por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

CHEIROS DA VIDA - 74 - UM BRINDE AO SUCESSO

          
          Aquela semana parecia não terminar.
          Mesmo cansado quando chegava a casa passava longo tempo olhando a documentação, o memorial descritivo, o contrato de compra e o principal: a planta baixa do meu apartamento.
          Rabiscava num papel-manteiga, onde havia copiado o original, os futuros móveis, suas posições a ocupar em cada pedacinho daquele “palácio”. A cor das paredes, das portas, ou seriam enceradas? Os tipos de luminárias,  detalhe por detalhe. Assim pensava e assim sonhava até o sono me derrubar.
          Finalmente, sábado chegou. Ir à aula foi o mesmo que não, pois, a cabeça rodava a mil imaginando a alegria da Tania e de todos quando mostrasse a prova da minha primeira grande conquista.
         À tarde ainda teríamos aula de Tecnologia Mecânica com o querido mestre Miguel de Assis Vieira. De repente, apareceu em sala o Lucio, secretário da Escola, avisando que o Professor Miguel estava impossibilitado de subir a Petrópolis. Desejou um bom fim de semana e se retirou.
        Melhor notícia não podia existir.
        Finalmente, Rio de Janeiro e Tijuca...
        Passei pela padaria para dar um telefonema para Tania avisando que às sete horas estaria lá.
        - E as novidades?
        - Espera! À noite conto tudo.
        - Estou aflita para saber.
        - E eu para contar. À noite. Um beijo, tchau!
        Nem contei nada em casa. Papai certamente apoiaria minha decisão, mas, mamãe, viria com aquela tradicional ladainha com as não menos tradicionais qualificações: atirado, louco, sem juízo. Também viriam as frases feitas, como: “... esse menino quer abraçar o mundo com as pernas”.
        Melhor assim. Haveria tempo e modo para comunicar meu investimento.
        Pouco antes da hora combinada chequei à Morais e Silva, 19 e, por milagre, Tania já estava à minha espera no portão.
        Um abraço apertado e um beijo guardado a dias me deixaram animados para todas as novidades que tinha para contar.
        Mal cheguei à sala veio uma enxurrada de perguntas.  Seu Mario e Dona Nice, Tité (Dona Célia, tia da Tania), Carlos Alberto e Tania, naturalmente; pareciam uma verdadeira metralhadora giratória.
        Evidentemente não me fiz de rogado e esclareci todos os detalhes.
        Depois os abraços, desejos de boa sorte e no meio do papo apareceu um delicioso mousse de chocolate com biscoitos champanhe, especialidade da Tania e, para brindar, uma própria champanhe foi aberta e ouviu-se o tradicional tilintar de taças. 
        - Quer dizer que depois de casados vocês vão morar em Petrópolis? - indagou Dona Nice.
         Caramba! A coisa está séria. Até em casamento já se está falando como fato consumado. Não perdi a linha e aproveitei a oportunidade.
         - Não se preocupe Dona Nice. Caso o meu Curso continue prosperando, é por lá que devemos ficar. O apartamento tem dois quartos e um deles ficará reservado para hóspedes - respondi com naturalidade sem deixar transparecer minha emoção.
         - Assim está bom pois não posso ficar muito tempo longe da minha filhinha querida.
         - A Senhora e Seu Mario serão sempre bem-vindos.
         - Assim, sim!
         - Agora os fins de semana passaremos sempre aqui no Rio e a Senhora poderá desfrutar com calma da presença de sua filha.
         - Claro! E quando vierem os filhos?
         - Aí já terei um apartamento maior.
         - Se Deus quiser! - encerrou  minha futura sogra (acho que já podia trata-la assim)...
         Valeu a espera.
         Estava muito feliz e, noite alta, mais uma vez, não foi fácil pegar no sono, apesar do infinito cansaço que a agitação da semana tinha me causado. Recordei todos os acontecimentos que tinham ocorrido em minha vida desde a formatura no Científico e, comparando com os dois últimos, achei que, agora, estava realmente vencendo a batalha.

 - Trecho do meu livro Cheiros da Vida escrito em 2003 em Arraial do Cabo.



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