Mil
Novecentos e Sessenta e Três estava chegando ao fim. Agora era toda
concentração nas provas finais na faculdade para chegar ao 3º Ano, livre de
dependências.
Essa era uma tarefa difícil tendo em vista o ano árduo que passara; no Werneck, aulas (lembram-se: somente as minhas turmas começavam as aulas em horário especial, às sete horas da manhã), coordenação de matemática para o curso científico do Werneck, a direção bem como as aulas no CEPES, além da operação mudança de sede com obras, instalações, publicidade, empréstimos financeiros e muito mais.
Somando-se a isso tudo vinham as aulas na faculdade assistidas sabe-se
lá com qual assiduidade e atenção.
Positivamente, o panorama não era nada promissor.
Será
que até o fim do ano aconteceriam mais problemas e surpresas?
Adivinhões!!!
Claro
que aconteceria; pelo menos uma, e das grandes...
Desde
que comprei o apartamento mudei meu itinerário para ir ao meu Curso ou ao Colégio Werneck. Ao invés da Avenida XV de Novembro, passei a transitar pela Rua
Dezesseis de Março, paralela a ela, visando acompanhar como estavam indo as obras
de meu apartamento.
Felizmente tudo indo melhor que esperava: rapidamente foram batidas as
estacas, e logo a seguir começaram os serviços de aprumação das formas para a
concretagem dos pilares da estrutura.
Até que
um dia (tem sempre um dia...) pararam de montar o estande de vendas luxuoso que
indicava o início, em breve, das vendas abertas ao público.
Depois
percebi uma diminuição sensível no ritmo das obras até a paralisação total.
Fiquei
preocupado! Preciso procurar o “arquiteto afetado” que me vendera meu “sonho”
para saber das coisas. Não foi preciso.
Logo, logo, o “cara de pau” apareceu. Estava
dando uma aula por volta das quatro da tarde quando o “infeliz” apareceu à
porta da sala, fazendo gestos dramáticos e me convocando até ele.
- Não
vê que estou dando aula?! Não dá para
esperar um pouquinho?
- Não
dá não! O caso é mais sério do que você pensa. Mas tenho a solução “para livrar
a tua cara”.
- O
quê a minha cara tem haver com isso?
- Está
vendo esse cheque? É a tua salvação. A nossa firma está numa situação
calamitosa e, deve fechar por esses dias.
- E
esse cheque?
-
Corresponde ao total de tudo o que você pagou. Sei que você tem conta aqui no
Banco Nacional de Minas Gerais, logo aqui em frente. Nossa firma também. Vamos
lá que o gerente, que também te conhece, está nos esperando e, depositamos esse
valor diretamente na tua conta, em dinheiro vivo e, você sai limpo, sem
prejuízos, do negócio.
-
Mas...
- Não
vamos perder tempo. Avisa a turma que
aconteceu uma emergência e, você vai ter que se ausentar por quinze
minutos. Não leva mais que isso!!!
-
Loucura!
- O
tempo urge!
Nem lembro
a desculpa que dei para os meus alunos; atravessamos a rua, chegamos ao Banco e
imediatamente concluímos a operação, sem
antes eu ter dado uma daquelas "mancadas" que deveria ser aprendida para a vida toda.
-
Professor Leal, o senhor terá que endossar este cheque para que possa entrar,
em dinheiro, na sua conta. Lembre que ele está nominal ao senhor.
- Meio
atordoado assinei no verso sem ler, ou indagar, algo que estava escrito acima.
De
posse do recibo de depósito e, do extrato de minha conta já incluindo o novo
valor creditado voltei ao Curso.
Achava
que tinha errado. Algo me dizia isso. Por outro lado, tinha salvo o dinheiro aplicado. No entanto, sentia que
alguma coisa devia estar errada. Qual? Qual?!!!
Fora
tudo muito rápido. Onde teria errado? Onde?!!!
E com
que cara que iria dizer à Tania e, demais amigos que meu sonho tinha escoado
pelo ralo...
Estava
triste, confuso e meio perdido.
Nem
sei como dei as aulas derradeiras do dia.
Evidentemente
contabilizei mais uma noite em claro na minha vasta conta corrente de “insônias”.
Minha
vontade era “encher de porrada” aquele “arquiteto afetado” de uma figa...
- Trecho de meu livro “Cheiros da Vida”
escrito em 2003 em Arraial do Cabo.
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