por José Carlos Coelho Leal

sábado, 23 de novembro de 2013

"CHEIROS DA VIDA" - 79 - DESCOBRINDO A "MANCADA"

                                                                                                                    Após poucas horas de sono acordei com o relógio marcando quase seis e meia da manhã. Pulei da cama e entre a passagem pelo banheiro e, colocar-me apto para enfrentar mais um dia maluco havia passado pouco mais de uma dezena de minutos.

        Enquanto dava nó na gravata voltou à minha cabeça a derradeira ideia de horas atrás, quando já estava a pegar no sono. Aliás ideia mais do que evidente. Era pegar cópia do meu contrato, assinado em cartório, para ler as cláusulas de rescisão de contrato.

        Não havendo tempo para nada o coloquei num velho envelope e, a passos largos segui para minha aula das sete no Colégio Werneck; junto ia a intenção de no primeiro lapso de tempo livre, ler com cuidado minha escritura.

        Voltando ao antigo hábito enfrentei a calçada gelada da Avenida Quinze. Nada de passar pela falecida obra. Queria distância daquela joça. Ainda não havia digerido tudo que acontecera na véspera.

        Algo de errado havia acontecido. Estava ficando vacinado contra os “vivaldinos” da cidade. Um dia teria que aprender aquelas lições. Um dia...

        Ao passar pelo Magazine Gelly o termômetro marcava quatorze graus. A sensação térmica que sentia era de no máximo cinco.

        Foi o tempo de chegar à sala dos professores, ainda deserta, queimar a língua com um café quase fervendo que, felizmente a servente já depositara na mesa junto com as xicrinhas estampadas com o W do símbolo do colégio, enquanto me livrava do paletó e vestia o “guarda-pó” (naquele  tempo acho que ainda não era usado o termo “jaleco”) e, fechar o escaninho; depois, partir para o “sacrifício” .

       Ao fim da aula a rotina de sempre: livrar da pauta, assinando com rapidez a matéria dada e colocar o pé na rua em direção à faculdade. Ia esquecendo o envelope; voltei e retomei o caminho.

       Chegando à Faculdade, mesmo em jejum subi para sala para assistir uma horrenda aula de Metalurgia; ambos eram chatos tanto a matéria quanto o professor com aquela voz lenta e uníssona, ótima para ninar criancinhas irrequietas.

          Situação ideal  para ler aquela papelada e, chegar à conclusão que deveria receber em dobro o valor por mim pago até ali, pois a desistência havia sido unilateral.

         Apesar do linguajar sofisticado dos advogados, tudo parecia claro. Tempo de assinar a lista de presença e sair em disparada em busca de alguém que pudesse esclarecer o fato.

        Desci a escada numa velocidade espantosa e pedi refugio na Faculdade de Direito, na outra ala do prédio. Feitas as consultas, tudo estava esclarecido confirmando minha interpretação.

        Agora era hora de agir. Finalmente encontrara a resposta para minha indagação: “onde errei?”. Evidente premissa necessária, mas não suficiente para garantir um final feliz.

 - Trecho de meu livro “Cheiros da Vida” escrito em 2003.

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