Durante o ano de 1957, “O Líder” passou a ser impresso, em forma de revista, sendo distribuído para todos os alunos. Ao todo, 1.200 exemplares.
Finalmente sucumbíamos à censura oficial, e nem tudo que escrevíamos era publicado. Além do mais, muitas matérias sem interesse, pelo menos para nós, tomavam conta de algumas preciosas páginas.
Continuávamos brigando, sem tréguas, e vez por outra conseguíamos ludibriar àquela vigilância indecorosa. Apesar de tudo, valia o aprendizado de editar alguma coisa que atingiria um publico ao redor de 5.000 leitores.
A batalha começava na caça aos anunciantes, pois a revista era praticamente autofinanciada, saldando o colégio o custo correspondente apenas às páginas que tinham interesse de veicular.
Não era fácil convencer comerciantes a empregar seu rico dinheirinho numa publicação de circulação tão restrita.
Em maio de 1957 circulava a primeira edição de “O Líder” em seu novo formato. Foram anunciantes pioneiros: “Sabonete BIG”, “Gotas Indianas de GIFFONI”, “Joalheria Côrtes” , “Sorveterias TIJUCA Ltda.”, “Editora VOZES Ltda.”, “Farmácia SANTOS”, “Salão ANATÃ - Cabeleireiros”, “MARIANA Editora”, “SUTIL - Super Mercado Tijuca Ltda.” e “Magazin DE MORAES”.
Convenhamos, um belo trabalho de nossa equipe.
No expediente da revista, aparecia:
Diretor: José Carlos Coelho Leal;
Redator-chefe: Humberto Antônio Marmo Fadini;
Secretário: Carlos Alberto Curty Giffoni;
Tesoureiro: João Alfredo Paredes Christiano Silva;
Chefe de distribuição: Ulysses Borges da Silva;
Supervisor: Ir. Antônio Francisco.
O desagradável era a presença do Ir. Antônio Francisco, o popular “Azeitona”, sempre com suas idéias castradoras. Enfim, tínhamos que tentar conviver em parcimoniosa harmonia, ou deixar de vez nosso sonho jornalístico.
Abrindo a revista, num editorial de página inteira, assinado por mim, cheio de arrebatamento e entusiasmo, com o título “JUVENTUDE, fonte de vida e progresso”, lia-se em certo ponto: “Juventude, palavra que significa idealismo, ação e trabalho. Juventude, sinônimo de vida, esperança de uma nação, promessa de um futuro. Todos estes títulos nos pertencem de honra e de direito, jovens que estudamos. Somos o plasma que dará vitalidade a este solo fértil, a estas usinas colossais, a estas fábricas imensas. Somos o remédio que dará alento a esse povo. Somos a ‘Terra Prometida’ que dará felicidade a esta multidão de almas sedentas de paz, de progresso e de fraternidade”.
Bons tempos!
Mais adiante, alguns sorrisos:
“- Qual a pior compra que um homem pode fazer? - A de um chapéu: porque ou ‘leva na cabeça’, ou vai ‘no embrulho’, ou ‘fica na mão’.
Mantínhamos, com não pouco esforço, a nossa “novela-impressa”: “O Cadáver Morto”, uma emocionante aventura dos intrépidos detetives Ximú, Zé Kilowat e Bicho Careca. Puro exemplar do mais genuíno “besteirol”.
Uma das histórias terminava assim:
“... Zé K. – Mesmo que a senhora não confesse, esta presa!
Senhora – Por quê?
Zé K. – Porque a senhora tem pendurado ao pescoço, um medalhão com a fotografia de seu marido, que, aliás, não conheço, e em cuja fotografia está marcada a data do nascimento e morte do seu marido; logo, a senhora sabia que ele iria morrer hoje!
Senhora – Oh! Não, não...
B. Car. – Algeme-a!
“THE END”
À censura implacável não agradavam historinhas inocentes como a que segue: “Um pároco que tinha arrecadado muito dinheiro na coleta, andava nervoso por não saber onde guarda-lo. Foi escondê-lo na sacristia e escreveu por cima do esconderijo: - Dominus est in ipso loco (o Senhor está neste lugar). Certo espertalhão furtou o tesouro, substituindo a inscrição por esta: - Ressurrexit, non est hic (ressuscitou, já não está aqui) .
Nosso censor, o Azeitona, achava que esta historinha era desrespeitosa à religião. Essa, ele perdeu, e a piadinha, quase sem graça, mas por pura picardia, foi publicada.
Muito atrasado nosso “supervisor”, lamentavelmente.
Algumas coisas não mudaram e permanecem atuais. Numa entrevista feita com o Sidinho, indagava-se sua opinião quanto aos políticos. Resposta do nosso entrevistado: “Minha impressão é de que existem bons políticos, mas, o conjunto aterroriza”. Resposta atualíssima...
Publicavam-se também artigos com temas muito chegados ao dia a dia dos estudantes. “... Por que cola o aluno? ‘Cola’ a princípio, e antes de mais nada, porque não lhes ensinaram o que se deve ensinar, nem como se deve ensinar; porque ele não estudou como se deve estudar; e assim por tudo isso, ele não aprendeu e, portanto não sabe; - e depois ‘cola’ por hábito, por vício, por esporte, por implicância, por má educação, por não querer ficar atrás e finalmente por falta de orientação...”
Profundo, não?...
Mais algum tempo, e chegaria o ano de 1958.
Coisa muito séria este 1958.
- Trecho de meu livro "Cheiro de Verão"
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