por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 21 de maio de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 106 - "QUE LOUCURA, QUE LOUCURA!"




            Num determinado momento acordei. Tinha sido um sono profundo, se bem que, nos momentos finais, percebi uma sucessão de cenas meio desconexas, vários sonhos interrompidos e, intercalados com pesadelos breves e sem sentido.

           Abri os olhos e custei um pouco a ter certeza de onde estava e das coisas que tinham acontecido. Notei ao lado da cama um suporte de metal para aplicação de soro na veia. Ato contínuo olhei para o meu braço coberto com um esparadrapo. Certamente haviam me aplicado soro. 


           Rapidamente vieram à minha memória os últimos acontecimentos de Petrópolis, a volta para casa e a acolhida do Dr. Rui. Certamente ele havia aplicado o soro para me restabelecer rapidamente enquanto dormia.

          Súbito, tentei me levantar. Fiquei completamente tonto. 


          Recomecei a operação, agora, lentamente. Já de pé cheguei até a janela e pela orientação do "velho sol" do meu quarto, notei que deveria ser um fim de manhã. Meio-dia, quem sabe?


          Desci a escada com zelo e, ao chegar à cozinha mamãe levou um susto, logo esbravejando: "Quem mandou o senhor sair da cama! Volte para lá!".

         - Calma mãe! Tenho que me vestir para ir ao enterro do Pedrinho.  Para que horas está marcado?


         - O senhor vai ficar deitadinho na sua cama. Daqui há pouco vou levar um chá com biscoitos de maizena, coisa bem leve, para começar e, um remédio que o Dr. Rui prescreveu para a hora que o senhor levantasse.

          - Mas, o enterro? Tenho que ir de qualquer maneira.

          - O enterro foi ontem - disse ela.

          - O quê???

          - A liberação do corpo de  seu amigo levou muito tempo e, só ontem, depois do translado para o Rio e do velório, pela manhã ele foi enterrado. Agora você tem que descansar.

          - Quer dizer que dormi, pelo menos, uns três dias diretos? Agora estou entendendo a história do soro.

          - Por aí. Agora chega de conversa mole.

          Não discuti mais. Obedeci e fui deitar, pensando: "que loucura meu Deus! Quanta coisa tem acontecido nos últimos tempos. Isso tem que ter um paradeiro. Que loucura, que loucura!" 

         - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2005.

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