por José Carlos Coelho Leal
terça-feira, 11 de março de 2014
"CHEIROS DA VIDA" - 94 - O FINAL DA RESISTÊNCIA. A "MARCHA DA VITÓRIA".
Leonel Brizola, então Deputado Federal pelo Estado do Rio Grande do Sul, talvez o maior líder da revolução extremada de esquerda, bem como o General Ladário Pereira Teles, nomeado em 31 de março Comandante do III Exército, entendiam que havia possibilidade de uma resistência.
Porto Alegre se constituía na derradeira cidade que mantinha, aparentemente, irrestrito e fiel apoio ao Ex-Presidente João Goulart.
Cumpre observar, avaliando os dados históricos que, ao assumir o governo, João Goulart sentiu-se obrigado a definir uma resposta ao programa das esquerdas no Brasil que desde 1950 defendiam as chamadas "Reformas de Base".
Nessa ocasião um grupo do PTB, auto-nomeado de "nacional- revolucionário" seguia a liderança de Brizola. Ao longo do governo de Jango o prestígio político de Leonel Brizola no campo popular cresceu sobremaneira; nacionalista e de esquerda atuou sempre no sentido de pressionar o Presidente para acelerar as reformas programáticas, sobretudo a agrária que se não fosse feita por lei seria feita "na marra".
Essa frente chamada de "Frente de Mobilização Nacional" reunia uma coleção de entidades extremadas como: Comando Geral dos Trabalhadores - CGT, União Nacional dos Estudantes - UNE, Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria - CNTI, Pacto de Unidade e Ação - PUA, os subalternos das forças armadas como sargentos, marinheiros e fuzileiros navais por meio de sua associações, facções das Ligas Camponesas, grupos da esquerda revolucionária como a Ação Popular, Organização Revolucionaria Marxista - Política Operária, Partido Operário Revolucionário - Trotskista, e segmentos da extrema esquerda do PCB.
Muitos esquerdistas da época culpam Leonel Brizola por desgastar politicamente o governo de Jango devido a essa ação contínua e radical e, dese modo, provocando a ação do contra-golpe militar.
Voltando aos fatos que estavam sendo narrados, por motivo de segurança, o Governador Ildo Meneghetti deslocou-se para o interior, enquanto Brizola ocupava a Rádio Farroupilha com o apoio logístico do General Ladário. Nas transmissões sequenciais e contínuas incitava a população civil a resistir e defender Jango que já chegara à cidade vindo de Brasília.
Nesta altura a unidade do III Exército era uma quimera sendo que as guarnições de Santa Maria, Alegrete, Bagé e Uruguaiana deslocavam-se com destino a Porto Alegre com a missão de prender o General Ladário Teles.
Difícil a missão de Brizola pois, constatava-se que em todo o restante do país a Contra-Revolução já era consolidada e os líderes do movimento tratavam de institucionalizar o mais rapidamente possível, o seu domínio, sob a coordenação do novo Ministro da Gerra General Arthur da Costa e Silva escolhido pelo novo governo que passou a ditar as ordens iniciais.
No Rio de Janeiro as tentativas de reação com uma greve geral ficou restrita às estradas de ferro Central do Brasil e Leopoldina. Também resistiam as rádios Mayrink Veiga e Nacional em cadeia com o Rádio Farroupilha. A UNE permanecia ocupada por estudantes e comunistas leais a Jango que ao saberem de sua fuga para o sul, abandonaram sua trincheira de resistência.
Os cariocas desde a "Marcha da Família, com Deus pela liberdade" desejavam organizar manifestação semelhante. No entanto, Jango foi apeado do poder antes que tal evento pudesse acontecer.
Neste mesmo dia dois de abril, liderada ainda pelas mães de família e pelas mulheres em geral, aconteceu a "Marcha da Vitória" reunindo um milhão de pessoas. Dois tiros se ouviram no Leme. Este sinal fez explodir a euforia popular que o Rio de Janeiro, com sua mundialmente famosa Cidade Maravilhosa, até então, jamais vira.
Grupos mais exaltados incendiaram o prédio da UNE na Praia do Flamengo e, depois a sede do jornal "Última Hora" na Praça da Bandeira. Igualmente de festa era o clima na cidade de São Paulo e outras capitais. Caia por terra a exclamação do líder comunista Luis Carlos Prestes, dias antes:"Não estamos no governo, mas no poder"
Neste mesmo dia dois de abril João Goulart negou-se a continuar a resistência, rumando para local desconhecido no interior do Rio Grande do Sul. num ato responsável e merecedor de constar da História do Brasil, pois não queria provocar o derramamento de sangue numa gerra civil fratricida e trágica. No dia quatro Goulart exilava-se no Uruguai.
Brizola jamais viu com bom olhos essa atitude de seu cunhado. Sua ambição política era maior que um simples ato de coerência e humanidade. Nunca mais as relações entre os dois lembrou os bons tempos. Bons, para ele, Brizola...
Com o advento de Lula ao poder dificilmente a nova geração de meu país ouvirá essa versão dos acontecimentos, a verdadeira.
Eu sou testemunha. Eu vi e tenho convicção no que escrevo.
Trecho do livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2004
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