por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 18 de março de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 96 - O PRIMEIRO AVISO



          Apoiado no Pedrinho consegui aprumar o passo e, com certo esforço chegamos ao CEPES. Respirei fundo e consegui subir as escadas sem ajuda ou maiores problemas.

          Para mim encerrava-se naquele momento algo; nada mais do que um pequeno acidente de percurso.  Logo, logo estaria pronto para dar as minhas aulas da tarde no Colégio Werneck que começariam dentro de um pouco mais de meia-hora. Nada que um bom copo d'água gelada não resolvesse. 

          Nesse momento entrava no escritório o meu  grande amigo Mario Jorge que ultimamente fazia o papel de meu substituto. Sabendo com mais detalhes de tudo que se passava comigo, deu meia volta e desceu as escadas com rapidez.

          Perguntei ao Pedrinho: Onde esse maluco foi?

          - Não tenho a menor ideia!

          - Deixa de história pois, antes de descer, ele falou baixinho algo ao seu ouvido que não captei. Não morri ainda não! Já estou inteiro. Tudo já passou. Desembucha!

           - Ele foi ao telefone para chamar o SAMDU.

           - Definitivamente esse cara está "pancado". Chamar o "Pronto Socorro" para mim? Já estou bom, porra!!!

           Em poucos minutos chegava a ambulância e, a figura de um médico já conhecido apareceu à minha frente.

           - Dr. Pedro! O senhor por aqui? Qual o problema?

           - Eu é que pergunto. Qual a "traquinagem" que o senhor andou fazendo?

           Em mais uma coincidência, cumpre informar que o Dr. Pedro era pai de meu colega de faculdade Pedrinho Siqueira que igualmente ao Mario Jorge sabia de minhas aventuras em trabalhar demais. Estive várias vezes em sua casa e, por mais de meia dúzia de delas participei dos jantares em família.

           Sou muito grato a todas essas pessoas que me acolheram com bastante carinho naquela cidade. Coisa  de guardar no coração para sempre.

          Ato contínuo o Dr. Pedro Siqueira iniciou um exame minucioso. Pulsação, pressão, auscultou o peito e as costas, viu garganta, fundo de olho, mediu novamente a pressão, e por ai foi...

         - Menino! quando vai tomar juízo?

         - Como estou Dr. Pedro?

         - Olha para o Pedrinho: coradinho, bem disposto, perfumado, pronto para se chegar a qualquer "brotinho" da região serrana.

         - Como estou Dr. Pedro?

         - Calma! Aprenda com ele. Nesse passo você não vai muito longe não!...

         - Mas Doutor..?

         - Não tem nem mais e, nem menos. O senhor faça um favor de mudar seu ritmo. Deixa eu medir sua pressão do novo.

         - Outra vez?

         - Afinal, quem é o médico aqui?!!!

          Fiquei quieto e estendi mais uma vez o braço. Com todo cuidado executou a nova aferição.

          Terminada a medição, com muito vagar retirou o aparelho, se livrou do estetoscópio colocando tudo na sua maleta. Tomou da caneta e do receituário. Silêncio...

          - José Carlos você recebeu algumas ajudas divinas neste início de tarde. Em primeiro lugar a presença do Pedrinho que casualmente seguia atrás de, você e te amparou; caso contrário, a queda poderia ter graves consequências. Em segundo lugar a sua idade. Você teve um grande "pico de pressão" e, suas artérias resistiram bem a esse impacto. Agora, já passada mais de uma hora, sua pressão está a vinte um por quinze, quase dezesseis. Isso é muita coisa!

          - E qual o motivo disso tudo?

          - O mais provável é uma estafa aguda em vista o esforço dispendido nesses mais de dois anos. Pode ser também uma indigestão provocada pela sua saída súbita do almoço e, vinda rápida para cá. O certo é que você tem que alterar radicalmente seu modo de vida. Desacelerar seria a palavra certa. Ter um repouso melhor e uma alimentação mais controlada. Caso contrário...

         - Caso contrário?...

         - Você terá sérios aborrecimentos com sua saúde. Pode até arriscar o seu futuro. Aprenda com o Pedrinho. Pense nisso. Coloque um pouco de diversão na sua vida...

         - E hoje o que eu faço?

         - Nada. Tome esses remédios para pressão nos horários prescritos, descanse o máximo. Nada de compromissos por hoje. Certo?

         - É, não tem jeito mesmo! Vai sobrar para o Mario Jorge.

         - Amanhã quero te ver. O Pedro, meu filho, de dará uma carona até lá em casa e, se for possível, para você, amanhã você janta conosco. Mais devagar, mais devagar...

         - Obrigado Dr. Pedro.

         - Juízo. Você tem uma bela vida pela frente. Não jogue isso fora. Mais uma vez, juízo...

         Ganhamos, eu e o Mario Jorge, uma carona de ambulância até meu prédio. Mario comprou meus remédios e, ficou comigo até a chegada do Fernando. Passou o "bastão" para ele voltando para o CEPES para preparar as aulas da noite.

         Já quase dormindo, de olhos cerrados, comecei uma oração de agradecimento que não consegui terminar. Só acordei madrugada alta com o dia já clareando. Sentia-me bem.

          - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2004 na cidade de Arraial do Cabo

    

          

         

        


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