Os anos que vivi em
Petrópolis, três e alguma coisa, foram de muita luta, correria contra o tempo e
uma inabalável vontade de vencer.
Vontade, coragem e confiança.
Vontade, coragem e confiança.
Nunca tive tanta certeza do
que queria e nada era empecilho para realização de meus planos e utopias.
Jamais durante toda a minha vida voltaria a ter coragem igual. Persistente,
eficaz, sem desvios ou hesitações.
Sobrava pouco tempo para gozar tudo de bom que um universitário poderia dispor numa cidade, ante então, sumamente badalada, agradável até, apesar do clima seguidamente pouco ameno
Durante todo o ano de 1962 somente em pouco mais de oitenta dias a chuva deu tréguas à cidade.
Sobrava pouco tempo para gozar tudo de bom que um universitário poderia dispor numa cidade, ante então, sumamente badalada, agradável até, apesar do clima seguidamente pouco ameno
Durante todo o ano de 1962 somente em pouco mais de oitenta dias a chuva deu tréguas à cidade.
Entre maio e agosto o frio
era de lascar e, somente uma vontade inquebrantável me faria saltar da cama
diariamente antes das sete, mesmo sem levar em conta, como sempre acontecia, na
véspera ter dormido madrugada já iniciada.
No início de 1963 o
Professor Carlos Alberto Werneck convocou-me para uma reunião de urgência.
Fiquei apreensivo.
Tinha motivos.
Tinha motivos.
Sabia que era considerado um
ótimo professor, muito competente mesmo, sem nenhuma modéstia. Mas um fato que
acontecera naquele mesmo janeiro que estava preste a findar poderia ter criado
algum mau-entendido.
É claro que um professor jovem
e forasteiro que subitamente começava a ganhar espaços deveria sofrer, como
sofri, uma surdina antipatia dos mestres tradicionais acomodados por muitos
anos de tediosa rotina. Não aceitavam tal concorrência.
Sem alarde demostravam seu
repúdio em pequenos episódios.
Na segunda quinzena de
janeiro, em pleno período de férias, o calendário previa a realização das
provas de segunda-época. Seriam duas datas: uma para a prova escrita e outra
para prova oral, separadas por poucos dias.
Férias partidas.
Férias partidas.
É claro que somente os novos
professores foram escalados.
Era o jogo sendo jogado.
Numa quinta-feira, madrugada
morna e doce do verão do Rio de Janeiro, acordei pouco antes das quatro; às
cinco já estava na Rodoviária Mariano Procópio embarcando num flexbol da Única.
Bem antes das sete estaria
na Cidade Imperial.
Sentei-me como de costume do
lado esquerdo num dos primeiros bancos. A brisa agradável temperava o macio
balançar do ônibus - aqueles ônibus tinham uma estabilidade inusitada.
Adormeci.
Despertei quando já
alcançávamos a Rua Monte Caseros. Quase sem passageiros sobrava-me espaço para
um robusto espreguiçar. Logo meus pensamentos voltaram à realidade do dia:
ministrar prova oral a uns malandros gazeteiros.
O pior: seriam desde os
maus-alunos mirins do primeiro ginasial até os marmanjos do último ano do
científico.
Súbito, uma tragédia me
despertou de vez.
Em marcha lenta
atravessávamos a aglomeração que se formara em torno de uma feira-livre.
Em velocidade acima do
normal, para aquela situação, um caminhão na pista oposta se aproximava. O
impacto foi inevitável: uma jovem senhora com sua criança abrigada ao colo
foram projetadas à distância.
Mortes horríveis.
As cenas, o som surdo do
baque dos corpos ao chão repetia-se em meus ouvidos. Um nó na garganta. As
imagens, os ruídos malsoantes, as imagens, as imagens...
Não era nenhum pesadelo; era
realidade.
Vida besta sem sentido, vida
besta sem valor, vida besta, injusta, vida besta...
Cheguei ao colégio.
Com gestos automáticos apanhei as pautas, os envelopes e os formulários para as atas.
Com gestos automáticos apanhei as pautas, os envelopes e os formulários para as atas.
Vida besta, vida besta, vida
besta...
Tomei uma decisão: abrupta e irreversível: ninguém
seria reprovado. Afinal éramos três examinadores, os outros que decidissem os
destinos daquela garotada. Eu não seria o seu algoz.
Vida besta, vida besta, vida
besta...
Por alguns dias aquelas
imagens e sons soturnos usurpavam meus pensamentos qual interminável cena de um
filme de horror.
Voltando à convocação
intempestiva para a enigmática reunião de emergência: tinha procedência minha
preocupação. Certamente o Werneck queria explicação para minha atitude
insólita. Aprovar todos os alunos? Cem por cento de aproveitamento?...
Tinha que me preparar para o
pior. Seria dispensado ou, no mínimo, receberia séria advertência. Não havia
outra alternativa.
Devia enfrentar a realidade.
A decisão de aprovar sem questionamentos tinha sido minha, talvez um tanto
imatura e provavelmente eivada de um paternalismo excessivo.
Novamente repetiu-se o ritual da viagem e, ao
passar pelo local do acidente, ratifiquei uma vez mais minha atitude sem maiores
indagações filosóficas. O discurso para defesa já estava alinhavado em minha
mente pronto para ser vomitado à primeira provocação daquele insensível
diretor.
- Como tem passado professor
Leal?
- Bem, graças a Deus.
- Aproveitando as férias?
Afinal temos tido um belo verão. - Na medida do possível.
Fala logo abominável
criatura. Estou pronto para desengolir toda minha revolta. Chega de rapapés!
- Professor Leal seu desempenho em nosso colégio tem sido
muito admirado por todos. O trabalho que o senhor tem
desenvolvido na cidade na preparação de nossos jovens para
a universidade é mais do que oportuno.
muito admirado por todos. O trabalho que o senhor tem
desenvolvido na cidade na preparação de nossos jovens para
a universidade é mais do que oportuno.
- Gentileza sua.
- É a pura verdade.
- Obrigado.
- Em vista desses fatos resolvemos indicar nosso
professor Leal, nosso matemático, para ser o coordenador de
Matemática para todo o 2º Grau.
Matemática para todo o 2º Grau.
Desabei...
- E mais: a direção do colégio decidiu que a turma do
terceiro-científico de engenharia terá aulas de matemática todos os dias. Cinco
aulas por semana.
- Agradeço sensibilizado suas palavras. Acontece que não
tenho mais horário livre.
- Chamarei o Professor Larry; ele resolverá as pendências
adaptando ao seu o horário dos demais professores.
- Mais uma vez agradeço, acho, no entanto, que não me
expressei corretamente. O problema não é do colégio e sim meu. Somando o
Werneck, a faculdade e meu curso, o CEPES, dentro do expediente normal não
tenho a mínima disponibilidade.
- E considerando-se o “fora do expediente normal?”.
- Só se minhas aulas forem marcadas para as 7 horas da
manhã.
- Assim será Professor.
- Mas aulas do colégio começam às oito.
- As suas, apenas as suas, começarão às sete. Estamos
combinados?
O que responder?
Não tive outra saída.
Aceitei.
Jamais fui questionado
quanto ao procedimento que adotei para com os alunos que prestaram exames de
segunda-época.
Nem pela minha consciência.
- Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraila do Cabo - final de 2002.
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