por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 91 - O DIA 31 DE MARÇO DE 1964 (3ª Parte)

 


        
          Em Petrópolis naquela manhã de 31 de março de 1964 as aulas foram normais tanto no Colégio Werneck como na Faculdade.

          Nas ruas assim como nas salas de aula as pessoas estavam um tanto inquietas e, os professores que deveriam voltar para o Rio abreviaram suas explanações, numa nítida manifestação da vontade de voltar para casa o mais rapidamente possível.

         No ar uma certa indagação!


         O almoço na Pensão Sete de Setembro, da Dona Maria (quase sempre uma dona de pensão se chama Dona Maria...), a frequência estava bem abaixo dos dias normais. Pelo salão ecoavam as mesmas conversas. Definitivamente a crise político-militar passava a preocupar a todos.


          À tarde e à noite a frequência nos colégios e no Curso foi bem abaixo do normal. O CEPES funcionou nomamlmente com aulas até ás dez para as onze.


          Terminada minha última aula ainda tive que rodar uma pequena apostila no mimeógrafo. Foi o tempo de fechar as janelas descer as escadas e trancar com o zelo de sempre a porta da rua. Faltava pouco para meia-noite.


          Ao chegar à Avenida XV me deparei com o desfilar de soldados envergando  uniformes de campanha, acompanhados de fuzis, cantis e o "diabo-a-quatro". 


          Restaurantes e Botequins restavam fechados. Ruas praticamente desertas. Pela primeira vez senti que a coisa era para valer. Acelerei o passo.


          Ao chegar á galeria do "Edifício Profissional" que dava acesso ao meu prédio, a surpresa desagradável: a lanchonete do Seu Rafael, onde todas as noites forrava meu estômago com, no mínimo um sanduíche misto-quente e um toddy-duplo gelado, estava fechada. 


         Triste início de madrugada, pensei, dormir com fome...


         Ao chegar ao apartamento ouço vozes. Abro a porta e constato a realidade: o pau estava comendo. meu amigo Luiz Edmundo, olhar fixo na parede, ouvia o rádio que transmitia discursos inflamados dos governadores da Guanabara, Minas e São Paulo, Carlos Lacerda, Magalhães Pinto e  Adhemar de Barros respectivamente. 


         No exato momento que passei a acompanhar as reportagens falava o Governador Lacerda que convocava com palavras candentes a reação do povo carioca que tomava conhecimento da ameaça de invasão do Palácio Guanabara comandada pelo Almirante Aragão (comunista convicto) e seus subordinados fuzileiros navais.

         As palavras de Lacerda, tal qual ouvi naquela histórica noite estão reproduzidas no tape:





          Sentindo toda a dramaticidade daquela hora histórica deixei o Luiz Edmundo na escuta e, fui verificar na cozinha nossas reservas técnicas de alimentos para enfrentar a crise que parecia estar chegando com muito vigor e sem previsão de tempo de duração.


          O resultado do inventário não foi nada animador: um ovo, uma lata de Leite Gloria solúvel abaixo da metade e, um vidro de Nescafé com no máximo três colheres de sopa de pó. Biscoitos: zero, Manteiga: zero, Talharim: zero e, zero e, zero. Fim...

          Desanimei. Voltei a ouvir a transmissão. Agora era o Governador Magalhães Pinto com um discurso menos inflamado que aquele do Lacerda e, nem por isso, menos dramático e preocupante.

          Tirei os sapatos, afofei o travesseiro, pensei um monte de bobagem, entreguei nas mãos de Deus nossa sorte,  deitei vestido como estava e, em poucos minutos, não ouvi nem vi mais nada... 

          Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2004.











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