por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 67 - MAIS PROBLEMAS PELA FRENTE...


          


               Não sei há quanto tempo estou afastado destas linhas.
          De repente um inesperado e patológico fastio afastou-me das recordações. Este exercício de lembrar é quase sempre prazeroso. Algumas vezes, no entanto, não o foi.
          O reviver fez-me bem em muitas ocasiões e, de certo modo, alimentou minha alma para esta quadra da vida muito marcante.
          Sem rodeios: “caiu a ficha”, como diz amiúde minha mulher; não estou aceitando a chegada célere da velhice.
          Os cabelos embranqueceram de vez, a saúde tem dado sinais repetidos de falência: primeiro foi a próstata que cresceu, operação em janeiro de 1998; depois foi a hérnia, operação em fevereiro de 1999.
          Numa ensolarada segunda-feira de agosto de 2001 depois de um dia agradável com um céu de um azul que só se vê em Arraial, cansado, mas com a alma leve após ter instalado meu computador e montado várias estantes de metal na garagem, na sauna e no anexo, uma súbita intoxicação me derrubou.
          Hemorragia intestinal, vômitos, desmaios e a pressão arterial indo a 7 x 4.
          Resultado: uma desidratação forte, anemia significativa e três dias de internação na Casa de Saúde Santa Helena em Cabo Frio.
          Cada vez mais se repetem as visitas ao cardiologista Dr. Newton, ao protologista Dr. Klaus, ao urologista Dr. Paulo, ao clínico Dr. Vicente e por ai vai.
          Tudo isso será tratado no seu devido tempo, se houver tempo é claro...
          O que interessa: não estou nada animado para enfrentar o que vem pela frente.
          Na verdade não me arrependo de quase nada que fiz durante esses pouco mais de 60 anos de vida. No entanto, se fosse me dada a fidalguia de viver de novo muitas coisas faria diferente.
          Disso estou certo.
          Dei muita importância ao trabalho, ao ganhar mais, ao comprar mais, em garantir o futuro e certamente esqueci muito do presente. esqueci muito de mim, me cobrei demais e não consegui desenvolver o dom  de perdoar qualquer falha ou deslize de mim mesmo....
          Não dei a devida atenção ao poema de Borges quando diz: “... Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente...”.
         Tantas vezes lido outras tantas ignorado. O doloroso é saber que não existirá o “outra vez uma vida”.
Dizem para mim: “ainda tens muito pela frente!”. Com o espírito abatido fica difícil acreditar em tal afirmativa.
         Há pouco mais de um mês meu filho Alexandre foi atropelado irresponsavelmente em Cabo Frio. Duas operações com muita dor e sofrimento. Chorei muito por dentro. Infelizmente não correram lágrimas. Cada vez mais tenho dificuldades de dar espaço ao choro molhado, aquele que alivia.
         Sofro calado com as dificuldades de Claudia na busca de um trabalho condigno à sua inteligência e formação, em suas dificuldades para criar Gabriela; sofro com  pena de minha neta em não ter os pais junto dela e me penaliza minha impotência para ajudar a resolver as dificuldades profissionais de Ricardo... 
         Resultado: acabo de chegar do Hospital Tijucor depois de uma crise cardíaca.
         Mais problemas pela frente: “... não foi enfarto. Algo, no entanto não está bem com seu coração...”, solenemente pronunciou-se o médico de plantão.
         Mais problemas pela frente...
   
         - Trecho de me livro "Cheiros da Vida" escrito provavelmente no verão de 2003.




Um comentário:

  1. ZK

    Eu digo aos meus filhos que a vida é a resultante de um sem número de vetores que variam suas amplitudes e ângulos a todo instante. Há momentos em que a maioria se alinha para o lado positivo... Aí a vida é um mar de rosas. Em contrapartida, as vezes, eles se alinham para o lado negativo. Aí a coisa pega ! O BOM É QUE ELES NÃO SOSSEGAM !!!
    Marcos

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