pode voltar; vai ter seu livro.
- Vamos ver!
- Pode voltar...
Nesta segunda-feira, dia 30 de março de 2015, vítima que fui de mais um dos quase cotidianos e monumentais engarrafamentos impostos por nosso "lamentável" prefeito, o "Dudu", para os muito "íntimos", em decorrência da "derrubada da Avenida Perimetral" (só para avivar a memória: por onde andam as vigas metálicas de quarenta toneladas cada, cuidadosamente tratadas eletroliticamente para durarem quatrocentos anos, resistentes o suficiente para enfrentar às intempéries agressivas de uma região junto ao mar e que foram, simplesmente surrupiadas?); em decorrência, optei por vir a pé pela Av. Rio Branco desde a Avenida Venezuela com destino final no Castelo.
Passando pelo edifício Avenida Central lembrei do Nilo. Lá fui eu para a galeria dos livros, um verdadeiro "festival de sebos".
De longe o Nilo me avistou:
- Dr. José Carlos ainda não encontrei seu livro. Vou achar, nem que seja com algum colega. É só questão de tempo.
- Você está embromando...
- Negativo! Para provar minha vontade de atendê-lo, separei aqui um brinde para o senhor. Deixa ver... Aqui está.
- Quanto custa?
- Nada! É um presente para o amigo.
- Presente? Deixa eu ver, disse eu lendo a capa do livro. "Carlos Lacerda - meu amigo" de Antonio Dias Rebello Filho.
- Esse livro foi escrito pelo médico particular de Lacerda que o acompanhou por não sei quantos anos até sua morte, internado que foi, na Clínica São Vicente.
- Obrigado! Muito Obrigado! Vou voltar...
- Volte sempre!
Olhei para o relógio e tratei de apertar o passo até o meu escritório na Rua Santa Luzia.
Quando já acomodado em minha mesa de trabalho, tirei o lacre do celofane que embalava o livro ato contínuo o abri numa página qualquer.
Aqui vale um interregno para explanar um detalhe. Na internet, vez por outra recebo mensagens a cerca de um fato: "NADA ACONTECE POR ACASO". Sempre encarei essa frase como aquelas dos almanaques de fim de ano. Ultimamente, no entanto, ao recordar tantos fatos de minha vida, cada vez mais acho que essa frase encerra uma grande sabedoria.
O caso presente ilustra essa conclusão. Lembrando que estamos em plena Semana Santa, eis o que apareceu na página aleatoriamente aberta do meu novo livro: com texto escrito por Carlos Lacerda, talvez o político mais significativo da política brasileira da segunda metade do Século XX, aquele que despertava emoções de amor ou ódio, de gloriosa oratória e imperecível combatividade, como me referia, apareceu o que segue e passo a transcrever.
A VIA SACRA
Escrito por Carlos Lacerda
Primeira Estação: "Jesus Condenado"
Pilatos representa o mundo limitado e mesquinho. Cristo é a generosa encarnação da eternidade. Pilatos se agarra à vida e tanto teme a morte, é a vida curta e a morte certa. Cristo que morre pelos outros, deixa a todos, por herança, a ressurreição.
Pilatos é o medo mal-disfarçado. Cristo, o temor bem-assumido. Pilatos é a submissão incondicional. Cristo, a obediência esclarecida. Pilatos é a hipocrisia e o egoismo, versão humana da egolatria, pela qual o homem se considera deus. Cristo é a sinceridade e a dedicação, sinônimo terreno de devoção, que é divina.
Pilatos exige do Cristo respostas sobre o reino do mundo. Mas seu reino, Cristo explica, não é deste mundo. Pilatos é o silêncio imposto pelas legiões que oprimem, apoiadas no terror. Cristo é a palavra que redime, pelo amor sustentada.
A mulher de Pilatos lhe pede que não condene um inocente. Ela é o susto, também ela é o medo: sonhou com o castigo e trata de evitá-lo. Jesus Cristo, esse inocente, acusa. Pois o seu perdão é para quem se arrepende, não para quem se arrepende, não para quem no erro se compraz.
Pôncio Pilatos procura ao mesmo tempo atender à mulher, que é sua consciência, e não contrariar César, que é sua conveniência.
Escolhe o meio-termo, porque confunde a omissão com a isenção, a inércia com o equilíbrio, a pusilanimidade com a prudência. Lavando as mãos pensa ficar limpo. Mas, em vez de se purificarem, sua mãos de mancham na própria água em que se banham. Enquanto a vítima com seu próprio sangue lava os pecados do mundo.
Os pecadores açulados preferem Bar-Abás livre e Cristo preso (observação minha: Bar abbas, vem do aramaico e significa "filho de alguém". Barrabás nasceu ao sul da Judeia.). O criminoso não exige o arrependimento e o esforço. Tudo começa melhor na companhia do pecador. Bar-Abás é cômodo, apela somente para os instintos. Cristo é incômodo, interpela principalmente a inteligência. O caminho do céu começa numa porta estreita mas se abre sobre a imensidade.
Ninguém terá limpas as mãos enquanto for derramado o sangue do seu semelhante. Ninguém alegue inocência perante a injustiça triunfante. Pilatos optou pelo silêncio torvo, imposto à palavra luminosa. Cristo por ora vai ser punido. Mas é Pilatos que pela omissão eternamente se condena.
Inútil fugir à obrigação de escolher. Ninguém por muito tempo se esconde quando não responde ao clamor severo da justiça. Nem mesmo quando não atende ao suave chamado da caridade.
Nos capítulos a seguir pretendo transcrever as partes que mais me emocionaram das estações restantes, aquelas a que Lacerda conseguiu se reportar antes de partir para o Senhor.
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