por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 22 de junho de 2012

75 - LEMBRANÇAS

                           

          Em 1939 os americanos já tinham como certa a estratégia de desencadear uma ofensiva moral, econômica e cultural sobre a América do Sul, principalmente o Brasil, assegurando ricos mercados e eliminando do horizonte os rivais europeus.
          Para esta praça promissora, atenções especiais: empréstimo de 50 milhões de dólares em mercadorias "in USA". Em contrapartida os empresários americanos teriam facilitada a sua participação no desenvolvimento brasileiro.
         Era o início de tudo...
         Veio a guerra.
         Getúlio sonhava com uma siderúrgica em Volta Redonda e Franklin Roosevelt com uma base militar em Natal, Rio Grande do Norte.
          Getúlio demorou um pouco a se decidir mas, ganhou sua usina e Roosevelt  sua base e os aliados a guerra. Acho que esta ação foi decisiva para o desemlace do conflito.
          E, finalmente, chegou o banho de civilização americana: enlatados Swift, venezianas de alumínio Pan-American, eletrodomésticos GE, lentes Ray-Ban, vitrolas Silvertone, rádios Zenith, sabonetes Lever, pasta de dentes Kolynos, canetas Parker “51” e, entre uma infinidade de outras coisas,  Coca-Cola.
          Roberto Woodruff, então presidente da Coca-Cola Company, assegurou que os soldados norte-americanos teriam sua coca-cola, por 5 cents, estivessem onde estivassem, no mundo em guerra.
          Assim, a Coca-Cola, em 1942, desembarcou em Recife e Natal, o “Corredor da Vitória”, passagem obrigatória para todos os navios que rumavam para a Europa. Foram instaladas pequenas fábricas em Recife e Natal.
          Não foi fácil o brasileiro se acostumar.
          Em primeiro lugar deveria ser derrubado o tabu, talvez coisa de país subdesenvolvido, de que qualquer alimento ou bebida gelada atacava a garganta provocando gripe.
          Depois, o hábito de sorver a bebida pelo gargalo da garrafa não denotava boa educação, mais parecendo hábito de cowboy americano.
         A coisa não devia estar fácil mesmo. Existia até uma propaganda que era mais ou menos assim:
        “Coca-cola pro amigo, pra visita, pra criança,
          Coca-cola saborosa merece confiança!”
         Mas vamos à nossa história.
         Nos primeiros anos de colégio, era rotina a chegada de grandes caminhões carregados de coca-cola e com refrigeradores que mantinham o refrigerante super-gelado.
Iniciava-se então a distribuição gratuita, e mesmo fazendo cara “arrevesada” todos bebiam várias garrafas, soltando “arrotos” memoráveis numa louca competição.
         Juro, o sabor do refrigerante de então era bem diferente do atual. Talvez por isso, a dificuldade de aceitação inicial.
Papai detestava Coca-Cola, assim como detestava vender os produtos Eucalol para as farmácias-centrais das forças armadas. Olha que deveriam ser grandes vendas! Mas, a famosa comissão por fora, tão comum nos hábitos deturpados de hoje, ele não aceitava de maneira alguma.
         Também não era chegado a certo tipo de musica popular que mamãe apreciava, ainda mais tendo um vizinho famoso a morar na vila, o cantor Augusto Calheiros, “A Patativa do Norte”.
         A “Ave Maria” a que já me reportei e que mamãe adorava cantar, era criação de Calheiros, música composta em 1939 (sempre 1939) por Erothides de Campos e Jonas Neves (“Cai a tarde tristonha e serena...).
         Finalmente a televisão chegou lá em casa. Não lembro a data.
         Lembro, porém, de um programa que assistia todos os domingos com papai, final de noite, já bem tarde, o TV Rio-Ring.
         Eram quatro lutas de Box apresentadas por Léo Batista, que no intervalo, antes da última luta, exibia o “passeio das câmeras” onde, sem entrevistas, eram mostradas as personalidades presentes.
         Ainda muito pequeno, fui assistir, com papai, um filme de ficção científica, novidade para mim. No final, após vários dramas o homem chegava à lua.
         Fiquei impressionando: o homem na lua?...
         Papai me acalmou: “Isso é ficção, “mentirinha”, “imaginação”. Ainda vai demorar muitos e muitos anos para o homem chegar lá; se é que isso acontecerá um dia!...”.
         Como meu pai estava enganado!...
         Sem enganos foi a amizade que fizemos, eu e minha turma, com o primo da namorada do Guido, o Luiz Carlos, por ocasião de umas férias em Friburgo. O “cara” tocava um piano de primeira e bem “moderninho”.
         Era o que precisávamos.
         Seguidinho, íamos com sua companhia ao “Atlantic”, lembram-se, o restaurante mais caro da “Serra”. Lá havia um piano meio abandonado. Arrastamos o “bicho” para um lugar visível e deixamos o “artista” mostrar suas habilidades.
A casa ficava cheia e à custa do nosso “novo amigo”, bebíamos à vontade e de graça.
          Muitas saudades de tantas coisas: o cheirinho “divino” do pão fresquinho da Padaria Manon na Rua Ouvidor, as conversas meio incompreensíveis do Papaléo, o alfaiate que fazia minhas calças e paletós  (coisas da época ...), o piano suave do Mario de Azevedo que mamãe gostava de ouvir no rádio.
          Também o passarinho “Joaquim” que enfeitiçou mamãe, tanto como o gato “Bonitinho” que um dia “vacilou”, atiçando a ira irreversível da Dona Tininha comendo um prato de peixe, recém feito, que estava à mesa, prontinho para ser servido.                  Caiu, definitivamente, “em desgraça”.
         E o mestre de ginástica do colégio, um tenente já meio “coroa” que dava ordens de doer os ouvidos: “... agora, movimento dos ´braço´, com flexão dos ante-´braço´...”. Doía muito meus ouvidos!...
        Algumas lembranças me aborrecem, como a teimosia com que alguns companheiros insistiam para que eu os acompanhasse à “Zona”. Afinal muitos tinham ali, seu  “iniciamento”.
         Ia, e como ia, voltava.
         A coisa nunca fez meu “gênero” e deixava-me entre pesaroso, pelo destino daquelas mulheres, algumas ainda quase crianças e, deprimido, pelo ambiente meio surrealista, meio mórbido.
         Um dia, fomos a uma “coisa-fina” de “alto-luxo”. Não adiantou.
         Não era por aí!
         Pelo menos para mim...
         Sofri muito preconceito em decorrência de minhas atitudes. Sentia no mesmo teor os desejos de todos os jovens, mas o ambiente não excitava minha libido. Imaginava ambientes mais românticos e  menos imediatistas. Não conseguia separar o prazer da conquista.

        - Excerto de meu livro “Cheiro de Verão” escrito em 1998.






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