por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

'"CHEIROS DA VIDA" - 92 - "O DIA 1º DE ABRIL DE 1964"





          O despertar no dia 1º de abril não foi tão cedo. Voltei à realidade pelas nove horas já passada.

          O rádio ainda ligado em baixo volume demonstrava que o Luiz havia permanecido na escuta por mais tempo. O primeiro pensamento me alertava para a necessidade de arranjar um modo de chegar ao Rio de Janeiro o mais brevemente possível numa clara manifestação do "espírito de sobrevivência". Nesses momentos era bom estar perto da família.


         Aumentei o volume do rádio para saber das últimas notícias  que apesar de contraditórias de uma emissora para outra dava para concluir que o processo de deposição de Jango vivia seus derradeiros momentos. Este som bastou para despertar meu amigo que ato contínuo colocou seus óculos para verificar o adiantado das horas.


         Um fato interessante que naquela madrugada Jango e Lacerda estavam separados por menos de duzentos metros. Jango pernoitara no Palácio das Laranjeiras e Lacerda, como exposto no capítulo anterior, no Palácio Guanabara, arqui inimigos tão próximos um do outro. 


         A última noticia que acompanhamos antes de deixar o apartamento dava conta que o Presidente começava a se deslocar.  com sua comitiva, rumo ao Aeroporto do Galeão com destino a Brasília protegido por escolta de soldados do exército e de marinheiros do corpo de fuzileiros navais. 


        Nosso destino: a rodoviária de Petrópolis. Muito tumulto e nenhuma notícia de saída de algum ônibus com destino ao Rio de Janeiro.


        Já devia passar das onze quando estacionou um ônibus da empresa Única com destino ao Rio que logo lotou sendo que em se tratando de uma situação de emergência foi permitido transporte de passageiros em pé. 


        Ao descermos a Serra de Petrópolis (naquela época a Estrada do Contorno funcionava com regime de mão dupla) cruzamos com vários caminhões  carregados de soldados armados. A cena lamentável foi a de que ao longo do trecho verificamos vários destes veículos quebrados, alguns até com motor queimando, incapazes de conseguir seguir viagem. Pensei comigo mesmo: se houver guerra civil nossas tropas não terão forças para ir muito longe...


         O motorista de nosso ônibus esclareceu aos passageiros, no momento do embarque que o ponto final provisório seria na calçada fronteira ao Gasômetro, no início da rua Francisco Bicalho. Foi isso que aconteceu. Eu e Edmundo seguimos a pé até a Praça da Bandeira e, de um botequim que permanecia aberto na rua do Matoso conseguir ligar para o Dr Ruy (seu pai). A carona foi providencial e após poucos minutos de espera seguimos para casa. Um alívio chegar e abraçar mamãe e papai.


         Com a televisão ligada na TV Rio papai estava acompanhando uma transmissão direta (por sorte da TV Rio suas instalações ficavam em frente aos portões do Forte de Copacabana, sendo possível a transmissão ao vivo da pseudo invasão do Forte que o então Coronel Montanha, instrutor da ECEME e um grupo de oficiais alunos de um golpe de mão e ocupou o Forte de Copacabana.


        A televisão transmitiu em primeira mão essa tomada do Forte ficando para os espectadores tratar-se de um herói. Depois veio a notícia que já há muitas horas o Forte havia aderido aos rebeldes. Tremenda gafe da TV Rio...


        À noite veio a notícia de que a Academia Miliar das Agulhas Negras sob o comando do General Médici também aderira ao movimente anti Jango e ainda acolheu as tropas do  II Exército sob o somando do General Amaury Kruel. Até então havia dúvida quanto à posição do II Exército. Durante a madrugada de 1 par 2 de abril as adesões foram crescendo numa rápida progressão anunciando que a resistência governamental provavelmente não teria apoio suficiente para resistir.


        No aconchego de minha casa, gozando as 

delícias de minha cama e o cheiro gostoso de meu travesseiro tive uma longa noite de sono profundo e reparador... Antes de deitar mamãe não esqueceu do meu copo de leite acompanhado de biscoitos variados.

        Muito bom estar e casa!


         Treco de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2004.



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