por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 69 - ONDE ESTÁ O FERMENTO?...


                        


             1962 foi um ano de muita luta e pouco dinheiro.
           Em 1963, as coisas começavam a melhorar.
           No curso já funcionavam turnos pela manhã e à tarde, além do tradicional horário noturno.
           Com mais professores abrindo o leque das especialidades ampliavam-se os atendimentos com turmas preparatórias para os cursos de ciências econômicas, direito e medicina.
           E a novidade...
           A moda agora era ser “economista”. Rapidamente esgotaram-se as vagas. Muito bom para nós, péssimo para o Brasil.
           Atropelaram a história
           Os economistas alastraram-se rapidamente pelos órgãos públicos. Em decorrência foram criados pomposos órgãos com afetadas siglas. Rapidamente vicejou no país uma plêiade de profissionais de bom nível técnico e linguagem ininteligível para os pobres mortais. 
           Criou-se até uma língua hermética, o “economês”.
           Com péssima sensibilidade para o social e um desconhecimento profundo das necessidades e aspirações do indivíduo onde números, porcentagens as estatísticas e artísticos gráficos prevaleciam ao ser humano.
           Ao cidadão representado apenas por uma fria cifra sem alma passou-se a impingir planos, programas, metas e sei lá quais parafernálias mais.
           O futuro seria de fausto. Pelo menos era o que previam os mais insignes economistas tupiniquins.
           Os jornalistas começaram a exorbitar de suas funções de bem informar aderindo ao novo vernáculo.            
           Os leitores sem muito entender acabaram por adotar palavras nas conversas de todo dia num linguajar para “eruditos” que soava bonito: agregado monetário, âncora cambial, indexação, quase-moeda, taxa selic, viés, risco-país...
          Mais bonito ainda quando o idioma era do primeiro mundo: break-even-point, hedge, overnight, trade-off...
          E mais: programas e teorias que no fundo desmentiam o que pregavam e, cada vez mais eram cativos do capital especulativo e da ambição desmedida do capitalismo-selvagem. Assim veio o Fundo de Amparo ao Trabalhador e tais, culminando com o célebre Consenso de Washington, a pedra de toque do neoliberalismo, um absurdo que desmantelou de vez os países em desenvolvimento.
          Nunca se falou tanto em qualidade de vida e a vida ficou cada vez mais sem qualidade, cheia de frios números e a esperança sempre sendo empurrada para quando o bolo já crescido poderia ser dividido.
         Até hoje esperamos pelo fermento milagroso.
         O mais triste: de certo modo ajudamos a fabricar esses algozes, aborteiros de sonhos e ideais.
         Nada melhor par fechar essa crônica do que apresentar um pensamento do Economista Roberto Campos talvez o maior que este país já teve:
       

"Há três maneiras de o homem conhecer a ruína: a mais rápida é pelo jogo; a mais agradável é com as mulheres; a mais segura é seguindo os conselhos de um economista."
— Roberto Campos


         - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo dos nos de 2001, 2002 e verão de 2003.



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