por José Carlos Coelho Leal

domingo, 17 de novembro de 2013

"CHEIROS DA VIDA" - 78 - MAIS UMA...


        Mil Novecentos e Sessenta e Três estava chegando ao fim. Agora era toda concentração nas provas finais na faculdade para chegar ao 3º Ano, livre de dependências.
       
        Essa era uma tarefa difícil tendo em vista o ano árduo que passara; no Werneck, aulas (lembram-se: somente as minhas turmas começavam as aulas em horário especial, às sete horas da manhã), coordenação de matemática para o curso científico do Werneck, a direção bem como as aulas no CEPES, além da operação mudança de sede com obras, instalações, publicidade, empréstimos financeiros e muito mais.

        Somando-se a isso tudo vinham as aulas na faculdade assistidas sabe-se lá com qual assiduidade e atenção.

        Positivamente, o panorama não era nada promissor.

        Será que até o fim do ano aconteceriam mais problemas e surpresas?

       Adivinhões!!!

       Claro que aconteceria; pelo menos uma, e das grandes...

       Desde que comprei o apartamento mudei meu itinerário para ir ao meu Curso ou ao Colégio Werneck. Ao invés da Avenida XV de Novembro, passei a transitar pela Rua Dezesseis de Março, paralela a ela, visando acompanhar como estavam indo as obras de meu apartamento.

       Felizmente tudo indo melhor que esperava: rapidamente foram batidas as estacas, e logo a seguir começaram os serviços de aprumação das formas para a concretagem dos pilares da estrutura.

       Até que um dia (tem sempre um dia...) pararam de montar o estande de vendas luxuoso que indicava o início, em breve, das vendas abertas ao público.

       Depois percebi uma diminuição sensível no ritmo das obras até a paralisação total.
  
       Fiquei preocupado! Preciso procurar o “arquiteto afetado” que me vendera meu “sonho” para saber das coisas. Não foi preciso.

       Logo, logo, o “cara de pau” apareceu. Estava dando uma aula por volta das quatro da tarde quando o “infeliz” apareceu à porta da sala, fazendo gestos dramáticos e me convocando até ele.

        - Não vê que estou dando aula?!  Não dá para esperar um pouquinho?
        - Não dá não! O caso é mais sério do que você pensa. Mas tenho a solução “para livrar a tua cara”.
        - O quê a minha cara tem haver com isso?
        - Está vendo esse cheque? É a tua salvação. A nossa firma está numa situação calamitosa e, deve fechar por esses dias.
        - E esse cheque?
        - Corresponde ao total de tudo o que você pagou. Sei que você tem conta aqui no Banco Nacional de Minas Gerais, logo aqui em frente. Nossa firma também. Vamos lá que o gerente, que também te conhece, está nos esperando e, depositamos esse valor diretamente na tua conta, em dinheiro vivo e, você sai limpo, sem prejuízos, do negócio.
        - Mas...
        - Não vamos perder tempo. Avisa a turma que  aconteceu uma emergência e, você vai ter que se ausentar por quinze minutos. Não leva mais que isso!!!
        - Loucura!
        - O tempo urge!

        Nem lembro a desculpa que dei para os meus alunos; atravessamos a rua, chegamos ao Banco e imediatamente  concluímos a operação, sem antes eu ter dado uma daquelas "mancadas" que deveria ser aprendida para a vida toda.

         - Professor Leal, o senhor terá que endossar este cheque para que possa entrar, em dinheiro, na sua conta. Lembre que ele está nominal ao senhor.
        - Meio atordoado assinei no verso sem ler, ou indagar,  algo que estava escrito acima.

        De posse do recibo de depósito e, do extrato de minha conta já incluindo o novo valor creditado voltei ao Curso.

        Achava que tinha errado. Algo me dizia isso. Por outro lado, tinha salvo o dinheiro aplicado. No entanto, sentia que alguma coisa devia estar errada. Qual? Qual?!!!

        Fora tudo muito rápido. Onde teria errado? Onde?!!!

        E com que cara que iria dizer à Tania e, demais amigos que meu sonho tinha escoado pelo ralo...

        Estava triste, confuso e meio perdido.

        Nem sei como dei as aulas derradeiras do dia.

        Evidentemente contabilizei mais uma noite em claro na minha vasta conta corrente de “insônias”.

        Minha vontade era “encher de porrada” aquele “arquiteto afetado” de uma figa...



         - Trecho de meu livro “Cheiros da Vida” escrito em 2003 em Arraial do Cabo.

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