por José Carlos Coelho Leal

sábado, 26 de abril de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 101 - UMA TRAGÉDIA SE APROXIMA

 



         Será muito penoso escrever as próximas linhas.

        Tenho um compromisso  comigo mesmo que deve ser respeitado, qual seja, percorrer todo meu passado e, nesse "inventário de saudades", devem constar, como assim tem acontecido, os bons e maus momentos que vivi.


        Voltemos à nossa narrativa.


        Numa sexta-feira, fins de outubro de 1964, apressei o passo para chegar o mais cedo possível ao apartamento pois no dia seguinte, às oito da manhã, tínhamos uma prova importante a prestar na faculdade.


        Para minha surpresa estavam todos já deitados e corria solto um papo meio sério.

        - Zé Carlos, foi bom você chegar: conte para o Pedrinho o que aconteceu neste fim de semana com teu colega do São José que estava em lua-de-mel em Teresópolis.


         - Falar de coisa triste nessa hora?


         - É importante. Temos que botar na cabeça do Pedrinho que esse hábito de se trancar todo no apartamento não é nada saudável.


          - Eu sinto frio porra! Muito frio. Não me acostumo com esse clima por nada. Claro que tenho que me proteger! Ou vocês acham que vou abordar os "brotinhos" da serra com o nariz escorrendo igual a um "bebê chorão"?!!!


         - Pedrinho, é claro que não. Agora, o que aconteceu com meus amigos foi muito triste.


         - Não me diga que você não sabe? saiu em todos os jornais de segunda-feira - arrematou o Fernando.


         - Segunda eu vim para cá e não vi mais  jornal algum. Afinal vivo muito ocupado...


         - Praticando seu esporte preferido, não é mesmo?


         - Poxa Fernando, tenho que aproveitar. Coloco uma roupinha bem "kar", calço minha "sapatorra" bem lustrada e vou à vida. O Zé Carlos é que está em outra. Trabalhando feito um touro para se casar. Para mim ainda é muito cedo para enfiar no dedo uma "bambolê-de-otário"! (*)


         - Presta atenção Pedrinho!


         - Fala Zé.


         - O Catí - Carlos Henrique - e sua noiva estavam na casa de veraneio, se não me engano da família dele, em Teresópolis, passando dias da lua- de-mel, sozinhos como é de praxe. Com todo aquele romance faram tomar banho juntos e. imagina-se muito longo, evidentemente. Devido ao frio trancaram-se todo e a consequência foi essa: morreram juntos. Intoxicados pelo gás de bujão. É de arrepiar...


        - E daí?


        - Igualzinho ao que você faz, Pedrinho.


        - Ahhhh!


        Depois a conversa foi diminuindo de ritmo  e, rapidamente. até eu, estava dormindo.



        (*) - Nesse parágrafo uso duas palavras que merecem uma explicação:


        - Kar - palavra criada pelo cronista social Ibrahin Sued de "O GLOBO" que significava elegante, bem-vestido, chique, "nos trinques".


       - Bambolê-de-otário: o mesmo que "aliança de casamento" que os noivos usam nos dedo anular da mão direita. O bambolê foi criado no Egito há cerca de 3.000 anos. Foi lançado com sucesso nos Estados Unidos em 1958. Era um aro de plástico que se fazia girar em volta da cintura. Com o desenvolver da brincadeira poder-se-ia fazê-lo girar em volta das pernas, pés, braços, pescoço e por ai vai. Inclusive utilizando-se vários bambolês com movimentos inversos entre si.


        - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" parcialmente escrito em Arraial do Cabo.


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