por José Carlos Coelho Leal

sábado, 2 de junho de 2012

70 - CONVERSA COM O PRESIDENTE


Por muitos dias durariam nossas comemorações, sobretudo considerando que aquele ano vinha sendo bastante promissor para os estudantes radicais de esquerda, quase sempre envolvidos na seqüência de greves que agitavam o país. Nossa vitoria evitaria o "pavoniar " deles pelo menos por algum tempo.
Naqueles primeiros anos de governo JK, o Partido Comunista, mesmo na ilegalidade, dispunha de uma liberdade de ação até então jamais desfrutada.
São de 1957 as greves dos 400 mil em São Paulo, dos transportes coletivos, ainda em São Paulo, dos ferroviários do Rio Grande do Sul, dos metalúrgicos do Rio de Janeiro, dos têxteis...
Dias antes do Congresso da A.M.E.S. o Distrito Federal sofrera demais com uma greve de ônibus. Com  um motorista morto, a polícia totalmente alvoroçada, os estudantes em pé de guerra preocupavam seriamente o governo.
Como sempre, quem “pagava o pato” era o povo.
“Se o povo soubesse como são feitas as leis e as salsichas, ninguém mais dormiria sossegado”. Sábias palavras de Otto von Bismarck, o “Chaceler de Ferro”, 1888.
Juscelino chamou as lideranças estudantis ao Palácio do Catete - aqi ainda era a Capital da República e centro das desições nacionais -, para uma conversa decisiva: “Estamos numa situação extremamente delicada e eu quero lhes expor fatos de que eu tenho conhecimento, que evidentemente vocês não podem ter, porque nenhum de vocês é o Presidente da República... Não quero influir nas suas decisões, mas façam o que acharem melhor para o país. Se vocês acham que devem contribuir para minha queda do Governo, prossigam na greve, porque o desdobramento será este... Se vocês estão conscientes, participando desse processo, então vocês prossigam. Agora, se vocês não estão, tomem consciência. A decisão é de vocês, porque o que eu vou fazer seria exatamente, tenho certeza, o que vocês fariam, porque nós já temos compromisso com a nação”.
A partir daquela conversa, a greve começava a esvaziar-se.
De todas as maneiras, os estudantes sentiam-se vitoriosos, afinal haviam forçado o Presidente a recebê-los, reconhecendo, até certo ponto, sua força.
Mais um motivo para as nossas comemorações, afinal fora destes agitadores que havíamos tomado o poder.
O importante é que não só a política marcaria aquele final de ano.
Em 4 de outubro de 1957, a União Soviética lançava o primeiro satélite artificial do mundo o Sputinik I, que pesava 83 kg e circundava a terra em 96 minutos, quebrando o mito da supremacia americana e reformulando as atitudes internacionais, adaptando-as a padrões mais realistas.
Menos de um mês depois é lançado o Sputinik II levando ao espaço a cadelinha Laika.
Maria Ester Bueno tornava-se celebridade do tênis, vencendo o torneio internacional do Wimbledon, e no comércio, surgiam os primeiros supermercados adotando o sistema self service.
Finalmente, na tarde de 22 de dezembro, assisti no Maracanã o meu Botafogo ser Campeão Carioca, massacrando o Fluminense por 6 x 2, num campeonato que quase foi interrompido em setembro devido a um surto de “gripe asiática”, proveniente, provavelmente de Cingapura e que estava derrubando adultos e crianças.
Assisti este jogo com meu amigo Fadini, flamenguista ferrenho, que curvou-se, sem cerimônias, à classe do time-base da seleção brasileira, que seria Campeã do mundo pela primeira vez dali a poucos meses. Esse era o time: Adalberto, Tomé e Nilton Santos; Servílio, Beto e Pampolini; Garrincha, Didi, Paulo Valentin, Édson e Quarentinha.
Os gols do Botafogo: Paulo Valentim, cinco, e Garrincha.
Tarde da noite quando cheguei em casa, suado e totalmente afônico, aguardava-me um telegrama de minha madrinha: “Parabéns. Estrondosa Vitória. Tia Isa”.
O mundo sontinuava a girar



 

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