por José Carlos Coelho Leal

sábado, 22 de fevereiro de 2014

E X T R A - BREVE HOMENAGEM AO SAUDOSO COLEGA E AMIGO CARLOS MARQUES PAMPLONA


Nota - Este artigo foi escrito em 2005 pelo Engenheiro Carlos Marques Pamplona, engenheiro da Secretaria de Obras da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e precocemente falecido. Grande colega e amigo a quem afetuosamente homenageamos e, como nós. grande amante de nossa Cidade.

Em Decreto Nº27.957/2007 assinado pelo Prefeito Cesar Maia em 21 de maio de 2007, a cidade homenageou Carlos Pamplona, Carlão para os seu amigos. outorgando ao chamado "Mergulhão da Praça XV"  o nome de "Túnel Engenheiro Carlos Marques Pamplona" .


Tive a honra de ter sido seu chefe ao longo dos anos em que fui Diretor da Diretoria de  Engenharia Urbanística da Secretaria  Municipal de Obras - RJ,  na década de 80.

( Zé Karlos)

Estado de Inguaá-mbará


          Hoje, fazendo 440 anos, a Cidade do Rio de Janeiro se vê tema de debates sobre sua situação geopolítica. Poderiam deixá-la em paz, se meditassem em busca das soluções para os seus graves problemas.
          
          Do leme ao Pontal, do Pontal à Barra do Itaguai, da Barra do Itaguai ao Pico do Guandu, deste à foz do São João de Meriti e daí novamente ao Leme se desenham as divisas de nossa Cidade Maravilha. Divisas que querem elevar a interestaduais
.
          A Cidade, provavelmente, agradece tanta preocupação de seus defensores, de todos os lados, mas continua expondo, em vão, suas feridas incuráveis, enquanto, distraídos, debatem sobre o matiz de uma linha virtual sinuosa que a envolve.

          Antes, carece de boa política habitacional, de programa racional de transporte de massas, de política ambiental e saneamento básico, de programa permanente de saúde pública, de segurança e de todas as outras coisas que qualquer grande Metrópole necessita. Carece de bons homens públicos, principalmente.
Antes de sua fundação, ainda me 1502, quando os portugueses aqui desembarcaram e Gonçalo Coelho fundou a primeira feitoria às margens da baía de Ingua-mbará (enseada do rio-mar), os Tamoios já não apreciaram. Tanto que os franceses logo os seduziram e aqui permaneceram por cerca de quatro anos.

          A fundação da Cidade foi o primeiro ato para a consolidação do domínio português. O domínio da família Sá, que perdurou por 60 anos. Até hoje, todas as querelas na Cidade parecem traduzir interesses de dominação. Algumas famílias teimam em se perpetuar, mas, felizmente, a história é mais longa ainda. 
As saudades dos efêmeros quatorze anos do estado da Guanabara (1961-1975) devem resultar dos grandes investimentos realizados nesse período pelos Governos dos Senhores. Francisco Negrão de Lima e Carlos Lacerda.

           Nada mal para quem dispunha de recursos razoáveis e se amparava em projetos de ótima equipe técnica desenvolvidos para contemplar o Plano Diretor elaborado pelo ilustre arquiteto Alfredo Agache, ainda na gestão do Prefeito Prado Junior (1926-1930).

           É oportuno relembrar que, em setembro de 1957, o Sr. Francisco Negrão de Lima, Prefeito do Distrito Federal, encaminhava mensagem à Câmara de Vereadores propondo a criação de Plano de Realizações, a ser custeado por Fundo Especial de Obras Públicas, constituído por resultado de venda de terrenos, arrecadação de adicional de 10% sobre impostos de vendas e consignações, territorial, transmissão de bens intervivos, dividendos em participações em sociedades de economia mista, contribuições de melhoria e, acreditem, pedágios. Esse encaminhamento apelava para os contribuintes de forma “moderada e suave” mas de modo a propiciar os meios financeiros indispensáveis à execução dos empreendimentos programados.

          Por fim, o Prefeito sanciona a Lei nº 899 de 28 de novembro de 1957 que institui o Fundo Especial de Obras Públicas, aprova o Plano de Realizações e cria uma Superintendência de Urbanização e Saneamento, a saudosa SURSAN.

         O Plano de Realizações contemplava a Av. Beira Mar, Av. Norte Sul, Av. Perimetral, Av. Presidente Vargas, Av. Radial Oeste, Av. Radial Sul, o desmonte do morro de Santo Antonio, para a execução do atêrro da Glória e do Flamengo, ligação do cais do Porto-Copacabana, através do Túnel Catumbi-Laranjeiras, urbanização e saneamento da zona suburbana através de execução de avenidas canais Rio Faria, Rio Jacaré, Rio Joana, Rio Maracanã, Rio das Pedras, Rio Ramos, Rio Timbó, Rio Trapicheiros, Canal do Lucas, Canal do Mangue, Rio Acari, Rio dos Cachorros, Rio Dom Carlos, Rio Faleiro, Rio Irajá, Rio Méier, Rio Nunes, Rio Piraquara e Rio Tingui, execução de túnel General Glicério-Avenida Radial Sul, Túnel Barata Ribeiro-Raul Pompéia, Túnel Toneleros-Pompeu Loureiro e Sá Ferreira-Nascimento Silva.
Poucos desses projetos não foram implantados, outros foram adicionados, mas todos inspirados em Plano Diretor para a Cidade
.
           O sonho acabou com a extinção da SURSAN, em 1974, e foi definitivamente enterrado com a morte dos órgãos de planejamento, mais tarde. O Estado da Guanabara foi, apenas, um curto circuito na história da Cidade e, efetivamente, não foi o responsável pelas grandes transformações por que passou a Cidade.

           Logo a seguir, a fusão veio divertir as mentes para mais uma arbitrariedade do Ditador do momento, que não gostava do Rio, que não gostava dele, também. Esquecemos de protestar pela morte dos programas de ações e pela falta de agilidade dos órgãos públicos e preferimos espernear pela volta do Estado da Guanabara, um ente sem história.

           Além da falta de Plano Diretor (a Câmara dos Vereadores aprecia projeto há anos) e de uma Secretaria de Planejamento Urbano, a Cidade sofre dos mesmos males que outras cidades de regiões metropolitanas: insegurança, falta de saneamento, poluição, saúde pública deficiente, etc., nenhum mal original afeta a nossa Cidade.

          Em São Paulo não se fala em outra coisa, insegurança, saneamento deficiente, poluição ambiental, etc., etc., etc., mas nem por isso querem fundar um Estado de Piratininga.

          Sacar a nossa Cidade de seu contexto não promoverá o encaminhamento necessário para estas questões. Somente uma abordagem conjunta, entre os municípios metropolitanos, Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Duque de Caxias, São João de Meriti, Nova Iguaçu, Paracambi, Seropédica, Itaguai, etc., por intermédio de Comitês ou Consórcios das Cidades Metropolitanas permitirá o adequado enfrentamento das questões existentes.

         Separar, segregar, discriminar, sinônimos em meu dicionário.A desfusão é inimiga da solução. Não ao Estado da Guanabara, salve a SURSAN.

         Ou, se a saudade for insuportável, radicalizemos! Vamos à fase pré Mem de Sá, vamos logo para o Estado de Inguaá-mbará.




Em março de 2005.


Carlos Marques Pamplona
 




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