por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 13 de junho de 2012

73 - MIL NOVECENTOS E CINQUENTA E OITO



“Vai minha tristeza
E  diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer.

Chega de saudade
A realidade
É que sem ela não há paz
Não há beleza
É só tristeza
E a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai.”

Ao som da música de Jobim, a poesia de Vinícius parecia feita na medida certa. Resumia tudo que eu sentia naqueles primeiros dias de janeiro.
A novidade da bossa-nova machucava, de mansinho, o coração.
No íntimo, tinha medo que o novo amor que crescia dia após dia, se transformasse no mote do soneto que li, sei lá onde: “Meninas que eu amei sem ser amado,/ que nunca suspeitaram de um fervor/ tão humilde, tão puro, tão calado/ (...) Meninas que eu amei, por onde andais?”
Com a sensibilidade à flor da pele concluía que já era hora de acabar com a solidão...
Mas a vida seguia. Últimos meses no São José depois de onze anos de muito aprendizado, muitas experiências, grandes histórias.
Ano de decisão às vésperas de completar o científico - a escolha definitiva da futura profissão.
Mal começara março, além das aulas pela manhã no colégio, enfrentava, de 7 às 11 da noite, o curso vestibular. E lá estávamos nós, eu, Fadini, Paredes, Câmara, o “Soneca”, assistindo às aulas do De Vries, Maia, Souza Filho, Romanholo, Nagib, Furtado, no Curso C.O.S., ali na Presidente Wilson, bem pertinho da Embaixada Americana e em frente à Academia Brasileira de Letras. Todo nós decidimos ser engenheiros e começávamos a nos preparar para isto.
É bom rememorar.
Minhas atividades naquele início de 1958, além das aulas no colégio e no “cursinho”, envolviam a produção das revistas do colégio e do Saboialima Clube, participação na diretoria da A.L.C.A., e aulas de inglês na Cultura Inglesa.
Na segunda semana de aula fui chamado, na reitoria, pelo “Batatinha”, aliás, Irmão Moisés Maria, então vice-reitor do colégio, para um papo.
Meio preocupado, sem saber qual o assunto a ser tratado, lá fui eu.
Gostava muito do “Batatinha” e apesar da preocupação apresentei-me tranqüilamente.
- Temos dois assuntos importantes a tratar.
- Dois ?!!! - exclamei, meio que assustado.
- Em primeiro lugar, quero parabeniza-lo pelo brilhante trabalho feito à frente de “O Líder” nestes três anos de vida.
- Obrigado.
- Em função disso, a direção do Colégio acha que vocês já estão preparados para um vôo mais alto. Assim, decidimos fazer uma revista mais caprichada ainda, que terá uma bela capa colorida, e deverá ser impressa em papel couché. Será um primor de revista.
- E o outro assunto? - indaguei, agora, já bastante inquieto.
- Pela liderança que vem demonstrando junto a seus colegas, eu que coordeno as atividades da Congregação Mariana, penso que você é o candidato ideal a ter meu apoio para a presidência da Congregação. Como existe uma norma que dispensa os alunos do Terceiro Científico do cargo máximo de direção em função das atividades do vestibular, indicarei o Ademar Gabriel, do 2º ano para presidente, e você, para vice. Qual sua opinião ?
Não tinha opinião.
No caso da revista, achava que estava tudo bom, muito bonito, mas não era este o nosso sonho. Definitivamente iria por água a baixo qualquer possibilidade de liberdade total de expressão que sempre almejáramos.
Quanto à Congregação, estava muito envaidecido, mas, onde arrumar mais tempo para essa nova atividade? Por outro lado, pensei no velho Gregório, e no meu desafio... Não havia dúvidas.
- Irmão Moisés, estou sumamente gratificado com os convites, e, pode contar comigo para o que der e vier.
E agora?...
Muita coisa boa aconteceria naquele ano memorável.

- Trecho de meu livro "Cheiro de Verão"







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