Por muitos dias durariam nossas comemorações, sobretudo considerando que aquele ano vinha sendo bastante promissor para os estudantes radicais de esquerda, quase sempre envolvidos na seqüência de greves que agitavam o país. Nossa vitoria evitaria o "pavoniar " deles pelo menos por algum tempo.
Naqueles primeiros anos de governo JK, o Partido Comunista, mesmo na ilegalidade, dispunha de uma liberdade de ação até então jamais desfrutada.
São de 1957 as greves dos 400 mil em São Paulo , dos transportes coletivos, ainda em São Paulo , dos ferroviários do Rio Grande do Sul, dos metalúrgicos do Rio de Janeiro, dos têxteis...
Dias antes do Congresso da A.M.E.S. o Distrito Federal sofrera demais com uma greve de ônibus. Com um motorista morto, a polícia totalmente alvoroçada, os estudantes em pé de guerra preocupavam seriamente o governo.
Como sempre, quem “pagava o pato” era o povo.
“Se o povo soubesse como são feitas as leis e as salsichas, ninguém mais dormiria sossegado”. Sábias palavras de Otto von Bismarck, o “Chaceler de Ferro”, 1888.
Juscelino chamou as lideranças estudantis ao Palácio do Catete - aqi ainda era a Capital da República e centro das desições nacionais -, para uma conversa decisiva: “Estamos numa situação extremamente delicada e eu quero lhes expor fatos de que eu tenho conhecimento, que evidentemente vocês não podem ter, porque nenhum de vocês é o Presidente da República... Não quero influir nas suas decisões, mas façam o que acharem melhor para o país. Se vocês acham que devem contribuir para minha queda do Governo, prossigam na greve, porque o desdobramento será este... Se vocês estão conscientes, participando desse processo, então vocês prossigam. Agora, se vocês não estão, tomem consciência. A decisão é de vocês, porque o que eu vou fazer seria exatamente, tenho certeza, o que vocês fariam, porque nós já temos compromisso com a nação”.
A partir daquela conversa, a greve começava a esvaziar-se.
De todas as maneiras, os estudantes sentiam-se vitoriosos, afinal haviam forçado o Presidente a recebê-los, reconhecendo, até certo ponto, sua força.
Mais um motivo para as nossas comemorações, afinal fora destes agitadores que havíamos tomado o poder.
O importante é que não só a política marcaria aquele final de ano.
Em 4 de outubro de 1957, a União Soviética lançava o primeiro satélite artificial do mundo o Sputinik I, que pesava 83 kg e circundava a terra em 96 minutos, quebrando o mito da supremacia americana e reformulando as atitudes internacionais, adaptando-as a padrões mais realistas.
Menos de um mês depois é lançado o Sputinik II levando ao espaço a cadelinha Laika.
Maria Ester Bueno tornava-se celebridade do tênis, vencendo o torneio internacional do Wimbledon, e no comércio, surgiam os primeiros supermercados adotando o sistema self service.
Finalmente, na tarde de 22 de dezembro, assisti no Maracanã o meu Botafogo ser Campeão Carioca, massacrando o Fluminense por 6 x 2, num campeonato que quase foi interrompido em setembro devido a um surto de “gripe asiática”, proveniente, provavelmente de Cingapura e que estava derrubando adultos e crianças.
Assisti este jogo com meu amigo Fadini, flamenguista ferrenho, que curvou-se, sem cerimônias, à classe do time-base da seleção brasileira, que seria Campeã do mundo pela primeira vez dali a poucos meses. Esse era o time: Adalberto, Tomé e Nilton Santos; Servílio, Beto e Pampolini; Garrincha, Didi, Paulo Valentin, Édson e Quarentinha.
Os gols do Botafogo: Paulo Valentim, cinco, e Garrincha.
Tarde da noite quando cheguei em casa, suado e totalmente afônico, aguardava-me um telegrama de minha madrinha: “Parabéns. Estrondosa Vitória. Tia Isa”.
O mundo sontinuava a girar
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