Acordei cedo. Coisa rara nessas terras cercadas de água e muita beleza.
Normalmente isso acontecia em pleno transcurso de um sonho intenso que
despertasse uma forte emoção.
Assim
acontecera na manhã do atentado às Torres Gêmeas. Segundo os especialistas
sonhamos inúmeras vezes durante as horas de sono e, só recordamos aquele sonhado
imediatamente antes do despertar. Foi exatamente isso que acontecera.
Era
novamente criança e das vozes infantis que me envolviam ouvia-se:
- A brinca ou, a vera?
- A
vera!
-
Valendo o quê?
- Um
“Chica-Bom”.
- “Marraio
feridô sou rei” – gritei para todos ouvirem.
- "Acompanho!" - berrou alguém logo em seguida.
- "Acompanho!" - berrou alguém logo em seguida.
As
bolas de gude rolaram pelo chão levantando uma poeira fina ao longo de seu
trajeto. Como eu era "Marraio" fui o último a fazer o lançamento, logo depois do "Acompanho", o penúltimo.
Pensava comigo, nessa levei vantagem - tenho tudo para saborear meu "Chica".
O sonho prosseguiu e não conseguia
distinguir os meus parceiros de brincadeira nem o local exato da porfia. Após vários “tecos”, quando já sentia
as dificuldades de um jogo a vera, uma voz adulta, vinda não sei de onde,
fez-me despertar.
Fiquei sem saber do final do desafio...
Sempre nessas ocasiões acordava suado, estivesse frio ou não. Até hoje não encontrei uma explicação médica plausível para o problema. O fato que alguma emoção o sonho da ocasião vinha a afetar os meus sentimentos.
Naquele dia não fora diferente. Acordei emocionado pela beleza escondida no dia pós dia da infância, quando ainda não soara em nossos ouvidos a máxima: "a vida jamais foi feita para estar à toa".
Como era bom estar à toa.
A garotada de hoje nem de longe poderia imaginar nossos valores, nossos passatempos, nosso linguajar e nossas rotinas: tecar, bola ou búlica, "ultimo lá é mulher do padre", botões de galalite, botões de casca de coco talhado nas pedras brutas (verdadeiras esculturas).
E as brincadeiras: chicotinho-queimado, pique-bandeira, cabra-cega, bilboquê, caracol, as corridas com carrinhos de rolimã (feitos artesanalmente por cada um de nós) e por aí vai...
Os mais "avançadinhos" faziam cerol com vidro ralado pelas rodas do bondes ao trilhar a curva da Praça Gabriel Soares, bem em frente à nossa querida vila. Não gostava disso, pois transformava o espetáculo das pipas dançando no céu em um batalha sem vencedores. Não fazia o meu gênero, definitivamente.
Aí meus leitores poderão indagar: e o futebol? Onde entra nessa história?
Não entra!
Adorava futebol. No entanto era um perna-de-pau da melhor estirpe. Só era escolhido em último lugar para completar algum time. Um dia resolvi: pendurei as chuteiras, em definitivo, mesmo sem nunca tê-las tido...
Aí meus leitores poderão indagar: e o futebol? Onde entra nessa história?
Não entra!
Adorava futebol. No entanto era um perna-de-pau da melhor estirpe. Só era escolhido em último lugar para completar algum time. Um dia resolvi: pendurei as chuteiras, em definitivo, mesmo sem nunca tê-las tido...
Naquele tempo olhar a vida com "olhar tijucano" era algo diferente dos demais olhares. Não era por nada que a Praça Saenz Peña era um verdadeiro "multiplex" ao ar livre. Enfileiravam-se os cinemas: América, Carioca, Tijuquinha, Metro-Tijuca, Art-Palácio, Eskye, Olinda (o maior do Rio de Janeiro com aproximadamente 3.200 lugares) e, o "poeira" Santo Afonso, entre outros mais que foram aparecendo com o passar dos tempos (caso do Britânia, Bruni-Saenz Peña, Rio, Tijuca-Palace e Bruni-Tijuca).
Despertei batendo no peito com força e orgulho, quase gritando: "sou tijucano, sou tijucano...".
- Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo no transcorrer de 2003.
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