por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 2 de abril de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - Nº 97 - MEU NOVO HÓSPEDE

 


          Durante algum tempo segui religiosamente todos os conselhos e orientações do Dr. Pedro Siqueira. A coisa até que vinha funcionando bem e, durante algumas semanas, as forças pareceram voltar com boa dose de energia renovada.

          Eram bem agradáveis as aulas do período da  tarde no CEPES. Talvez a presença maciça de meninas enfeitava com graça um ambiente totalmente dominado por marmanjos no turno da noite. 

          A presença do Pedrinho gesticulando à porta dos fundas da sala me chamou atenção. Sinalizei com os ombros indicando ser impossível interromper uma aula sobre poliedros, poliedros convexos, poliedros regulares, Relação de Euler e assemelhados.

          O camarada estava aflito  continuando a gesticular com muito nervosismo. Não houve jeito: interrompi a aula pedindo desculpas e me dirigi à inquieta criatura.

         - "Vê se te manca!!!". Qual é o problema?

         - Essa sua turma é um "colírio"...

         - Cara, nessa altura a concentração da turma foi para o espaço. No caminho para cá ouvi o cochicho de "umas e outras" que conhecem você. Vamos manter o alto nível. legal?

        - Claro, claro. Agora se precisar de um novo professor é só me chamar Atenderei com todo o prazer...

        - Fala rápido!

        - O caso é o seguinte: aquela Dona Maria me expulsou da pensão, estou com toda minha bagagem ali no corredor.

         - E dai?

         - E dai que eu peço sua ajuda. Eu sei que há  uma vaga sobrando no seu apartamento. Certo?

          - Novamente!!! E dai, pô?...

          - Vou morar com vocês.

          - Quem disse?

          - Você, com certeza, vai dizer. No almoço falei com o Fernando Vaz que me garantiu que para ele estava tudo bem. Sinal verde!

           Rapidamente passou pela minha cabeça os fatos recentemente acontecidos e, eu não iria deixar meu amigo ao relento. Por outro lado sabia das aventuras de Dom Pedro Kassab...

          - Me diga só uma coisa, pois não posso perder mais tempo com conversa fiada. Por que Dona Maria  expulsou você da "Pensão Sete de Setembro".

           - Porque ela é maluca, ou você não sabia?

           - E você é um modelo de hóspede, pois não?

          - Sou um cara normal. 

          - Deve ter acontecido alguma coisa. Você não me engana e, não seria essa a primeira vez.

         -  Foi uma bobagem. Acredita em mim.

         - Qual bobagem? Já estou imaginando coisas...

         - Bobagem! Estou lhe dizendo. Um incidente sem consequências. Pode crer!...

        - Fala!

        - Dona Maria colocou um casalzinho bem novinho em "lua de mel" no quarto vizinho ao meu. Uma "joia" a noivinha e, por coincidência meu quarto tinha uma porta de ligação com o do casal.

        - Já estou imaginando...

        - Pois é. Arredando o armário que disfarçava a porta, descobri que pela fresta da porta eu via a cama do casal. Foi maravilhoso o cineminha. Ontem no entanto apareceu mais gente. Na hora "H" a porta se abriu e, com a pressão daquele peso todo e mais o tesão do pessoal, caímos todos em cima da cama dos pombinhos. A menina começou a gritar e Dona Maria apareceu.

        - Coisa boba, não é, evidentemente. Como fica a reputação da pensão?

        - Mas...

        - Claro que não, Pedrinho.

        - Você é muito "cheio de coisas"

        - Não vamos discutir agora. A noite nos falamos. Pega essa chave, tira cópia e me traga a original de volta. Já sabe você ocupa o beliche de cima. OK?

         - Sabia que você não ia me faltar.

         - Juízo!

          - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo em 2004.




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