Fazia frio. Pensei comigo:
“hoje preciso jantar como gente grande”.
Acabei minha aula, desfiz-me
de meu guarda-pó e ato contínuo desci rapidamente a longa escadaria que me
levava à liberdade procurando evitar algum aluno retardatário que certamente me
prenderia por alguns minutos a responder indagações idiotas sobre a matéria
recém despejada com "muito zelo".
"Muito zelo"? Na verdade estava consciente que a desejada concentração para ministrar uma boa aula havia passado quilômetros longe de mim.
Precisava mesmo de uma fato novo para acabar bem aquela noite e, esquecer os lamentáveis tropeços das últimas horas.
Cantina Humberto? Majórica? Falcone?
"Muito zelo"? Na verdade estava consciente que a desejada concentração para ministrar uma boa aula havia passado quilômetros longe de mim.
Precisava mesmo de uma fato novo para acabar bem aquela noite e, esquecer os lamentáveis tropeços das últimas horas.
Cantina Humberto? Majórica? Falcone?
Falcone? Cantina Humberto?
Isso! Majórica. Um belo filé
irá recuperar minhas energias e por certo injetará algumas calorias em meu
debilitado e enregelado organismo.
-
Zé Carlos! Senta conosco.
-
Oi Anthon! Vou incomodar?
-
Absolutamente. Esses são meus sócios.
-
Prazer.
-
Estamos exatamente comemorando nosso próximo
lançamento: um prédio residencial de oito andares na rua onde você mora.
-
Na Dezesseis de Março?
-
Isso. Aliás, acho que o negócio poderá lhe interessar.
São apartamentos de dois quartos. Para você que está em vias de se casar nada
mais adequado.
-
Sonho!
-
Sonho qual nada. Não esconde o jogo. O CEPES está indo
de vento em popa.
Estamos falando com um empresário de sucesso.
Grande “vaselina”, pensei. Além do mais não estava bem certo, depois das últimas horas; seria eu o "grande empresário" ou um "farsante" travestido de professor.
-
Não é bem assim, respondi sem encarar ninguém.
-
Deixa de modéstia. E tem mais: mesmo que você não venha
morar em Petrópolis é um bom investimento. Inda mais quando comprado em pré-lançamento. Escolha
livre e preço de amigo.
O jantar farto regado por um
bom vinho acabou saindo de graça. Porém, sempre há um, porém; a semana corrente não findaria sem que eu fechasse negócio. Foram-se embora todas as minhas economias.
Afinal, pensando bem, era
mais um passo importante que estava dando. Era a vida que seguia, agora numa
cadência que começava a me agradar.
Senti-me feliz com a
decisão.
Emitido o cheque depois de assinado um monte de papelório, recebido o contrato devidamente assinado acrescido de um belo volume encadernado com uma variedade de documentos, certidões, especificações e a gravura da fachada do prédio a construir.
Tinha que sobrar um tempinho. Era terminar a segunda aula, atravessar a rua correndo, entrar na Telefônica e torcer para ter uma cabine vazia.
A hora era ruim, quase nove
da noite. Parecia que o mundo inteiro esperava esse momento para fazer ligação
interurbana. Talvez um monte de apaixonados iguais a mim.
-
Telefonista! Quero uma ligação para o Rio de Janeiro.
-
Qual o número?
-
28-5161
-
Um momento senhor.
O tempo passando. Quase dez
minutos. Finalmente:
-
Ligação para o Rio de Janeiro, cabine 4.
-
Alô! Tânia!
-
Eu sabia que era você.
-
Não tenho muito tempo.
-
Estou com saudades.
-
Eu também e muita. Sábado matamos essa saudade. Agora
escuta.
-
Quanta agitação!
-
Estou agitado sim. Tenho uma surpresa boa.
-
Adoro surpresa boa.
-
Comprei um apartamento.
-
Será que eu ouvi direito?
-
A ligação está péssima, como sempre, mas foi isso mesmo
que você ouviu.
-
Como foi isso?
-
Agora não dá para explicar. Sábado a gente conversa com
calma; levo planta, contrato e um monte de papelada para você ver.
-
Você é louco.
-
Sou louco por você.
-
Fala mais um pouco, amor.
-
Não dá. Esta na hora da minha aula e os alunos já devem
estar agitados. Um beijo e até sábado.
-
Um beijo.
-
É o nosso apartamento!
-
Quero ver. Te amo.
-
Eu também. No sábado conversamos. Um beijo
A geração de hoje nem de
longe pode imaginar a dificuldade de se fazer uma ligação entre cidades no
início da década de sessenta.
Dez minutos de espera
poderia ser considerado um prêmio de loteria.
Quando a ligação era clara e inteligível, milagre.- Trecho de meu livro "Cheiro da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2002.
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