As coisas estavam definidas: em maio, casaria o Guido, e em julho, Luiz Cesar.
Tão voltado para os meus problemas, nem notei que uma mudança definitiva estava acontecendo na vida de meus irmãos e para ser mais preciso, na de todos nós.
Participei muito pouco daquela grande emoção dos dois, melhor dizendo dos quatro, pois somadas a eles estavam minhas futuras cunhadas, as duas Marias, vizinhas, e igualmente Helenas.
Quem sabe, ganharia de uma só vez as duas irmãs que jamais tivera?
Casaram-se e lá se foram meus irmãos viver suas vidas. Repentinamente fiquei dono de um quarto, só meu, com tudo que sempre sonhara para uma privaticidade razoável.
Além do quarto, mamãe também era toda minha, pegando, cada vez mais cada vez, no meu pé e somente no meu pé...
Adeus compartilhamento!
Era a eterna lei da contrapartida
Então, assaltou-me uma avassalante vontade de viver, de queimar etapas, recuperar todo o tempo que julgara haver perdido. Vinte e quatro horas a cada dia era muito pouco para tantas emoções, que certamente ainda aconteceriam naquele ano.
Colégio, cursinho, revista, academia, clube, congregação e quando desse estudar um pouco...
É assim não vai dar!
O Brasil é Campeão do Mundo! Grande festa no Saboialima Clube. Vários dias de comemorações, até a festa de recepção na chegada do campeão Zagallo, nosso vizinho (à época, Zagallo morava no prédio existente na esquina das ruas Andrade Neves e José Higino).
Tudo acontecendo e paradoxalmente sentia uma indesejável sensação de vazio, e por mais que tentasse avançar-me ao relógio, uma solidão irreprimível invadia o meu sentir.
Talvez a falta de meus primeiros camaradas do São José já agora em novos vôos em suas faculdades, definindo mais de perto seus futuros.
Saudade dos “altos papos” nas horas de recreio... Já não mais estava lá o Carlos Alberto, o Thiré, o Luiz Mário, o Waldyr Amorim, o Geraldo Lourenço, o Gilberto Fornaciari, o Deocleciano e até o Sidinho, que passada a briga política retornara aos bons tempos, certamente sem sequelas em nossa amizade; fizemos até, eu e Sidinho, uma visita cultural à casa do Dr. Plínio Salgado, incontestável líder da direita. Vejam só !...
Saudades de um amor, saudades da irresponsável vida inocente que cismava em ficar cada vez mais longe...
Enfim, aconteceu... Antes que julho chega-se ao fim eu estava namorando a Tania, “prá valer”, para sempre...
Mas isso, quem sabe, um dia, num novo encontro, contarei...
- Trecho do meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1998.

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