Não sei há quanto tempo
estou afastado destas linhas.
De repente um inesperado e patológico
fastio afastou-me das recordações. Este exercício de lembrar é quase sempre
prazeroso. Algumas vezes, no entanto, não o foi.
O reviver fez-me bem em
muitas ocasiões e, de certo modo, alimentou minha alma para esta quadra da vida
muito marcante.
Sem rodeios: “caiu a ficha”,
como diz amiúde minha mulher; não estou aceitando a chegada célere da velhice.
Os cabelos embranqueceram de
vez, a saúde tem dado sinais repetidos de falência: primeiro foi a próstata que
cresceu, operação em janeiro de 1998; depois foi a hérnia, operação em
fevereiro de 1999.
Numa ensolarada
segunda-feira de agosto de 2001 depois de um dia agradável com um céu de um
azul que só se vê em Arraial, cansado, mas com a alma leve após ter instalado
meu computador e montado várias estantes de metal na garagem, na sauna e no
anexo, uma súbita intoxicação me derrubou.
Hemorragia intestinal,
vômitos, desmaios e a pressão arterial indo a 7 x 4.
Resultado: uma desidratação
forte, anemia significativa e três dias de internação na Casa de Saúde Santa
Helena em Cabo Frio.
Cada vez mais se repetem as
visitas ao cardiologista Dr. Newton, ao protologista Dr. Klaus, ao urologista
Dr. Paulo, ao clínico Dr. Vicente e por ai vai.
Tudo isso será tratado no
seu devido tempo, se houver tempo é claro...
O que interessa: não estou
nada animado para enfrentar o que vem pela frente.
Na verdade não me arrependo
de quase nada que fiz durante esses pouco mais de 60 anos de vida. No entanto,
se fosse me dada a fidalguia de viver de novo muitas coisas faria diferente.
Disso estou certo.
Dei muita importância ao
trabalho, ao ganhar mais, ao comprar mais, em garantir o futuro e certamente
esqueci muito do presente. esqueci muito de mim, me cobrei demais e não consegui desenvolver o dom de perdoar qualquer falha ou deslize de mim mesmo....
Não dei a devida atenção ao
poema de Borges quando diz: “... Se eu
pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e
continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra
vez uma vida pela frente...”.
Tantas vezes lido outras
tantas ignorado. O doloroso é saber que não existirá o “outra vez uma vida”.
Dizem para mim: “ainda tens
muito pela frente!”. Com o espírito abatido fica difícil acreditar em tal
afirmativa.
Há pouco mais de um mês meu
filho Alexandre foi atropelado irresponsavelmente em Cabo Frio. Duas
operações com muita dor e sofrimento. Chorei muito por dentro. Infelizmente não
correram lágrimas. Cada vez mais tenho dificuldades de dar espaço ao choro
molhado, aquele que alivia.
Sofro calado com as
dificuldades de Claudia na busca de um trabalho condigno à sua inteligência e formação, em suas dificuldades
para criar Gabriela; sofro com pena de minha neta em não ter os pais junto
dela e me penaliza minha impotência para ajudar a resolver as dificuldades
profissionais de Ricardo...
Resultado: acabo de chegar do Hospital Tijucor
depois de uma crise cardíaca.
Mais problemas pela frente:
“... não foi enfarto. Algo, no entanto não está bem com seu coração...”,
solenemente pronunciou-se o médico de plantão.
Mais problemas pela
frente...
ZK
ResponderExcluirEu digo aos meus filhos que a vida é a resultante de um sem número de vetores que variam suas amplitudes e ângulos a todo instante. Há momentos em que a maioria se alinha para o lado positivo... Aí a vida é um mar de rosas. Em contrapartida, as vezes, eles se alinham para o lado negativo. Aí a coisa pega ! O BOM É QUE ELES NÃO SOSSEGAM !!!
Marcos