por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

- CHEIROS DA VIDA" - nº 68 - PRONTO PARA VOMITAR


                           

              Os anos que vivi em Petrópolis, três e alguma coisa, foram de muita luta, correria contra o tempo e uma inabalável vontade de vencer. 
           Vontade, coragem e confiança.
           Nunca tive tanta certeza do que queria e nada era         empecilho para realização de meus planos e utopias. Jamais durante toda a minha vida voltaria a ter coragem igual. Persistente, eficaz, sem desvios ou hesitações.
           Sobrava pouco tempo para gozar tudo de bom que um universitário poderia dispor numa cidade, ante então, sumamente badalada, agradável até, apesar do clima seguidamente pouco ameno
           Durante todo o ano de 1962 somente em pouco mais de oitenta dias a chuva deu tréguas à cidade.
           Entre maio e agosto o frio era de lascar e, somente uma vontade inquebrantável me faria saltar da cama diariamente antes das sete, mesmo sem levar em conta, como sempre acontecia, na véspera ter dormido madrugada já iniciada.
          No início de 1963 o Professor Carlos Alberto Werneck convocou-me para uma reunião de urgência.
          Fiquei apreensivo. 
          Tinha motivos.
          Sabia que era considerado um ótimo professor, muito competente mesmo, sem nenhuma modéstia. Mas um fato que acontecera naquele mesmo janeiro que estava preste a findar poderia ter criado algum mau-entendido.
         É claro que um professor jovem e forasteiro que subitamente começava a ganhar espaços deveria sofrer, como sofri, uma surdina antipatia dos mestres tradicionais acomodados por muitos anos de tediosa rotina. Não aceitavam tal concorrência.
         Sem alarde demostravam seu repúdio em pequenos episódios.
         Na segunda quinzena de janeiro, em pleno período de férias, o calendário previa a realização das provas de segunda-época. Seriam duas datas: uma para a prova escrita e outra para prova oral, separadas por poucos dias. 
         Férias partidas.
         É claro que somente os novos professores foram escalados.
         Era o jogo sendo jogado.
         Numa quinta-feira, madrugada morna e doce do verão do Rio de Janeiro, acordei pouco antes das quatro; às cinco já estava na Rodoviária Mariano Procópio embarcando num flexbol da Única.
        Bem antes das sete estaria na Cidade Imperial.
        Sentei-me como de costume do lado esquerdo num dos primeiros bancos. A brisa agradável temperava o macio balançar do ônibus - aqueles ônibus tinham uma estabilidade inusitada.
         Adormeci.
         Despertei quando já alcançávamos a Rua Monte Caseros. Quase sem passageiros sobrava-me espaço para um robusto espreguiçar. Logo meus pensamentos voltaram à realidade do dia: ministrar prova oral a uns malandros gazeteiros.
          O pior: seriam desde os maus-alunos mirins do primeiro ginasial até os marmanjos do último ano do científico.
          Súbito, uma tragédia me despertou de vez.
          Em marcha lenta atravessávamos a aglomeração que se formara em torno de uma feira-livre.
          Em velocidade acima do normal, para aquela situação, um caminhão na pista oposta se aproximava. O impacto foi inevitável: uma jovem senhora com sua criança abrigada ao colo foram projetadas à distância.
          Mortes horríveis.
          As cenas, o som surdo do baque dos corpos ao chão repetia-se em meus ouvidos. Um nó na garganta. As imagens, os ruídos malsoantes, as imagens, as imagens...
          Não era nenhum pesadelo; era realidade.
          Vida besta sem sentido, vida besta sem valor, vida besta, injusta, vida besta...
          Cheguei ao colégio. 
          Com gestos automáticos apanhei as pautas, os envelopes e os formulários para as atas.
          Vida besta, vida besta, vida besta...
          Tomei uma decisão: abrupta e irreversível: ninguém seria reprovado. Afinal éramos três examinadores, os outros que decidissem os destinos daquela garotada. Eu não seria o seu algoz.
          Vida besta, vida besta, vida besta...
          Por alguns dias aquelas imagens e sons soturnos usurpavam meus pensamentos qual interminável cena de um filme de horror.
          Voltando à convocação intempestiva para a enigmática reunião de emergência: tinha procedência minha preocupação. Certamente o Werneck queria explicação para minha atitude insólita. Aprovar todos os alunos? Cem por cento de aproveitamento?...
          Tinha que me preparar para o pior. Seria dispensado ou, no mínimo, receberia séria advertência. Não havia outra alternativa.
          Devia enfrentar a realidade. A decisão de aprovar sem questionamentos tinha sido minha, talvez um tanto imatura e provavelmente eivada de um paternalismo excessivo.
          Novamente repetiu-se o ritual da viagem e, ao passar pelo local do acidente, ratifiquei uma vez mais minha atitude sem maiores indagações filosóficas. O discurso para defesa já estava alinhavado em minha mente pronto para ser vomitado à primeira provocação daquele insensível diretor.
          - Como tem passado professor Leal? 
          - Bem, graças a Deus.
          - Aproveitando as férias? Afinal temos tido um belo verão.                - Na medida do possível.
           Fala logo abominável criatura. Estou pronto para desengolir toda minha revolta. Chega de rapapés!
- Professor Leal seu desempenho em nosso colégio tem sido
muito admirado por todos. O trabalho que o senhor tem
desenvolvido na cidade na preparação de nossos jovens para
a universidade é mais do que oportuno.
-  Gentileza sua.
-  É a pura verdade.
-  Obrigado.
-  Em vista desses fatos resolvemos indicar nosso professor Leal, nosso matemático, para ser o coordenador de
Matemática para todo o 2º Grau.
          Desabei...
-  E mais: a direção do colégio decidiu que a turma do terceiro-científico de engenharia terá aulas de matemática todos os dias. Cinco aulas por semana.
-  Agradeço sensibilizado suas palavras. Acontece que não tenho mais horário livre.
-   Chamarei o Professor Larry; ele resolverá as pendências adaptando ao seu o horário dos demais professores.
-   Mais uma vez agradeço, acho, no entanto, que não me expressei corretamente. O problema não é do colégio e sim meu. Somando o Werneck, a faculdade e meu curso, o CEPES, dentro do expediente normal não tenho a mínima disponibilidade.
-   E considerando-se o “fora do expediente normal?”.
-   Só se minhas aulas forem marcadas para as 7 horas da manhã.
-   Assim será Professor.
-    Mas aulas do colégio começam às oito.
-    As suas, apenas as suas, começarão às sete. Estamos combinados?
             O que responder?
             Não tive outra saída. Aceitei.
             Jamais fui questionado quanto ao procedimento que adotei para com os alunos que prestaram exames de segunda-época.
             Nem pela minha consciência.


             - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraila do Cabo - final de 2002.



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