- “Eu deste microfone amigo e você do recesso sacrossanto do seu lar, rezemos nesta hora do “Ângelus”: Ave Maria, Cheia de Graças...”
Essa frase era ouvida todas as tardes na rádio Tupi, na voz de Júlio Louzada, tendo ao fundo a melodia da “Ave Maria” de Gounod.
Início da noite, 18 horas: “Oração da Ave Maria”, programa que mamãe não perdia. Contrita rezava e em dias mais calmos, acompanhava com voz suave a melodia contristada.
O som vinha de longe, lá de baixo, provavelmente da cozinha, e num volume um pouco mais alto do que o habitual, para que pudesse superar o barulho das panelas ou da carne cheirosa cozinhando em fogo lento.
Era também a senha que diariamente me alertava que estava na hora do banho rápido, de vestir roupa confortável, e num piscar de olhos selecionar os livros, descer barulhentamente os degraus da escada íngreme que já assistira tombos memoráveis.
Ato contínuo, sentar à mesa e engolir em poucos minutos o jantar que levara horas para ser feito, sempre ouvindo um sermão daqueles: “Mais devagar; comer assim nesta rapidez faz muito mal!...”.
Não havia tempo a perder, às 19 horas, começavam as aulas no cursinho vestibular, lá na Avenida Presidente Wilson, no centro da cidade. Eu deveria estar lá, sem falta...
Tive muita sorte, pois definitivamente o progresso chegara à nossa Praça Gabriel Soares, que acabara de ganhar por aqueles dias uma linha de ônibus, com ponto-final bem ali, em frente à “Panificação Flortesta”, o 29 (atual 409), “Fábrica das Chitas – Ponte de Tábuas”. Nome diferente e até romântico para uma simples linha de ônibus.
Novamente lembravam a velha denominação do bairro; é bom recordar que primitivamente a Rua Desembargador Izidro chamara-se Rua da Fábrica das Chitas, provavelmente porque permitia acesso à “estamparia” erguida quase na encosta da serra.
“Ponte de Tábuas”, maneira quase lírica de dizer-se Jardim Botânico.
A tal ponte, de tábuas, naturalmente, dava acesso à Rua Pacheco Leão, onde hoje está a badalada T.V. Globo. Naquela época apenas mais um recanto bucólico da cidade, quase sem movimento.
Os ônibus novinhos, azul e amarelo, levavam-me rapidamente à cidade, num conforto de fazer inveja, assentos macios com poucos passageiros naquela hora; afinal, eu estava indo, quando todo mundo estava voltando.
Com todo conforto fazia a rápida viagem lendo as últimas piadas de “O Lider”: “Na pensão – A dona da pensão: o senhor já me deve seis meses de aluguel. Tem que procurar outro quarto; o hóspede: O quê?... Ir-me embora sem lhe pagar? Isso nunca!”.
Lia também a coluna social, na verdade “Sociedade Colegial” assinada pwlo colunista Abraão Suado que terminava assim: “... E por hoje é só. Sempre contra as calças americanas que não são ´kar´, e as camisas de estivador que são ´chaugrilá´”.
Saltava na Rua do Passeio andando apressado pela larga calçada, apinhada de gente a procura de diversão na noite bem novinha: Automóvel Clube, Escola Nacional de Música, Cine Plaza, Cine Metro-Passeio, Mesbla, Cine Palácio, Acadenia Moraes (lá, eu e o Waldir, meu primo, praticamos durante muito tempo dança de salão, até tango), Hotel Serrador, do outro lado o Palácio do Monroe, o Senado Federal (criminosamente demolido anos depois para dar passagem ao Metrô).
Esperava abrir o sinal na Av. Rio Branco, bem em frente ao Obelisco, e já estava na Avenida Presidente Wilson: Embaixada dos Estados Unidos, agora era atravessar bem em frente ao Bar Vilarino e na mesma calçada preparar-me para enfrentar a longa fila de espera do elevador do Edifício Inúbia.
6º andar – Curso C. O. S.
- Trecho de meu livro "Cheiro de Verão".
Nenhum comentário:
Postar um comentário