Parecia ser um tormento. Imaginem: ser mesário
numa Sessão Eleitoral a instalar-se dentro da Favela do Esqueleto, considerada
das mais perigosas no Rio de Janeiro naquele início de década de sessenta. Positivamente não conseguia absorver a ideia.
Tornar-se-ia, no entanto, uma experiência
para jamais esquecer.
Até então a única favela que conhecia
era a do Morro do Salgueiro onde ultimamente minha mãe frequentava em busca da
casa da Dina, nascida Alexandrina de Souza, nossa empregada com mais de vinte
anos de casa.
Portadora de uma recente diabetes,
Dina, vez por outra faltava ao trabalho. Impossível comunicar-se naquela época.
Mais outro dia de falta deixava mamãe preocupada.
Daí vinha a convocação:
- Vamos lá no morro ver o que está
acontecendo com Dina.
- Mãe, ela está medicada. Amanhã ela
deve estar de volta.
- Se você não puder ir subo o morro
sem você.
- Não vamos demorar! Lá íamos nós.
Dina morava na parte mais alta, exatamente
onde ficavam os barracos mais humildes. Diferentemente de hoje quando as
favelas são constituídas de casas de alvenaria, naqueles dias eram barracos formados de tábuas de madeira superpostas e, telhas de zinco.
No verão eram
verdadeiras saunas.
Morar assim era coisa muito sofrida e, cortava de cheio nosso coração ver tal espetáculo e o conformismo daquela
gente.
Em compensação ouvíamos palavras
gentis ao cruzar aquelas vielas e, não raramente, nos ofereciam um copo d’água
para refrescar a caminhada.
Nada parecido com o que se vê hoje.
Nada de violência.
Apenas, em algum ou outro larguinho, viam-se homens em volta de um caixote grande
sentados em caixotes menores a jogar um carteado. Algumas garrafas de cerveja
pelo chão denotavam que a folia já se prolongava.
Usavam chapéu e os tiravam quando minha mãe os
saudava. Alguns não tinham cara boa e bem poderiam ser ou, um “malandro” respeitado
ou, um “batedor de carteiras” em repouso merecido após algumas horas de labuta.
Nada mais justo...
Na verdade iria conhecer uma nova
favela, diferente do nosso Salgueiro, pois estava edificada numa área plana bem
ao lado do Estádio do Maracanã.
Todo meu preconceito dissipou-se logo nos
primeiros passos após adentrar o Esqueleto. Muito sossego, quebrado aqui e
acolá pelo alarido de crianças descalças e descamisadas a brincar com uma bola
de meia ou, a jogar bolas de gude bem desgastadas pelo uso.
Apenas algumas
poças d’água exalavam um cheiro nada agradável e, os mosquitos atrevidos não me
davam boa acolhida.
Logo alguém me informou onde ficava a
Sessão Eleitoral, uma escola precária e, mal conservada, erguida bem ao meio da
favela.
Os demais mesários já haviam chegado e
se conheciam de eleições anteriores. Receberam-me com elevada fidalguia.
A Favela do Esqueleto tinha fama de
violenta. Pelo menos, naquele dia, não foi isso que vi. A grande maioria dos
moradores que se apresentavam ao Plebiscito demostrava um orgulho de estar
participando de uma decisão de projeção nacional.
Num certo momento, um senhor amulatado
de cabeça quase branca, antes de colocar-se na posição correta na pequena fila
que se formava, pediu licença a todos, dirigiu-se ao presidente da mesa e aos
demais mesários, cumprimento-os com respeito.
O detalhe: trajava um terno bem
surrado já com cerzidos em várias partes, calçava um sapato bem andado de duas
cores tudo impecavelmente limpo, perfumado, “nos trinques” como se dizia então.
Dirigiu-se a todos os presentes e disse
com voz trêmula de emoção: “Hoje sou um cidadão igual a qualquer outro
brasileiro e, tenho em minhas mãos o poder igual ao Presidente da República.
Vou cumprir com gosto meu dever. Obrigado!”.
Espontaneamente todos o aplaudiram. Ato
contínuo voltou ao seu lugar na fila de espera.
Vários moradores em solidariedade e reconhecimento
pelo serviço que estávamos prestando vinham com refrescos e, até alguns
salgadinhos para minorar nosso desgaste. Estas cortesias jamais conheceram os
mesários na minha Sessão original na Tijuca, no bem instalado Colégio Baptista.
Mais tarde outro fato insólito. Outro
senhor, este bem mais velho que o primeiro, dirigiu-se à cabine com a cédula
única para marcar “presidencialismo” ou “parlamentarismo” e, por detrás da
cortina permaneceu.
Todos ficaram apreensivos com o que
poderia ter acontecido. O presidente fez menção de chamá-lo, porém o fiscal do
Partido Trabalhista Brasileiro o impediu alegando poder ser caracterizado um ato
de coerção sobre o eleitor.
Passados mais alguns minutos de impasse
o presidente reuniu os mesários e fiscais de todos os partidos e, então ficou
decidido que o presidente poderia alertar ao eleitor oculto dentro da cabine.
- Senhor Fulano de Tal tudo bem?
- Tudo!
- Alguma dificuldade?
- Nada senhor. Apenas estou aguardando o
senhor me chamar.
- Senhor Fulano de Tal!
- Pronto Senhor!
- Pode sair e depositar o voto na urna.
- Imediatamente Senhor Presidente.
Muito Grato!
Já era noite quando todos nós mesários, acompanhados
de dois guardas da Polícia-Militar, nossos anjos-da-guarda durante todo o
pleito entregamos a ata com a urna, mediante recibo, na Seção Apuradora no Estádio do Maracanã.
Depois um chopinho final num bar na Rua
São Francisco Xavier, as despedidas e a volta para casa cansado e, com a gostosa
sensação do dever cumprido.
O resultado confirmou o que todos
esperavam: a volta do regime presidencialista.
Após esses acontecimentos, a política foi entrando em crises e mais crises, caminhando a passos largos para o desfecho de 31 de março de 1964.
Após esses acontecimentos, a política foi entrando em crises e mais crises, caminhando a passos largos para o desfecho de 31 de março de 1964.
O Plebiscito foi realizado em 06 de
janeiro de 1963 para quase 18 milhões de eleitores. Compareceram aproximadamente
12 milhões com o resultado: presidencialismo – 9.547.448 e parlamentarismo – 2.073.082
votos.
Para encerrar, segue foto da cédula única usada na ocasião assinada por todos meus novos amigos, mesários componentes da Sessão Eleitoral instalada na "Favela do Esqueleto"
Para encerrar, segue foto da cédula única usada na ocasião assinada por todos meus novos amigos, mesários componentes da Sessão Eleitoral instalada na "Favela do Esqueleto"
Trecho do meu livro "Cheiros Vida" escrito em 2003 em Arraial do Cabo.

Muito boa a história que você narrou ! Me levou àquela época.
ResponderExcluirMarcos
MARCOA
ExcluirNÃO É ATOA QUE EU APELIDEI ESSES LIVROS COMO MEU "INVENTÁRIO DE SAUDADES".
OBRIGADO PELA FORÇA / UM BEIJO PARA SUZANA / ZÉ KARLOS