por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

CHEIROS DA VIDA – 72 – PLEBISCITO DE 1963 – PARLAMENTARISMO X PRESIDENCIALISMO

           
           Parecia ser um tormento. Imaginem: ser mesário numa Sessão Eleitoral a instalar-se dentro da Favela do Esqueleto, considerada das mais perigosas no Rio de Janeiro naquele início de década de sessenta. Positivamente não conseguia absorver a ideia.

         Tornar-se-ia, no entanto, uma experiência para jamais esquecer.
                                    
         Até então a única favela que conhecia era a do Morro do Salgueiro onde ultimamente minha mãe frequentava em busca da casa da Dina, nascida Alexandrina de Souza, nossa empregada com mais de vinte anos de casa.

         Portadora de uma recente diabetes, Dina, vez por outra faltava ao trabalho. Impossível comunicar-se naquela época.

         Mais outro dia de falta deixava mamãe preocupada. Daí vinha a convocação:

        - Vamos lá no morro ver o que está acontecendo com Dina.

         - Mãe, ela está medicada. Amanhã ela deve estar de volta.

         - Se você não puder ir subo o morro sem você.

         - Vamos lá mãe. Só que tem que ser um pé lá, outro cá. Caso contrário lá se vão minhas aulas.

         - Não vamos demorar! Lá íamos nós.

         Dina morava na parte mais alta, exatamente onde ficavam os barracos mais humildes. Diferentemente de hoje quando as favelas são constituídas de casas de alvenaria, naqueles dias eram barracos formados de tábuas de madeira superpostas e, telhas de zinco.

         No verão eram verdadeiras saunas.

         Morar assim era coisa muito sofrida e, cortava de cheio nosso coração ver tal espetáculo e o conformismo daquela gente.

         Em compensação ouvíamos palavras gentis ao cruzar aquelas vielas e, não raramente, nos ofereciam um copo d’água para refrescar a caminhada.

         Nada parecido com o que se vê hoje.

         Nada de violência.

         Apenas, em algum ou outro larguinho,  viam-se homens em volta de um caixote grande sentados em caixotes menores a jogar um carteado. Algumas garrafas de cerveja pelo chão denotavam que a folia já se prolongava.

        Usavam chapéu e os tiravam quando minha mãe os saudava. Alguns não tinham cara boa e bem poderiam ser ou, um “malandro” respeitado ou, um “batedor de carteiras” em repouso merecido após algumas horas de labuta. Nada mais justo...

       Na verdade iria conhecer uma nova favela, diferente do nosso Salgueiro, pois estava edificada numa área plana bem ao lado do Estádio do Maracanã.

       Todo meu preconceito dissipou-se logo nos primeiros passos após adentrar o Esqueleto. Muito sossego, quebrado aqui e acolá pelo alarido de crianças descalças e descamisadas a brincar com uma bola de meia ou, a jogar bolas de gude bem desgastadas pelo uso. 

        Apenas algumas poças d’água exalavam um cheiro nada agradável e, os mosquitos atrevidos não me davam boa acolhida.

        Logo alguém me informou onde ficava a Sessão Eleitoral, uma escola precária e, mal conservada, erguida bem ao meio da favela.

        Os demais mesários já haviam chegado e se conheciam de eleições anteriores. Receberam-me com elevada fidalguia.
    
        A Favela do Esqueleto tinha fama de violenta. Pelo menos, naquele dia, não foi isso que vi. A grande maioria dos moradores que se apresentavam ao Plebiscito demostrava um orgulho de estar participando de uma decisão de projeção nacional.

        Num certo momento, um senhor amulatado de cabeça quase branca, antes de colocar-se na posição correta na pequena fila que se formava, pediu licença a todos, dirigiu-se ao presidente da mesa e aos demais mesários, cumprimento-os com respeito. 

       O detalhe: trajava um terno bem surrado já com cerzidos em várias partes, calçava um sapato bem andado de duas cores tudo impecavelmente limpo, perfumado, “nos trinques” como se dizia então.

       Dirigiu-se a todos os presentes e disse com voz trêmula de emoção: “Hoje sou um cidadão igual a qualquer outro brasileiro e, tenho em minhas mãos o poder igual ao Presidente da República. Vou cumprir com gosto meu dever. Obrigado!”.

       Espontaneamente todos o aplaudiram. Ato contínuo voltou ao seu lugar na fila de espera.

       Vários moradores em solidariedade e reconhecimento pelo serviço que estávamos prestando vinham com refrescos e, até alguns salgadinhos para minorar nosso desgaste. Estas cortesias jamais conheceram os mesários na minha Sessão original na Tijuca, no bem instalado Colégio Baptista.

       Mais tarde outro fato insólito. Outro senhor, este bem mais velho que o primeiro, dirigiu-se à cabine com a cédula única para marcar “presidencialismo” ou “parlamentarismo” e, por detrás da cortina permaneceu.

        Todos ficaram apreensivos com o que poderia ter acontecido. O presidente fez menção de chamá-lo, porém o fiscal do Partido Trabalhista Brasileiro o impediu alegando poder ser caracterizado um ato de coerção sobre o eleitor.

        Passados mais alguns minutos de impasse o presidente reuniu os mesários e fiscais de todos os partidos e, então ficou decidido que o presidente poderia alertar ao eleitor oculto dentro da cabine.

       - Senhor Fulano de Tal tudo bem?

       - Tudo!

       - Alguma dificuldade?

       - Nada senhor. Apenas estou aguardando o senhor me chamar.

        - Senhor Fulano de Tal!

        - Pronto Senhor!

        - Pode sair e depositar o voto na urna.

        - Imediatamente Senhor Presidente. Muito Grato!

        Já era noite quando todos nós mesários, acompanhados de dois guardas da Polícia-Militar, nossos anjos-da-guarda durante todo o pleito entregamos a ata com a urna, mediante recibo,  na Seção Apuradora no Estádio do Maracanã.

        Depois um chopinho final num bar na Rua São Francisco Xavier, as despedidas e a volta para casa cansado e, com a gostosa sensação do dever cumprido.

        O resultado confirmou o que todos esperavam: a volta do regime presidencialista. 

        Após esses acontecimentos, a política foi entrando em crises e mais crises,  caminhando a passos largos para o desfecho de 31 de março de 1964.

        O Plebiscito foi realizado em 06 de janeiro de 1963 para quase 18 milhões de eleitores. Compareceram aproximadamente 12 milhões com o resultado: presidencialismo – 9.547.448 e parlamentarismo – 2.073.082 votos.

        Para encerrar, segue foto da cédula única usada na ocasião assinada por todos meus novos amigos, mesários componentes da Sessão Eleitoral instalada na "Favela do Esqueleto"





           Trecho do meu livro "Cheiros Vida" escrito em 2003 em Arraial do Cabo.



2 comentários:

  1. Muito boa a história que você narrou ! Me levou àquela época.

    Marcos

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    Respostas
    1. MARCOA
      NÃO É ATOA QUE EU APELIDEI ESSES LIVROS COMO MEU "INVENTÁRIO DE SAUDADES".
      OBRIGADO PELA FORÇA / UM BEIJO PARA SUZANA / ZÉ KARLOS

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