por José Carlos Coelho Leal
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
"CHEIROS DA VIDA" - 89 - O DIA 31 DE MARÇO DE 1964 - (1ª Parte)
Quando, no capítulo anterior, procurei analisar os motivos que me levaram, na época, a uma estafa bastante séria e, que teria desdobramentos ainda não relatados, não abordei uma dessas causas que passo a expor agora.
Certamente estou me referindo aos acontecimentos políticos que culminaram com o movimento da contra-revolução de 1964, liderada pelas forças militares e, apoiada entusiasticamente por grande parte do povo brasileiro, principalmente a classe média e, pela sociedade produtiva e organizada.
Tudo que aconteceu nos meses anteriores a 31 de março daquele ano tiveram grande influência para que eu chegasse aquele ponto . Otimista comigo mesmo pelas vitórias alcançadas nas coisas que havia planejado para realizar em Petrópolis sentia intimamente, por outro lado, que não podia deixar de ficar preocupado com os destinos do país, de nossos compatriotas e, em particular, com nossas famílias, amigos e o porvir de nossos futuros filhos e netos.
Passados tantos anos estou consciente que esse panorama dos acontecimentos contribuiu para aquele estado de estresse agudo.
Vinte anos após os militares entregarem o poder aos civis e ainda agora, com a chegada ao mais alto cargo da nação do Presidente Lula, voltei a imaginar que os pesadelos do início da década de sessenta ameaçam, novamente e seriamente retornar à vida publica brasileira.
Há pouco mais de um ano, um médico de Cabo Frio, mais um novo "velho" amigo que faço nessa bem-vinda Região dos Lagos, se dizia muito esperançoso com a presença de um autêntico líder popular na Presidência.
Disse-lhe então de minhas preocupações e que não comungava das mesmas esperanças. Agora, desgraçadamente, pelo "andar da carruagem" percebo que possivelmente eu estava certo. Meu "velho amigo" já começa a rever seu ponto de vista. Talvez com o passar do tempo as coisas melhorem.
Será?...
Acho mesmo que a minha geração tem a responsabilidade ímpar de testemunhar para os mais novos os verdadeiros fatos ocorridos no decorrer daqueles dias que culminaram em 31 de março de 1964.
Entre janeiro e março emblemáticos acontecimentos marcaram aqueles dias. Em Moscou, o Sr. Luis Carlos Prestes assegurava a Nikita Kruschov: "se a reação levantar a cabeça, nós a cortaremos de imediato"; Jango sancionava a nova lei remessa de lucros aprovada pelo governo; a FIESP se recusava em participar de um ato de solidariedade a Jango, proposta pela Confederação Nacional das Indústrias; Jango fechava a carteira de redesconto do Banco do Brasil para São Paulo e Rio Grande do Sul; em 13 de março aconteceu o Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, onde o Presidente João Goulart discursou para cerca de cento e cinquenta mil pessoas apresentando as propostas para mudanças estruturais no país com características puramente socialistas (comunistas) como a estatização das refinarias privadas de petróleo, a desapropriação de terras, inclusive as produtivas com mais de 600 hectares às margens das rodovias federais, das ferrovias e dos açudes.
Como reação, no dia 19 de março realizou-se em São Paulo a "Marcha da Família com Deus Pela Liberdade". Dela participam quinhentas mil pessoas.
No dia seguinte o General Castello Branco distribui uma "Circular Reservada" dando conhecer a intranquilidade e as indagações de seus subordinados quanto aos acontecimentos ocorridos nos dias que se seguiram ao "Comício da Central do Brasil". Nessa Circular Castelo manifestava sua real apreensão às ameaças para execução de uma reforma de base e à maior escalada das agitações e violências de rua. Acentuava que as funções militares não foram instituídas para a defesa de programas governamentais e, menos ainda, à propaganda, mas sim para garantir os poderes constitucionais.
No dia 24 tem início a "Rebelião dos Marinheiros" na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, reação à ordem dada pelo Ministro da Marinha, Sílvio Mota. A "Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais" era uma entidade constitucionalmente ilegal. Os fuzileiros navais ao invés de cumprir a ordem de prender os marinheiros aderiram aos revoltosos
Somando-se a este fato o Presidente João Goulart proibiu as tropas de invadir o Sindicato dos Metalúrgicos provocando a demissão do Ministro Silvio Mota.
Em 26 de março o ministro do Trabalho Amauri Silva conseguiu um acordo e os marinheiros foram presos e, conduzidos a um quartel. Horas depois Goulart anistiava todos os marinheiros presos.
Cresce a "Crise Militar". Entre a madrugada do 31 de março e o dia 1º de abril um Golpe de Estado derruba o Presidente João Goulart. Ao mesmo tempo o General Mourão Filho Comandante da 4ª Região Militar de Minas Gerais divulga uma proclamação contra Jango e a ameaça comunista que representava.
- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Agosto de 2004 na Cidade de Arraial do Cabo,
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