por José Carlos Coelho Leal

domingo, 4 de maio de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 104 - INFELIZMENTE ACONTECEU...




           - Luiz Edmundo, felizmente você está por aqui.

          - Você está assustado!


          - Já e já você vai ficar também.


          - Você não está exagerando?


          - Infelizmente acho que não.


          - Afinal. o que aconteceu?


          - Estou vindo do apartamento. Ia voltar para o Rio com mamãe; ela decidiu apanhar umas roupas sujas para lavar  em casa e, assim, ajudar a colocar minha vida em dia.


           Contei então o caso da porta fechada por dentro, continuamente. Decidimos logo ir tirar o caso a limpo e fomos, acompanhados do Maurício, também professor do CEPES. Saímos acelerados sem muitos comentários. Sei, no entanto: cada um sentia intimamente que teríamos más notícias.


          Chegando à porta tocamos insistentemente a campainha. Nada! O rádio, sempre sintonizado na Rádio Jornal do Brasil, transmitia a Ave Maria com fazia tradicionalmente às dezoito horas. 


          Mais uma vez foi inútil o uso da chave.

          Os nossos olhos se cruzaram e o Edmundo tomou distância; com dois ou três fortes chutes com a sola do sapato, arrombou a porta. Imediatamente um forte cheiro de gás inundou o corredor. 


          Corri para as janelas e as abria de par em par. Uma rápida visão no quarto deu para verificar que uma calça, par de meias e uma camisa de malha estavam cuidadosamente dispostas, acompanhadas de um discreto perfume masculino,  como habitualmente fazia, sobre a cama do Pedrinho prontas para serem usadas após um bom banho. 


           Não tivemos coragem de entrar no banheiro. Pegamos o elevador e contamos o panorama que vimos, após o arrombamento da porta, ao zelador.

          - Será que é mais um?


          Automaticamente  pegou o elevador e subiu.


          Não demorou a descer.


          - Não há dúvida! É o Pedrinho e está morto!!!


          Ato continuo tomou do interfone e se comunicou com o síndico.


          - E a agora? - perguntei aflito.


          - Vocês permaneçam no apartamento até a polícia chegar.


          - Não é o caso e chamar o "pronto-socorro"?


          - Para quê? - respondeu friamente o zelador. O menino está morto - isso eu garanto. Digo mais: há bastante tempo... Este já é o terceiro caso neste prédio. Já tenho experiência disso...

          Docilmente abaixamos a cabeça e subimos até o apartamento. De longe ouvíamos a vozearia dos vizinhos agitados. Não faltava mais nada... 

          No andar alguns moradores mais afoitos, com lenços no nariz, aproximavam-se da porta arrombada para averiguar o que estava acontecendo. Ao notar nossa presença desceram pelas escadas rapidamente...

          Aproximamos do banheiro e vimos o Pedrinho caído, já com a cortina entre-aberta, segurando uma sandália havaiana, como alguém que estivesse saindo do box após o banho, com as mãos já rígidas. 

           O chuveiro continuava despejando água sobre seu corpo. Não mexemos em nada até que a polícia com seus peritos realizassem  o seu serviço. Com o ar ainda irrespirável ficamos aguardando, completamente mudos, o desenrolar dos acontecimentos junto às janelas do corredor onde o ar era mais saudável..

           Estávamos atônitos e completamente sem ação...

           - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2005 na cidade de Arraial do Cabo,
               -


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