Após poucas horas de sono acordei com
o relógio marcando quase seis e meia da manhã. Pulei da cama e entre a passagem
pelo banheiro e, colocar-me apto para enfrentar mais um dia maluco havia passado pouco mais de uma dezena de minutos.
Enquanto dava nó na gravata voltou à
minha cabeça a derradeira ideia de horas atrás, quando já estava a pegar no sono. Aliás ideia mais do que evidente. Era pegar cópia do meu contrato, assinado em
cartório, para ler as cláusulas de rescisão de contrato.
Não havendo tempo para nada o coloquei
num velho envelope e, a passos largos segui para minha aula das sete no Colégio
Werneck; junto ia a intenção de no primeiro lapso de tempo livre, ler com
cuidado minha escritura.
Voltando ao antigo hábito enfrentei a
calçada gelada da Avenida Quinze. Nada de passar pela falecida obra. Queria distância
daquela joça. Ainda não havia digerido tudo que acontecera na véspera.
Algo
de errado havia acontecido. Estava ficando vacinado contra os “vivaldinos” da
cidade. Um dia teria que aprender aquelas lições. Um dia...
Ao passar pelo Magazine Gelly o
termômetro marcava quatorze graus. A sensação térmica que sentia era de no
máximo cinco.
Foi o tempo de chegar à sala dos
professores, ainda deserta, queimar a língua com um café quase fervendo
que, felizmente a servente já depositara na mesa junto com as xicrinhas
estampadas com o W do símbolo do colégio, enquanto me livrava do paletó e
vestia o “guarda-pó” (naquele tempo acho que ainda não era usado o termo “jaleco”)
e, fechar o escaninho; depois, partir para o “sacrifício” .
Ao fim da aula a rotina de sempre:
livrar da pauta, assinando com rapidez a matéria dada e colocar o pé na rua em
direção à faculdade. Ia esquecendo o envelope; voltei e retomei o caminho.
Chegando à Faculdade, mesmo em jejum
subi para sala para assistir uma horrenda aula de Metalurgia; ambos eram chatos
tanto a matéria quanto o professor com aquela voz lenta e uníssona, ótima para
ninar criancinhas irrequietas.
Situação ideal para ler aquela papelada e, chegar à conclusão
que deveria receber em dobro o valor por mim pago até ali, pois a desistência
havia sido unilateral.
Apesar do linguajar sofisticado dos
advogados, tudo parecia claro. Tempo de assinar a lista de presença e sair em
disparada em busca de alguém que pudesse esclarecer o fato.
Desci a escada numa velocidade
espantosa e pedi refugio na Faculdade de Direito, na outra ala do prédio. Feitas
as consultas, tudo estava esclarecido confirmando minha interpretação.
Agora era hora de agir. Finalmente
encontrara a resposta para minha indagação: “onde errei?”. Evidente premissa
necessária, mas não suficiente para garantir um final feliz.
- Trecho de meu livro “Cheiros da Vida”
escrito em 2003.
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