
por José Carlos Coelho Leal
segunda-feira, 25 de junho de 2012
sábado, 23 de junho de 2012
76 - AS DUAS HELENAS, TAMBÉM MARIAS
As coisas estavam definidas: em maio, casaria o Guido, e em julho, Luiz Cesar.
Tão voltado para os meus problemas, nem notei que uma mudança definitiva estava acontecendo na vida de meus irmãos e para ser mais preciso, na de todos nós.
Participei muito pouco daquela grande emoção dos dois, melhor dizendo dos quatro, pois somadas a eles estavam minhas futuras cunhadas, as duas Marias, vizinhas, e igualmente Helenas.
Quem sabe, ganharia de uma só vez as duas irmãs que jamais tivera?
Casaram-se e lá se foram meus irmãos viver suas vidas. Repentinamente fiquei dono de um quarto, só meu, com tudo que sempre sonhara para uma privaticidade razoável.
Além do quarto, mamãe também era toda minha, pegando, cada vez mais cada vez, no meu pé e somente no meu pé...
Adeus compartilhamento!
Era a eterna lei da contrapartida
Então, assaltou-me uma avassalante vontade de viver, de queimar etapas, recuperar todo o tempo que julgara haver perdido. Vinte e quatro horas a cada dia era muito pouco para tantas emoções, que certamente ainda aconteceriam naquele ano.
Colégio, cursinho, revista, academia, clube, congregação e quando desse estudar um pouco...
É assim não vai dar!
O Brasil é Campeão do Mundo! Grande festa no Saboialima Clube. Vários dias de comemorações, até a festa de recepção na chegada do campeão Zagallo, nosso vizinho (à época, Zagallo morava no prédio existente na esquina das ruas Andrade Neves e José Higino).
Tudo acontecendo e paradoxalmente sentia uma indesejável sensação de vazio, e por mais que tentasse avançar-me ao relógio, uma solidão irreprimível invadia o meu sentir.
Talvez a falta de meus primeiros camaradas do São José já agora em novos vôos em suas faculdades, definindo mais de perto seus futuros.
Saudade dos “altos papos” nas horas de recreio... Já não mais estava lá o Carlos Alberto, o Thiré, o Luiz Mário, o Waldyr Amorim, o Geraldo Lourenço, o Gilberto Fornaciari, o Deocleciano e até o Sidinho, que passada a briga política retornara aos bons tempos, certamente sem sequelas em nossa amizade; fizemos até, eu e Sidinho, uma visita cultural à casa do Dr. Plínio Salgado, incontestável líder da direita. Vejam só !...
Saudades de um amor, saudades da irresponsável vida inocente que cismava em ficar cada vez mais longe...
Enfim, aconteceu... Antes que julho chega-se ao fim eu estava namorando a Tania, “prá valer”, para sempre...
Mas isso, quem sabe, um dia, num novo encontro, contarei...
- Trecho do meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1998.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
EXTRA - PEQUENO "TAKE " DE MINHA ATRIZ PREFERIDA, MINHA NETA GABRIELA
EXTRA - Vejam o vídeo de Gabriela no Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=zwoiB2hOG8g&feature=plcp
COM MUITO PRAZER / VOVOZÉ (O CORUJÃO)
http://www.youtube.com/watch?v=zwoiB2hOG8g&feature=plcp
COM MUITO PRAZER / VOVOZÉ (O CORUJÃO)
75 - LEMBRANÇAS
Em 1939 os americanos já tinham como certa a estratégia de desencadear uma ofensiva moral, econômica e cultural sobre a América do Sul, principalmente o Brasil, assegurando ricos mercados e eliminando do horizonte os rivais europeus.
Para esta praça promissora, atenções especiais: empréstimo de 50 milhões de dólares em mercadorias "in USA". Em contrapartida os empresários americanos teriam facilitada a sua participação no desenvolvimento brasileiro.
Era o início de tudo...
Veio a guerra.
Getúlio sonhava com uma siderúrgica em Volta Redonda e Franklin Roosevelt com uma base militar em Natal, Rio Grande do Norte.
Getúlio demorou um pouco a se decidir mas, ganhou sua usina e Roosevelt sua base e os aliados a guerra. Acho que esta ação foi decisiva para o desemlace do conflito.
E, finalmente, chegou o banho de civilização americana: enlatados Swift, venezianas de alumínio Pan-American, eletrodomésticos GE, lentes Ray-Ban, vitrolas Silvertone, rádios Zenith, sabonetes Lever, pasta de dentes Kolynos, canetas Parker “51” e, entre uma infinidade de outras coisas, Coca-Cola.
Roberto Woodruff, então presidente da Coca-Cola Company, assegurou que os soldados norte-americanos teriam sua coca-cola, por 5 cents, estivessem onde estivassem, no mundo em guerra.
Assim, a Coca-Cola, em 1942, desembarcou em Recife e Natal, o “Corredor da Vitória”, passagem obrigatória para todos os navios que rumavam para a Europa. Foram instaladas pequenas fábricas em Recife e Natal.
Não foi fácil o brasileiro se acostumar.
Em primeiro lugar deveria ser derrubado o tabu, talvez coisa de país subdesenvolvido, de que qualquer alimento ou bebida gelada atacava a garganta provocando gripe.
Depois, o hábito de sorver a bebida pelo gargalo da garrafa não denotava boa educação, mais parecendo hábito de cowboy americano.
A coisa não devia estar fácil mesmo. Existia até uma propaganda que era mais ou menos assim:
“Coca-cola pro amigo, pra visita, pra criança,
Coca-cola saborosa merece confiança!”
Mas vamos à nossa história.
Nos primeiros anos de colégio, era rotina a chegada de grandes caminhões carregados de coca-cola e com refrigeradores que mantinham o refrigerante super-gelado.
Iniciava-se então a distribuição gratuita, e mesmo fazendo cara “arrevesada” todos bebiam várias garrafas, soltando “arrotos” memoráveis numa louca competição.
Juro, o sabor do refrigerante de então era bem diferente do atual. Talvez por isso, a dificuldade de aceitação inicial.
Papai detestava Coca-Cola, assim como detestava vender os produtos Eucalol para as farmácias-centrais das forças armadas. Olha que deveriam ser grandes vendas! Mas, a famosa comissão por fora, tão comum nos hábitos deturpados de hoje, ele não aceitava de maneira alguma.
Também não era chegado a certo tipo de musica popular que mamãe apreciava, ainda mais tendo um vizinho famoso a morar na vila, o cantor Augusto Calheiros, “A Patativa do Norte”.
A “Ave Maria” a que já me reportei e que mamãe adorava cantar, era criação de Calheiros, música composta em 1939 (sempre 1939) por Erothides de Campos e Jonas Neves (“Cai a tarde tristonha e serena...).
Finalmente a televisão chegou lá em casa. Não lembro a data.
Lembro, porém, de um programa que assistia todos os domingos com papai, final de noite, já bem tarde, o TV Rio-Ring.
Eram quatro lutas de Box apresentadas por Léo Batista, que no intervalo, antes da última luta, exibia o “passeio das câmeras” onde, sem entrevistas, eram mostradas as personalidades presentes.
Ainda muito pequeno, fui assistir, com papai, um filme de ficção científica, novidade para mim. No final, após vários dramas o homem chegava à lua.
Fiquei impressionando: o homem na lua?...
Papai me acalmou: “Isso é ficção, “mentirinha”, “imaginação”. Ainda vai demorar muitos e muitos anos para o homem chegar lá; se é que isso acontecerá um dia!...”.
Como meu pai estava enganado!...
Sem enganos foi a amizade que fizemos, eu e minha turma, com o primo da namorada do Guido, o Luiz Carlos, por ocasião de umas férias em Friburgo. O “cara” tocava um piano de primeira e bem “moderninho”.
Era o que precisávamos.
Seguidinho, íamos com sua companhia ao “Atlantic”, lembram-se, o restaurante mais caro da “Serra”. Lá havia um piano meio abandonado. Arrastamos o “bicho” para um lugar visível e deixamos o “artista” mostrar suas habilidades.
A casa ficava cheia e à custa do nosso “novo amigo”, bebíamos à vontade e de graça.
Muitas saudades de tantas coisas: o cheirinho “divino” do pão fresquinho da Padaria Manon na Rua Ouvidor, as conversas meio incompreensíveis do Papaléo, o alfaiate que fazia minhas calças e paletós (coisas da época ...), o piano suave do Mario de Azevedo que mamãe gostava de ouvir no rádio.
Também o passarinho “Joaquim” que enfeitiçou mamãe, tanto como o gato “Bonitinho” que um dia “vacilou”, atiçando a ira irreversível da Dona Tininha comendo um prato de peixe, recém feito, que estava à mesa, prontinho para ser servido. Caiu, definitivamente, “em desgraça”.
E o mestre de ginástica do colégio, um tenente já meio “coroa” que dava ordens de doer os ouvidos: “... agora, movimento dos ´braço´, com flexão dos ante-´braço´...”. Doía muito meus ouvidos!...
Algumas lembranças me aborrecem, como a teimosia com que alguns companheiros insistiam para que eu os acompanhasse à “Zona”. Afinal muitos tinham ali, seu “iniciamento”.
Ia, e como ia, voltava.
A coisa nunca fez meu “gênero” e deixava-me entre pesaroso, pelo destino daquelas mulheres, algumas ainda quase crianças e, deprimido, pelo ambiente meio surrealista, meio mórbido.
Um dia, fomos a uma “coisa-fina” de “alto-luxo”. Não adiantou.
Não era por aí!
Pelo menos para mim...
Sofri muito preconceito em decorrência de minhas atitudes. Sentia no mesmo teor os desejos de todos os jovens, mas o ambiente não excitava minha libido. Imaginava ambientes mais românticos e menos imediatistas. Não conseguia separar o prazer da conquista.
- Excerto de meu livro “Cheiro de Verão” escrito em 1998.
74 - PONTE DE TÁBUAS
- “Eu deste microfone amigo e você do recesso sacrossanto do seu lar, rezemos nesta hora do “Ângelus”: Ave Maria, Cheia de Graças...”
Essa frase era ouvida todas as tardes na rádio Tupi, na voz de Júlio Louzada, tendo ao fundo a melodia da “Ave Maria” de Gounod.
Início da noite, 18 horas: “Oração da Ave Maria”, programa que mamãe não perdia. Contrita rezava e em dias mais calmos, acompanhava com voz suave a melodia contristada.
O som vinha de longe, lá de baixo, provavelmente da cozinha, e num volume um pouco mais alto do que o habitual, para que pudesse superar o barulho das panelas ou da carne cheirosa cozinhando em fogo lento.
Era também a senha que diariamente me alertava que estava na hora do banho rápido, de vestir roupa confortável, e num piscar de olhos selecionar os livros, descer barulhentamente os degraus da escada íngreme que já assistira tombos memoráveis.
Ato contínuo, sentar à mesa e engolir em poucos minutos o jantar que levara horas para ser feito, sempre ouvindo um sermão daqueles: “Mais devagar; comer assim nesta rapidez faz muito mal!...”.
Não havia tempo a perder, às 19 horas, começavam as aulas no cursinho vestibular, lá na Avenida Presidente Wilson, no centro da cidade. Eu deveria estar lá, sem falta...
Tive muita sorte, pois definitivamente o progresso chegara à nossa Praça Gabriel Soares, que acabara de ganhar por aqueles dias uma linha de ônibus, com ponto-final bem ali, em frente à “Panificação Flortesta”, o 29 (atual 409), “Fábrica das Chitas – Ponte de Tábuas”. Nome diferente e até romântico para uma simples linha de ônibus.
Novamente lembravam a velha denominação do bairro; é bom recordar que primitivamente a Rua Desembargador Izidro chamara-se Rua da Fábrica das Chitas, provavelmente porque permitia acesso à “estamparia” erguida quase na encosta da serra.
“Ponte de Tábuas”, maneira quase lírica de dizer-se Jardim Botânico.
A tal ponte, de tábuas, naturalmente, dava acesso à Rua Pacheco Leão, onde hoje está a badalada T.V. Globo. Naquela época apenas mais um recanto bucólico da cidade, quase sem movimento.
Os ônibus novinhos, azul e amarelo, levavam-me rapidamente à cidade, num conforto de fazer inveja, assentos macios com poucos passageiros naquela hora; afinal, eu estava indo, quando todo mundo estava voltando.
Com todo conforto fazia a rápida viagem lendo as últimas piadas de “O Lider”: “Na pensão – A dona da pensão: o senhor já me deve seis meses de aluguel. Tem que procurar outro quarto; o hóspede: O quê?... Ir-me embora sem lhe pagar? Isso nunca!”.
Lia também a coluna social, na verdade “Sociedade Colegial” assinada pwlo colunista Abraão Suado que terminava assim: “... E por hoje é só. Sempre contra as calças americanas que não são ´kar´, e as camisas de estivador que são ´chaugrilá´”.
Saltava na Rua do Passeio andando apressado pela larga calçada, apinhada de gente a procura de diversão na noite bem novinha: Automóvel Clube, Escola Nacional de Música, Cine Plaza, Cine Metro-Passeio, Mesbla, Cine Palácio, Acadenia Moraes (lá, eu e o Waldir, meu primo, praticamos durante muito tempo dança de salão, até tango), Hotel Serrador, do outro lado o Palácio do Monroe, o Senado Federal (criminosamente demolido anos depois para dar passagem ao Metrô).
Esperava abrir o sinal na Av. Rio Branco, bem em frente ao Obelisco, e já estava na Avenida Presidente Wilson: Embaixada dos Estados Unidos, agora era atravessar bem em frente ao Bar Vilarino e na mesma calçada preparar-me para enfrentar a longa fila de espera do elevador do Edifício Inúbia.
6º andar – Curso C. O. S.
- Trecho de meu livro "Cheiro de Verão".
quarta-feira, 13 de junho de 2012
73 - MIL NOVECENTOS E CINQUENTA E OITO
“Vai minha tristeza
E diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer.
Chega de saudade
A realidade
É que sem ela não há paz
Não há beleza
É só tristeza
E a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai.”
Ao som da música de Jobim, a poesia de Vinícius parecia feita na medida certa. Resumia tudo que eu sentia naqueles primeiros dias de janeiro.
A novidade da bossa-nova machucava, de mansinho, o coração.
No íntimo, tinha medo que o novo amor que crescia dia após dia, se transformasse no mote do soneto que li, sei lá onde: “Meninas que eu amei sem ser amado,/ que nunca suspeitaram de um fervor/ tão humilde, tão puro, tão calado/ (...) Meninas que eu amei, por onde andais?”
Com a sensibilidade à flor da pele concluía que já era hora de acabar com a solidão...
Mas a vida seguia. Últimos meses no São José depois de onze anos de muito aprendizado, muitas experiências, grandes histórias.
Ano de decisão às vésperas de completar o científico - a escolha definitiva da futura profissão.
Mal começara março, além das aulas pela manhã no colégio, enfrentava, de 7 às 11 da noite, o curso vestibular. E lá estávamos nós, eu, Fadini, Paredes, Câmara, o “Soneca”, assistindo às aulas do De Vries, Maia, Souza Filho, Romanholo, Nagib, Furtado, no Curso C.O.S., ali na Presidente Wilson, bem pertinho da Embaixada Americana e em frente à Academia Brasileira de Letras. Todo nós decidimos ser engenheiros e começávamos a nos preparar para isto.
É bom rememorar.
Minhas atividades naquele início de 1958, além das aulas no colégio e no “cursinho”, envolviam a produção das revistas do colégio e do Saboialima Clube, participação na diretoria da A.L.C.A., e aulas de inglês na Cultura Inglesa.
Na segunda semana de aula fui chamado, na reitoria, pelo “Batatinha”, aliás, Irmão Moisés Maria, então vice-reitor do colégio, para um papo.
Meio preocupado, sem saber qual o assunto a ser tratado, lá fui eu.
Gostava muito do “Batatinha” e apesar da preocupação apresentei-me tranqüilamente.
- Temos dois assuntos importantes a tratar.
- Dois ?!!! - exclamei, meio que assustado.
- Em primeiro lugar, quero parabeniza-lo pelo brilhante trabalho feito à frente de “O Líder” nestes três anos de vida.
- Obrigado.
- Em função disso, a direção do Colégio acha que vocês já estão preparados para um vôo mais alto. Assim, decidimos fazer uma revista mais caprichada ainda, que terá uma bela capa colorida, e deverá ser impressa em papel couché. Será um primor de revista.
- E o outro assunto? - indaguei, agora, já bastante inquieto.
- Pela liderança que vem demonstrando junto a seus colegas, eu que coordeno as atividades da Congregação Mariana, penso que você é o candidato ideal a ter meu apoio para a presidência da Congregação. Como existe uma norma que dispensa os alunos do Terceiro Científico do cargo máximo de direção em função das atividades do vestibular, indicarei o Ademar Gabriel, do 2º ano para presidente, e você, para vice. Qual sua opinião ?
Não tinha opinião.
No caso da revista, achava que estava tudo bom, muito bonito, mas não era este o nosso sonho. Definitivamente iria por água a baixo qualquer possibilidade de liberdade total de expressão que sempre almejáramos.
Quanto à Congregação, estava muito envaidecido, mas, onde arrumar mais tempo para essa nova atividade? Por outro lado, pensei no velho Gregório, e no meu desafio... Não havia dúvidas.
- Irmão Moisés, estou sumamente gratificado com os convites, e, pode contar comigo para o que der e vier.
E agora?...
Muita coisa boa aconteceria naquele ano memorável.
- Trecho de meu livro "Cheiro de Verão"
sábado, 9 de junho de 2012
EXTRA - FRASE DA FILÓSOFA AYN RAND
Frase da filósofa russo-americana Ayn Rand (judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920), mostrando uma visão com conhecimento de causa:
- "quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada;
- quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores;
- quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você;
- quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto sacrifício;
Então poderá afirmar, com toda segurança, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada".
- "quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada;
- quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores;
- quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você;
- quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto sacrifício;
Então poderá afirmar, com toda segurança, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada".
quinta-feira, 7 de junho de 2012
72 - BRIGANDO COM CENSURA
Durante o ano de 1957, “O Líder” passou a ser impresso, em forma de revista, sendo distribuído para todos os alunos. Ao todo, 1.200 exemplares.
Finalmente sucumbíamos à censura oficial, e nem tudo que escrevíamos era publicado. Além do mais, muitas matérias sem interesse, pelo menos para nós, tomavam conta de algumas preciosas páginas.
Continuávamos brigando, sem tréguas, e vez por outra conseguíamos ludibriar àquela vigilância indecorosa. Apesar de tudo, valia o aprendizado de editar alguma coisa que atingiria um publico ao redor de 5.000 leitores.
A batalha começava na caça aos anunciantes, pois a revista era praticamente autofinanciada, saldando o colégio o custo correspondente apenas às páginas que tinham interesse de veicular.
Não era fácil convencer comerciantes a empregar seu rico dinheirinho numa publicação de circulação tão restrita.
Em maio de 1957 circulava a primeira edição de “O Líder” em seu novo formato. Foram anunciantes pioneiros: “Sabonete BIG”, “Gotas Indianas de GIFFONI”, “Joalheria Côrtes” , “Sorveterias TIJUCA Ltda.”, “Editora VOZES Ltda.”, “Farmácia SANTOS”, “Salão ANATÃ - Cabeleireiros”, “MARIANA Editora”, “SUTIL - Super Mercado Tijuca Ltda.” e “Magazin DE MORAES”.
Convenhamos, um belo trabalho de nossa equipe.
No expediente da revista, aparecia:
Diretor: José Carlos Coelho Leal;
Redator-chefe: Humberto Antônio Marmo Fadini;
Secretário: Carlos Alberto Curty Giffoni;
Tesoureiro: João Alfredo Paredes Christiano Silva;
Chefe de distribuição: Ulysses Borges da Silva;
Supervisor: Ir. Antônio Francisco.
O desagradável era a presença do Ir. Antônio Francisco, o popular “Azeitona”, sempre com suas idéias castradoras. Enfim, tínhamos que tentar conviver em parcimoniosa harmonia, ou deixar de vez nosso sonho jornalístico.
Abrindo a revista, num editorial de página inteira, assinado por mim, cheio de arrebatamento e entusiasmo, com o título “JUVENTUDE, fonte de vida e progresso”, lia-se em certo ponto: “Juventude, palavra que significa idealismo, ação e trabalho. Juventude, sinônimo de vida, esperança de uma nação, promessa de um futuro. Todos estes títulos nos pertencem de honra e de direito, jovens que estudamos. Somos o plasma que dará vitalidade a este solo fértil, a estas usinas colossais, a estas fábricas imensas. Somos o remédio que dará alento a esse povo. Somos a ‘Terra Prometida’ que dará felicidade a esta multidão de almas sedentas de paz, de progresso e de fraternidade”.
Bons tempos!
Mais adiante, alguns sorrisos:
“- Qual a pior compra que um homem pode fazer? - A de um chapéu: porque ou ‘leva na cabeça’, ou vai ‘no embrulho’, ou ‘fica na mão’.
Mantínhamos, com não pouco esforço, a nossa “novela-impressa”: “O Cadáver Morto”, uma emocionante aventura dos intrépidos detetives Ximú, Zé Kilowat e Bicho Careca. Puro exemplar do mais genuíno “besteirol”.
Uma das histórias terminava assim:
“... Zé K. – Mesmo que a senhora não confesse, esta presa!
Senhora – Por quê?
Zé K. – Porque a senhora tem pendurado ao pescoço, um medalhão com a fotografia de seu marido, que, aliás, não conheço, e em cuja fotografia está marcada a data do nascimento e morte do seu marido; logo, a senhora sabia que ele iria morrer hoje!
Senhora – Oh! Não, não...
B. Car. – Algeme-a!
“THE END”
À censura implacável não agradavam historinhas inocentes como a que segue: “Um pároco que tinha arrecadado muito dinheiro na coleta, andava nervoso por não saber onde guarda-lo. Foi escondê-lo na sacristia e escreveu por cima do esconderijo: - Dominus est in ipso loco (o Senhor está neste lugar). Certo espertalhão furtou o tesouro, substituindo a inscrição por esta: - Ressurrexit, non est hic (ressuscitou, já não está aqui) .
Nosso censor, o Azeitona, achava que esta historinha era desrespeitosa à religião. Essa, ele perdeu, e a piadinha, quase sem graça, mas por pura picardia, foi publicada.
Muito atrasado nosso “supervisor”, lamentavelmente.
Algumas coisas não mudaram e permanecem atuais. Numa entrevista feita com o Sidinho, indagava-se sua opinião quanto aos políticos. Resposta do nosso entrevistado: “Minha impressão é de que existem bons políticos, mas, o conjunto aterroriza”. Resposta atualíssima...
Publicavam-se também artigos com temas muito chegados ao dia a dia dos estudantes. “... Por que cola o aluno? ‘Cola’ a princípio, e antes de mais nada, porque não lhes ensinaram o que se deve ensinar, nem como se deve ensinar; porque ele não estudou como se deve estudar; e assim por tudo isso, ele não aprendeu e, portanto não sabe; - e depois ‘cola’ por hábito, por vício, por esporte, por implicância, por má educação, por não querer ficar atrás e finalmente por falta de orientação...”
Profundo, não?...
Mais algum tempo, e chegaria o ano de 1958.
Coisa muito séria este 1958.
- Trecho de meu livro "Cheiro de Verão"
terça-feira, 5 de junho de 2012
71 - CONTRASTES
Comparada às de meus companheiros, minha casa era bastante humilde e este fato me deixava, não raramente, meditativo e muitas vezes inibido em convidar novos amigos a freqüentá-la.
No entanto, por mais requintada a casa que visitasse, nunca fui recebido com a atenção e o carinho que mamãe dispensava aos meus amigos.
Os lanches que ela servia ficaram famosos e sempre lembrados com ternura, ainda hoje, quando encontro com alguém remanescente daquela época.
Sidinho era um dos mais assíduos freqüentadores das sortidas mesas preparadas com esmero pela Dona Tininha, e tinha até o privilégio de levar, ainda lacrada, latas de doce feitas com leite-condensado postas a cozinhar junto com o feijão.
Com nossa briga política, como ficariam as coisas?
Pensando bem, aquela atitude truculenta não tinha sido muito democrática. Mas, também, não podíamos permitir uma traição a todo o esforço de um colegiado idealista, ávido de mudanças.
O tempo certamente se encarregaria de consertar aquele estrago...
Também as roupas que usávamos, eu e meus irmãos, não primavam por acompanhar a moda. Sempre muito limpas e passadas com capricho não escondiam um cerzimento, o desbotado pelo muito uso e, no meu caso, uma bainha demonstrando o aproveitamento de uma calça ou camisa já usada por alguém mais velho.
Os sapatos... Ah, os sapatos. Sempre com as pontas guarnecidas por chapinhas metálicas a proteger o solado, guardiãs infalíveis de um uso prolongado. Muitas meias-solas, ou mesmo solas inteiras, adiavam uma respeitável aposentadoria para aqueles andarilhos de muitas léguas.
Agora, os contrastes...
Médicos e dentistas: sempre os mais confiáveis, sem levar em conta o preço da consulta ou do tratamento. Colégios, cursos e professores particulares: os melhores e quantos fossem necessários. Na mesa, o filé mignon frequentava nossos pratos sem consultas à folhinha; tudo do bom e do melhor.
À medida que ia tomando consciência das dificuldades da vida, até entendia estas coisas e para dizer a verdade, orgulhava-me o esforço de papai e mamãe para tornar-nos cidadãos de primeira.
No entanto, em certas ocasiões, achava que uma roupinha mais moderna, um sapato novo ou uma camisa da moda fariam muito bem ao meu ego. Evitar certos ambientes passou a ser uma amarga rotina, pois julgava que não seria bem visto.
Lembrava-me, então, dos conflitos com “Meu Herói”. Nestas ocasiões, uma profunda tristeza me dominava e, novamente, sentia as desconfortáveis sensações de inferioridade.
Marcaram muito, estas comoções que machucavam para valer...
Em tempo: apesar de tudo, tínhamos duas empregadas: Dina, nascida Alexandrina de Souza e Kalú, nascida Carolina de Oliveira.
A Dina, mais antiga, acompanhou toda minha infância; Kalú, mais recente, foi trabalhar lá em casa quando a minha adolescência já chegara.
O marido da Dina, Seu Hilário, vulgo “Bole-Bole”, lixeiro da limpeza urbana, muito chegado a um “trago” tinha um respeito de “tirar-o-chapéu” quando se dirigia à Dona Tininha, que aliás muito ajudou na criação da Yara e do Joãozinho que sofriam das normais deficiências por serem filhos de um alcoólatra.
João chegou a trabalhar na Myrta, levado que foi por papai.
As duas, Dina e Kalú, vez por outra “aprontavam”, certamente causando muitas preocupações à mamãe, que jamais teve coragem de despedí-las.
- Trecho de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997
sábado, 2 de junho de 2012
70 - CONVERSA COM O PRESIDENTE
Por muitos dias durariam nossas comemorações, sobretudo considerando que aquele ano vinha sendo bastante promissor para os estudantes radicais de esquerda, quase sempre envolvidos na seqüência de greves que agitavam o país. Nossa vitoria evitaria o "pavoniar " deles pelo menos por algum tempo.
Naqueles primeiros anos de governo JK, o Partido Comunista, mesmo na ilegalidade, dispunha de uma liberdade de ação até então jamais desfrutada.
São de 1957 as greves dos 400 mil em São Paulo , dos transportes coletivos, ainda em São Paulo , dos ferroviários do Rio Grande do Sul, dos metalúrgicos do Rio de Janeiro, dos têxteis...
Dias antes do Congresso da A.M.E.S. o Distrito Federal sofrera demais com uma greve de ônibus. Com um motorista morto, a polícia totalmente alvoroçada, os estudantes em pé de guerra preocupavam seriamente o governo.
Como sempre, quem “pagava o pato” era o povo.
“Se o povo soubesse como são feitas as leis e as salsichas, ninguém mais dormiria sossegado”. Sábias palavras de Otto von Bismarck, o “Chaceler de Ferro”, 1888.
Juscelino chamou as lideranças estudantis ao Palácio do Catete - aqi ainda era a Capital da República e centro das desições nacionais -, para uma conversa decisiva: “Estamos numa situação extremamente delicada e eu quero lhes expor fatos de que eu tenho conhecimento, que evidentemente vocês não podem ter, porque nenhum de vocês é o Presidente da República... Não quero influir nas suas decisões, mas façam o que acharem melhor para o país. Se vocês acham que devem contribuir para minha queda do Governo, prossigam na greve, porque o desdobramento será este... Se vocês estão conscientes, participando desse processo, então vocês prossigam. Agora, se vocês não estão, tomem consciência. A decisão é de vocês, porque o que eu vou fazer seria exatamente, tenho certeza, o que vocês fariam, porque nós já temos compromisso com a nação”.
A partir daquela conversa, a greve começava a esvaziar-se.
De todas as maneiras, os estudantes sentiam-se vitoriosos, afinal haviam forçado o Presidente a recebê-los, reconhecendo, até certo ponto, sua força.
Mais um motivo para as nossas comemorações, afinal fora destes agitadores que havíamos tomado o poder.
O importante é que não só a política marcaria aquele final de ano.
Em 4 de outubro de 1957, a União Soviética lançava o primeiro satélite artificial do mundo o Sputinik I, que pesava 83 kg e circundava a terra em 96 minutos, quebrando o mito da supremacia americana e reformulando as atitudes internacionais, adaptando-as a padrões mais realistas.
Menos de um mês depois é lançado o Sputinik II levando ao espaço a cadelinha Laika.
Maria Ester Bueno tornava-se celebridade do tênis, vencendo o torneio internacional do Wimbledon, e no comércio, surgiam os primeiros supermercados adotando o sistema self service.
Finalmente, na tarde de 22 de dezembro, assisti no Maracanã o meu Botafogo ser Campeão Carioca, massacrando o Fluminense por 6 x 2, num campeonato que quase foi interrompido em setembro devido a um surto de “gripe asiática”, proveniente, provavelmente de Cingapura e que estava derrubando adultos e crianças.
Assisti este jogo com meu amigo Fadini, flamenguista ferrenho, que curvou-se, sem cerimônias, à classe do time-base da seleção brasileira, que seria Campeã do mundo pela primeira vez dali a poucos meses. Esse era o time: Adalberto, Tomé e Nilton Santos; Servílio, Beto e Pampolini; Garrincha, Didi, Paulo Valentin, Édson e Quarentinha.
Os gols do Botafogo: Paulo Valentim, cinco, e Garrincha.
Tarde da noite quando cheguei em casa, suado e totalmente afônico, aguardava-me um telegrama de minha madrinha: “Parabéns. Estrondosa Vitória. Tia Isa”.
O mundo sontinuava a girar
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