por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 5 de junho de 2012

71 - CONTRASTES



Comparada às de meus companheiros, minha casa era bastante humilde e este fato me deixava, não raramente, meditativo e muitas vezes inibido em convidar novos amigos a freqüentá-la.
No entanto, por mais requintada a casa que visitasse, nunca fui recebido com a atenção e o carinho que mamãe dispensava aos meus amigos.
Os lanches que ela servia ficaram famosos e sempre lembrados com ternura, ainda hoje, quando encontro com alguém remanescente daquela época.
Sidinho era um dos mais assíduos freqüentadores das sortidas mesas preparadas com esmero pela Dona Tininha, e tinha até o privilégio de levar, ainda lacrada, latas de doce feitas com leite-condensado postas a cozinhar junto com o feijão.
Com nossa briga política, como ficariam as coisas?
Pensando bem, aquela atitude truculenta não tinha sido muito democrática. Mas, também, não podíamos permitir uma traição a todo o esforço de um colegiado idealista, ávido de mudanças.
O tempo certamente se encarregaria de consertar aquele estrago...
Também as roupas que usávamos, eu e meus irmãos, não primavam por acompanhar a moda. Sempre muito limpas e passadas com capricho não escondiam um cerzimento, o desbotado pelo muito uso e, no meu caso, uma bainha demonstrando o aproveitamento de uma calça ou camisa já usada por alguém mais velho.
Os sapatos... Ah, os sapatos. Sempre com as pontas guarnecidas por chapinhas metálicas a proteger o solado, guardiãs infalíveis de um uso prolongado. Muitas meias-solas, ou mesmo solas inteiras, adiavam uma respeitável aposentadoria para aqueles andarilhos de muitas léguas.
Agora, os contrastes...
Médicos e dentistas: sempre os mais confiáveis, sem levar em conta o preço da consulta ou do tratamento. Colégios, cursos e professores particulares: os melhores e quantos fossem necessários. Na mesa, o filé mignon frequentava nossos pratos sem consultas à folhinha; tudo do bom e do melhor.
À medida que ia tomando consciência das dificuldades da vida, até entendia estas coisas e para dizer a verdade, orgulhava-me o esforço de papai e mamãe para tornar-nos cidadãos de primeira.
No entanto, em certas ocasiões, achava que uma roupinha mais moderna, um sapato novo ou uma camisa da moda fariam muito bem ao meu ego. Evitar certos ambientes passou a ser uma amarga rotina, pois julgava que não seria bem visto.
Lembrava-me, então, dos conflitos com “Meu Herói”. Nestas ocasiões, uma profunda tristeza me dominava e, novamente, sentia as desconfortáveis sensações de inferioridade.
Marcaram muito, estas comoções que machucavam para valer...
Em tempo: apesar de tudo, tínhamos duas empregadas: Dina, nascida Alexandrina de Souza e Kalú, nascida Carolina de Oliveira.
A Dina, mais antiga, acompanhou toda minha infância; Kalú, mais recente, foi trabalhar lá em casa quando a minha adolescência já chegara.
O marido da Dina, Seu Hilário, vulgo “Bole-Bole”, lixeiro da limpeza urbana, muito chegado a um “trago” tinha um respeito de “tirar-o-chapéu” quando se dirigia à Dona Tininha, que aliás muito ajudou na criação da Yara e  do Joãozinho que sofriam das normais deficiências por serem filhos de um alcoólatra.
João chegou a trabalhar na Myrta, levado que foi por papai.
As duas, Dina e Kalú, vez por outra “aprontavam”, certamente causando muitas preocupações à mamãe, que jamais teve coragem de despedí-las.


 - Trecho de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997





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