por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 29 de outubro de 2013

CHEIROS DA VIDA - 73 - FUGINDO DAS TREVAS

         Definida a volta ao regime de governo presidencialista, fazendo de João Goulart um presidente de fato do país, as esquerdas tomaram como seu esse galardão de vitória.

          Luiz Carlos Prestes, então secretário-geral do PCB,
da mesma forma se pronunciava, sem nenhum pudor: “Já estamos no Governo, só falta alcançar o Poder”.

          Esse era o clima de radicalização que se instalara, aliás, muito semelhante aos acontecimentos políticos que precederam à queda do regime ditatorial de 1945.

           Outra crise, essa atingindo a toda a população, era a 
crise de energia elétrica. Desde 1962 por ocasião da abertura do curso, ainda na sala do “almirante de barquinho de papel”, na Rua Marechal Deodoro, essa preocupação nos rondava, ao Ivan e a mim. Imagina ficar sem luz bem no transcorrer das aulas?

           Providenciamos a compra, naquela época, de vários
lampiões a querosene. Nem a falta de luz irá 
nos derrubar, pensava eu.
   
     Tola preocupação...

          Acompanhando o noticiário local descobri que Petrópolis era abastecida por duas empresas concessionárias diferentes: LIGHT e EFE - Empresa Fluminense de Energia. Para nossa sorte o curso estava na área da Light que não participava, sei lá por qual motivo, do racionamento daquele ano.

           Já no ano seguinte estávamos no CEPES – Rua Barão de
Tefé ai foi a vez da Light entrar no regime de racionamento.
Qual nossa nova área? Área da EFE já então denominada CELF – Centrais Elétricas  Fluminenses.

           Novamente escapávamos e o amaldiçoado racionamento
jamais nos atingiu. Muito bom.

           O clima político continuava cada vez mais “quente” e, as
palavras de ordem de Jango eram  sempre envoltas em
 “reformas”, principalmente as “Reformas de Base”.  Todas elas
embasadas num discurso nacionalista e, com ideologia claramente “socialista”, palavra mais amena para não dizer “comunista”.

          Afinal todo esse panorama surgira com a renuncia
 prematura, até hoje sem uma explicação cabal, de Jânio Quadros. Menos de nove meses no exercício da presidência. Seis milhões de eleitores que o elegeram, com imensa folga, ficaram “a ver navios”

          Aos domingos, quando não tinha alguma missão relacionada com o CEPES, lia com atenção o “Correio da Manhã”. Tomava então conhecimento das folclóricas manias de Jànio: os famosos bilhetinhos ( 1.554 editados durante o breve exercício do cargo), os blusões folgados, as alpargatas, os ridículos “slacks” que deveriam padronizar a vestimenta de todos os funcionários públicos gerando para o mundo uma imagem tropical.

          De todos os bilhetinhos apenas onze foram de elogios ou
homenagens. Por esses bilhetinhos eram dirigidas ordens como: dobrar em um ano a safra de amendoim, regulamentar o uso de maiôs das misses; ainda, proibição dos biquínis nas praias, das corridas de cavalos em dias úteis, das rinhas de galo, do lança-perfume e por ai vai...

         Um bilhete que ficaria marcado pela história demonstrava a grande suscetibilidade de Jânio, como a homenagem a Getúlio
Vargas dando esse nome à Usina de Volta Redonda apenas para
espicaçar Carlos Lacerda, que se tornara seu adversário.

        Só um detalhe: votei, em 1960, em Jânio Quadros (lembram-se do capítulo nº 28 “Embrulhadinhos um a um?).

        Pano ultrarrápido!...



- Trecho de meu livro “Cheiros da Vida” escrito em 2003 em Arraial do Cabo.

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