por José Carlos Coelho Leal
domingo, 2 de março de 2014
"CHEIROS DA VIDA" - 93 - DIA DOIS DE ABRIL DE 1964
A crise que já se arrastava praticamente desde a renúncia de Jânio Quadros parecia, a passos largos, chegar a um clímax sem prognósticos. Todo brasileiro consciente estava ansioso. Para mim só me satisfazia um resultado: a queda de Jango, a volta da ordem e o afastamento do perigo de transformar o Brasil numa republiqueta socialista (comunista).
Os acontecimentos se aceleraram após o Comício da Central do Brasil tramado pelas lideranças sindicais extremadas, bem como pelo repto radicalizante a João Goulart provocado pelos governadores Brizola do Rio Grande do Sul e, Miguel Arraes de Pernambuco.
Em certo momento do seu discurso do dia 13 Jango pronunciou em alta voz: "Os rosários da fé não podem ser levantados contra o povo". Referia-se às mulheres que em Belo Horizonte, de rosários nas mãos, impediram um discurso de Brizola em mais um comício radical.
Essas manifestações com o Rosário eram decorrentes da visita feita ao Brasil em 1963 pelo padre irlandês Patrick Peyton criador da "Cruzada do Rosário em Família" e que tinha por slogan "A família que reza unida, permanece unida". Em São Paulo a campanha obteve o maior sucesso chegando a reunir cerca de um milhão e meio de fieis no Vale do Anhangabaú.
A atuação do padre Peyton teve grande influência na participação de católicos nos movimentos para derrubar João Goulart do governo, sobretudo em virtude da incursão comunista que já fora vitoriosa anteriormente em Cuba.
Muitos historiadores se referem ao apoio que Padre Peyton teve do governo americano. Fala-se, inclusive, de aporte financeiro da Cia à "Cruzada do Rosário em Família". O certo é que o então Presidente Kennedy, não gostaria de repetir as falhas do "caso Cuba".
Baseada nesses fatos a freira Ana de Lourdes, neta de Rui Barbosa, em reunião com deputado paulista Cunha Bieno sugeriu uma "Marcha de Desagravo ao Rosário", com o apoio do Governo de São Paulo, de setores da Igreja Católica, da União Cívica Feminina e de todas as forças civis contrárias às ideias de Jango, decidiram realizar uma manifestação cívica de afirmação dos ideais de liberdade, e de repudio ao comunismo.
Tendo em vista a adesão ao movimento de setores não católicos, decidiu-se pelo nome "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", definindo-se o acontecimento para o dia 19 de março. dia de São José, padroeiro da família. Marcado para as 16 horas partiria a passeata de Praça da República até a Praça da Sé em São Paulo. A marcha reuniu 500.000 pessoas, número bem superior ao Comício da Central.
A delegação das empregadas domésticas gritavam palavras de ordem: "Um, dois, três, Brizola no Xadrez". Alunos do Colégio Mackenzie desfilaram cantando :"Olha a cabeleira do Brizola, bola. bola! Será que ele é reformista? Será que ele é comunista?".
Depois deste ato os acontecimentos foram se sucedendo vindo a culminar na madruga de 2 de março de 1964 quando o Congresso declarou vaga a presidência da República e o senador Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso empossou, em cerimônia apressada no Palácio do Planalto, o deputado Ranieri Mazzili, presidente da Câmara dos Deputados, como Presidente de República.
No mesmo dia 2 à tarde, uma quinta-feira, eu estava de volta a Petrópolis. A cada curva da estrada recordava a viagem da véspera, das apreensões que tomavam conta do meu íntimo. Em tão poucas horas parecia que o ar que se respirava era outro.
Naquela noite de quinta-feira o meu Curso, o CEPES, funcionou normalmente. A presença de alunos foi total, pois não havia tempo a perder. Nossa meta, agora, era o Vestibular de 1965.
Na politica a pergunta era outra: aconteceria as "eleições presidenciais de 1965"? ...
Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito ao longo do ano de 2004 na cidade de Arraial do Cabo.
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