por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 25 de março de 2014

terça-feira, 18 de março de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 96 - O PRIMEIRO AVISO



          Apoiado no Pedrinho consegui aprumar o passo e, com certo esforço chegamos ao CEPES. Respirei fundo e consegui subir as escadas sem ajuda ou maiores problemas.

          Para mim encerrava-se naquele momento algo; nada mais do que um pequeno acidente de percurso.  Logo, logo estaria pronto para dar as minhas aulas da tarde no Colégio Werneck que começariam dentro de um pouco mais de meia-hora. Nada que um bom copo d'água gelada não resolvesse. 

          Nesse momento entrava no escritório o meu  grande amigo Mario Jorge que ultimamente fazia o papel de meu substituto. Sabendo com mais detalhes de tudo que se passava comigo, deu meia volta e desceu as escadas com rapidez.

          Perguntei ao Pedrinho: Onde esse maluco foi?

          - Não tenho a menor ideia!

          - Deixa de história pois, antes de descer, ele falou baixinho algo ao seu ouvido que não captei. Não morri ainda não! Já estou inteiro. Tudo já passou. Desembucha!

           - Ele foi ao telefone para chamar o SAMDU.

           - Definitivamente esse cara está "pancado". Chamar o "Pronto Socorro" para mim? Já estou bom, porra!!!

           Em poucos minutos chegava a ambulância e, a figura de um médico já conhecido apareceu à minha frente.

           - Dr. Pedro! O senhor por aqui? Qual o problema?

           - Eu é que pergunto. Qual a "traquinagem" que o senhor andou fazendo?

           Em mais uma coincidência, cumpre informar que o Dr. Pedro era pai de meu colega de faculdade Pedrinho Siqueira que igualmente ao Mario Jorge sabia de minhas aventuras em trabalhar demais. Estive várias vezes em sua casa e, por mais de meia dúzia de delas participei dos jantares em família.

           Sou muito grato a todas essas pessoas que me acolheram com bastante carinho naquela cidade. Coisa  de guardar no coração para sempre.

          Ato contínuo o Dr. Pedro Siqueira iniciou um exame minucioso. Pulsação, pressão, auscultou o peito e as costas, viu garganta, fundo de olho, mediu novamente a pressão, e por ai foi...

         - Menino! quando vai tomar juízo?

         - Como estou Dr. Pedro?

         - Olha para o Pedrinho: coradinho, bem disposto, perfumado, pronto para se chegar a qualquer "brotinho" da região serrana.

         - Como estou Dr. Pedro?

         - Calma! Aprenda com ele. Nesse passo você não vai muito longe não!...

         - Mas Doutor..?

         - Não tem nem mais e, nem menos. O senhor faça um favor de mudar seu ritmo. Deixa eu medir sua pressão do novo.

         - Outra vez?

         - Afinal, quem é o médico aqui?!!!

          Fiquei quieto e estendi mais uma vez o braço. Com todo cuidado executou a nova aferição.

          Terminada a medição, com muito vagar retirou o aparelho, se livrou do estetoscópio colocando tudo na sua maleta. Tomou da caneta e do receituário. Silêncio...

          - José Carlos você recebeu algumas ajudas divinas neste início de tarde. Em primeiro lugar a presença do Pedrinho que casualmente seguia atrás de, você e te amparou; caso contrário, a queda poderia ter graves consequências. Em segundo lugar a sua idade. Você teve um grande "pico de pressão" e, suas artérias resistiram bem a esse impacto. Agora, já passada mais de uma hora, sua pressão está a vinte um por quinze, quase dezesseis. Isso é muita coisa!

          - E qual o motivo disso tudo?

          - O mais provável é uma estafa aguda em vista o esforço dispendido nesses mais de dois anos. Pode ser também uma indigestão provocada pela sua saída súbita do almoço e, vinda rápida para cá. O certo é que você tem que alterar radicalmente seu modo de vida. Desacelerar seria a palavra certa. Ter um repouso melhor e uma alimentação mais controlada. Caso contrário...

         - Caso contrário?...

         - Você terá sérios aborrecimentos com sua saúde. Pode até arriscar o seu futuro. Aprenda com o Pedrinho. Pense nisso. Coloque um pouco de diversão na sua vida...

         - E hoje o que eu faço?

         - Nada. Tome esses remédios para pressão nos horários prescritos, descanse o máximo. Nada de compromissos por hoje. Certo?

         - É, não tem jeito mesmo! Vai sobrar para o Mario Jorge.

         - Amanhã quero te ver. O Pedro, meu filho, de dará uma carona até lá em casa e, se for possível, para você, amanhã você janta conosco. Mais devagar, mais devagar...

         - Obrigado Dr. Pedro.

         - Juízo. Você tem uma bela vida pela frente. Não jogue isso fora. Mais uma vez, juízo...

         Ganhamos, eu e o Mario Jorge, uma carona de ambulância até meu prédio. Mario comprou meus remédios e, ficou comigo até a chegada do Fernando. Passou o "bastão" para ele voltando para o CEPES para preparar as aulas da noite.

         Já quase dormindo, de olhos cerrados, comecei uma oração de agradecimento que não consegui terminar. Só acordei madrugada alta com o dia já clareando. Sentia-me bem.

          - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2004 na cidade de Arraial do Cabo

    

          

         

        


segunda-feira, 17 de março de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 95 - COMEÇA UM NOVO DRAMA

          

              Para encerrar a rememoração dessa parte importante de nossa história, vivida por mim e por toda minha geração, fosse qual fosse a visão ideológica de cada um dos atores, seria bom destacar resumidamente tudo que aconteceu depois da deposição de Goulart.

          9 de abril de 1964 - Sob a supervisão do Comando  Supremo do Movimento Cívico-Militar foi baixado o Ato Institucional nº 1 que concedia ao Executivo poderes especias para cassar mandatos e suprimir direitos políticos por até dez anos, bem como decretar Estado de Sítio sem aprovação parlamentar. Esse Ato Institucional vigoraria até 31 de janeiro de 1966 e, mantinha as eleições presidenciais diretas marcadas para  03 de outubro de 1965.

         10 de abril de 1964 - São suspenso os direitos políticos de uma centena de pessoas, entre os quais João Goulart, Jânio Quadros, Miguel Arraes, Leonel de Moura Brizola. Luis Carlos Prestes, Samuel Wainer, Marechal Osvino Ferreira Castro, João Pinheiro Neto, Roberto Morena, Plínio Soares de Arruda Sampaio, Rubens Paiva, Moysés Lupion, Gilberto Mestrinho (estão misturados nestas listas ideólogos socialistas, comunistas e, corruptos reconhecidos por toda a nação). Como sempre, nos atos humanos, algumas poucas injustiças foram praticadas

          11 de abril de 1964 - Eleição pelo Parlamento do Presidente provisório do Brasil com mandato previsto para terminar no dia 01 de janeiro de 1966 (tendo em vista que permanecia marcada para 03 de outubro de 1965 as eleições diretas para Presidente de República). 

          Foi eleito o  General Humberto de Alencar Castelo Branco, principalmente por sua característica de "mediador" entre os militares da chamada "linha dura" e as facções tradicionais lideradas pelos Generais Aurélio de Lira Tavares e Golbery do Couto Silva. Também foram candidatos o General Amaury Kruel, apoiado pelo PTB  e o Ex-Presidente Dutra, apoiado por parte significativa do PSD.

          Um acordo entre a Escola Superior de Guerra  (ESG) e amplos setores do PSD liderado por Juscelino Kubstcheck garantiu a vitória de Castelo que recebeu 361 votos (123 do PSD, 105 da UDN e 53 do PTB). Houve, ainda,  72 abstenções (a maioria do PTB) e 37 ausências causadas, principalmente, devido ao atraso na posse dos suplentes dos parlamentares cassados.

          16 de abril de 1964 - A Aliança para o Progresso empresta quatro milhões de dólares para o Brasil;

          19 de junho de 1964 - A Câmara Federal aprova o projeto de Reforma Habitacional sendo, então, criado o Banco Nacional da Habitação - B.N.H;

          14 de julho de 1964 - A Aliança para o Progresso empresta mais 883 milhões de Dólares para o Brasil;

          13 de agosto de 1964 - Criado o PAEG - Programa de Ação Econômica do Governo;

          30 de novembro de 1964 - Aprovado o projeto que transforma a SUMOC  em Banco Central do Brasil.

          Mais calmo quanto à situação política, já naquele começo de abril voltei a me dedicar ao trabalho, agora com redobrado vigor.

          Posso agora recordar com mais detalhes o incidente já relatado capítulos atrás...

          Na verdade, não queria me preocupar, mas alguma coisa não estava bem comigo mesmo. Um sentimento de cansaço agudo me atingia todas as manhãs nas manobras de levantar da cama. Afinal dormia, no máximo, seis horas por noite. E repetia-se o ritual de todas as manhãs: vontade infinita de jogar o despertador pela janela.

          Durante as aulas da tarde um sono quase incontrolável dominava minha cabeça. Um café bem quente  e, bons goles de água gelada durante as aulas disfarçavam; eu fingia esquecer que algo deveria estar acontecendo. Não era hora de fraquejar pois muito ainda queria realizar naquela Petrópolis que tão bem me acolhera. 

          No início daquela tarde de fins de maio aconteceu o "aviso" para valer. Quando começava a atravessar a rua, em frente à Casa D'Ângelo, senti uma formigamento pelo corpo acompanhado de uma onda de calor que subiu rapidamente da ponta dos pés até invadir toda minha cabeça. Tonto,  ainda tentei dar alguns passos e subitamente tudo se apagou.

         Não sei quanto tempo durou aquele desmaio, talvez uma fração de segundo. Só lembro que felizmente, graças a Deus, um colega de faculdade procurara acelerar o passo para me alcançar pois previu que algo não estava bem comigo. Foi Deus que mandou o Pedrinho Kassab me segurar e impedir uma queda que poderia ter consequências bastante desagradáveis.

          Começava ali um novo drama que terá lances típicos, coincidências incríveis e tragédias reais dignas de um verdadeiro novelão televisivo. Isso será assunto para os próximos capítulos...

         - Trecho de mu livro !Cheiros da Vida" escito em Arraial do Cabo em 2004.

          

        

terça-feira, 11 de março de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 94 - O FINAL DA RESISTÊNCIA. A "MARCHA DA VITÓRIA".




          Leonel Brizola, então Deputado Federal pelo Estado do Rio Grande do Sul, talvez o maior líder da revolução extremada de esquerda, bem como o General Ladário Pereira Teles, nomeado  em 31 de março  Comandante do III Exército, entendiam que havia possibilidade de uma resistência.

         Porto Alegre se constituía na derradeira cidade que mantinha, aparentemente, irrestrito e fiel apoio ao Ex-Presidente João Goulart.


         Cumpre observar, avaliando os dados históricos que, ao assumir o governo, João Goulart sentiu-se obrigado a definir uma resposta ao programa das esquerdas no Brasil que desde 1950 defendiam as chamadas "Reformas de Base".


         Nessa ocasião um grupo do PTB, auto-nomeado de "nacional- revolucionário" seguia a liderança de Brizola. Ao longo do governo de Jango o prestígio político de Leonel Brizola no campo popular cresceu sobremaneira; nacionalista e de esquerda atuou sempre no sentido de pressionar o Presidente para acelerar as reformas programáticas, sobretudo a agrária que se não fosse feita por lei seria feita "na marra".


          Essa frente chamada de "Frente de Mobilização Nacional" reunia uma coleção de entidades extremadas como: Comando Geral dos Trabalhadores - CGT, União Nacional dos Estudantes - UNE, Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria - CNTI, Pacto de Unidade e Ação - PUA, os subalternos das forças armadas como sargentos, marinheiros e fuzileiros navais por meio de sua associações, facções das Ligas Camponesas, grupos da esquerda revolucionária como a Ação Popular, Organização Revolucionaria Marxista - Política Operária, Partido Operário Revolucionário - Trotskista, e segmentos da extrema esquerda do PCB.


          Muitos esquerdistas da época culpam Leonel Brizola por desgastar politicamente o governo de Jango devido a essa ação contínua e radical e, dese modo, provocando a ação do contra-golpe militar.

         Voltando aos fatos que estavam sendo narrados, por motivo de segurança, o Governador Ildo Meneghetti deslocou-se para o interior, enquanto Brizola ocupava a Rádio Farroupilha com o apoio logístico do General Ladário. Nas transmissões sequenciais e contínuas incitava a população civil a resistir e defender Jango que já chegara à cidade vindo de Brasília.


         Nesta altura a unidade do III Exército era uma quimera sendo que as guarnições de Santa Maria, Alegrete, Bagé e Uruguaiana deslocavam-se com destino a Porto Alegre com a missão  de prender o General Ladário Teles.


         Difícil a missão de Brizola pois, constatava-se que em todo o restante do país a Contra-Revolução já era consolidada e os líderes do movimento tratavam de institucionalizar o mais rapidamente possível, o seu domínio, sob a coordenação do novo Ministro da Gerra General Arthur da Costa e Silva escolhido pelo novo governo que passou a ditar as ordens iniciais.


         No Rio de Janeiro as tentativas de reação com uma greve geral ficou restrita às estradas de ferro Central do  Brasil e Leopoldina. Também resistiam as rádios Mayrink Veiga e Nacional em cadeia com o Rádio Farroupilha. A UNE permanecia ocupada por estudantes e comunistas leais a Jango que ao saberem de sua fuga para o sul, abandonaram sua trincheira de resistência.

          Os cariocas desde a "Marcha da  Família, com Deus pela liberdade" desejavam  organizar manifestação semelhante. No entanto, Jango foi apeado do poder antes que tal evento pudesse acontecer.

         Neste mesmo dia dois de abril, liderada ainda pelas mães de família e pelas mulheres em geral, aconteceu a "Marcha da Vitória" reunindo um milhão de pessoas. Dois tiros se ouviram no Leme. Este sinal fez explodir a euforia popular que o Rio de Janeiro, com sua mundialmente famosa Cidade Maravilhosa, até então, jamais vira.

         Grupos mais exaltados incendiaram o prédio da UNE na Praia do Flamengo e, depois a sede do jornal "Última Hora" na Praça da Bandeira. Igualmente de festa era o clima na cidade de São Paulo e outras capitais. Caia por terra a exclamação do líder comunista Luis Carlos Prestes, dias antes:"Não estamos no governo, mas no poder"

        Neste mesmo dia dois de abril João Goulart negou-se a continuar a resistência, rumando para local desconhecido no interior do Rio Grande do Sul. num ato responsável e merecedor de constar da História do Brasil, pois não queria provocar o derramamento de sangue numa gerra civil fratricida  e trágica. No dia quatro Goulart exilava-se no Uruguai.

        Brizola jamais viu com bom olhos essa atitude de seu cunhado. Sua ambição política era maior que um simples ato de coerência e humanidade. Nunca mais as relações entre os dois lembrou os bons tempos. Bons, para ele, Brizola...

         Com o advento de Lula ao poder dificilmente a nova geração de meu país ouvirá essa versão dos acontecimentos, a verdadeira.

         Eu sou testemunha. Eu vi e tenho convicção no que escrevo.

        Trecho do livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2004

domingo, 2 de março de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 93 - DIA DOIS DE ABRIL DE 1964




          A crise que já se arrastava  praticamente desde a renúncia de Jânio Quadros parecia, a passos largos, chegar a um clímax sem prognósticos. Todo brasileiro consciente estava ansioso. Para mim só me satisfazia um resultado: a queda de Jango, a volta da ordem e o afastamento  do perigo de transformar o Brasil numa republiqueta socialista (comunista).

          Os acontecimentos se aceleraram após o Comício da Central do Brasil tramado pelas lideranças sindicais extremadas, bem como pelo repto radicalizante a João Goulart provocado pelos governadores Brizola do Rio Grande do Sul e, Miguel Arraes de Pernambuco.


          Em certo momento do seu discurso do dia 13 Jango  pronunciou em alta voz: "Os rosários da fé não podem ser levantados contra o povo". Referia-se às mulheres  que em Belo Horizonte, de rosários nas mãos, impediram um discurso de Brizola em mais um  comício radical.


          Essas manifestações com o Rosário eram decorrentes da visita feita ao Brasil em 1963 pelo padre irlandês Patrick Peyton criador da  "Cruzada do Rosário em Família" e que tinha por slogan "A família que reza unida, permanece unida". Em São Paulo a campanha  obteve o maior sucesso chegando a reunir cerca de um milhão e meio de fieis no Vale do Anhangabaú.


          A atuação do padre Peyton teve grande influência na participação de católicos nos movimentos para derrubar  João Goulart do governo, sobretudo em virtude da incursão comunista que já fora vitoriosa anteriormente em Cuba.


          Muitos historiadores se referem ao apoio que Padre Peyton teve do governo americano. Fala-se, inclusive, de aporte financeiro da Cia à "Cruzada  do Rosário em Família". O certo é que o então Presidente Kennedy, não gostaria de repetir as falhas do "caso Cuba".

         Baseada nesses fatos a freira  Ana de Lourdes, neta de Rui Barbosa, em reunião com deputado paulista Cunha Bieno sugeriu uma "Marcha de Desagravo ao Rosário", com o apoio do Governo de São Paulo, de setores da Igreja Católica, da União Cívica Feminina e de todas as forças civis contrárias às ideias de Jango, decidiram realizar uma manifestação cívica de afirmação dos ideais de liberdade, e de repudio ao comunismo. 


         Tendo em vista a adesão ao movimento de setores não católicos,  decidiu-se pelo nome "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", definindo-se o acontecimento para o dia 19 de março. dia de São José, padroeiro da família. Marcado para as 16 horas partiria a passeata de Praça da República até a Praça da Sé em São Paulo. A marcha reuniu 500.000 pessoas, número bem superior ao Comício da Central.


         A delegação das empregadas domésticas gritavam palavras de ordem: "Um, dois, três, Brizola no Xadrez".  Alunos do Colégio Mackenzie desfilaram cantando :"Olha a cabeleira do Brizola, bola. bola! Será que ele é reformista? Será que ele é comunista?".


          Depois deste ato os acontecimentos foram se sucedendo vindo a culminar na madruga de 2 de março de 1964 quando o Congresso declarou vaga a presidência da República e o senador Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso empossou, em cerimônia apressada no Palácio do Planalto, o deputado Ranieri Mazzili, presidente da Câmara dos Deputados, como Presidente de República. 


         No mesmo dia 2 à tarde, uma quinta-feira, eu estava de volta a Petrópolis. A cada curva da estrada recordava a viagem da véspera, das apreensões que tomavam conta do meu íntimo. Em tão poucas horas parecia que o ar que se  respirava era outro.


          Naquela noite de quinta-feira o meu Curso, o CEPES, funcionou normalmente. A presença de alunos foi total, pois não havia tempo a perder. Nossa meta, agora, era o Vestibular de 1965.

     
          Na politica a pergunta era outra: aconteceria as "eleições presidenciais  de 1965"? ...

          Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito ao longo do ano de 2004 na cidade de Arraial do Cabo.

E X T R A - ARTIGO PUBLICADO NO "O ESTADO DE SÃO PAULO" DIA 26 DE FEVEREIRO



RICARDO VÉLEZ RODRÍGUEZ

Há 50 anos eclodia a intervenção militar de 1964. Embora cogitada inicialmente como uma correção de rumo na desastrada ladeira por onde havia enveredado o populismo janguista, o regime castrense terminou durando mais do que se imaginara inicialmente e acabou por desgastar as Forças Armadas, em governos de força que se estenderam ao longo de duas décadas. Esse é um período suficientemente longo como para imprimir num país diretrizes novas e, também, para cometer erros conjunturais e estratégicos. Ora, ambas as coisas precisam ser analisadas, notadamente no ambiente universitário, que deve ser, nas sociedades hodiernas, o celeiro de ideias novas, bem como o filtro por onde passam os acontecimentos à luz crítica da razão, a fim de que, com esse patrimônio de ilustração, se beneficiem as gerações futuras.
No caso da avaliação do regime militar, não foi isso exatamente o que ocorreu no Brasil. As universidades brasileiras, em especial as públicas, controladas a partir da abertura democrática pela esquerda raivosa, acabaram fazendo da memória de 1964 ato indiscriminado de repúdio aos militares e às diretrizes por eles traçadas, fazendo com que uma cortina de fumaça terminasse pairando sobre essa importante etapa da nossa vida republicana.
As coisas não mudaram com a chegada dos esquerdistas ao poder, notadamente no ciclo do lulopetismo. A criação, pelo atual governo, da "Comissão da Verdade" visando a uma "omissão da verdade" e que coloca sob os holofotes a repressão praticada pelo Estado sem, no entanto, relembrar nada do terrorismo praticado pela esquerda radical, está a revelar que pouco se progrediu nesse terreno. A finalidade prevista coma tal comissão é clara: torpedear a Lei de Anistia, que abriu as portas para a volta dos exilados e firmou o início da abertura democrática.
Falemos, inicialmente, dos desacertos de 1964. A grande falha consistiu, a meu ver, no viés autoritário do regime militar, decorrente do fato de que os profissionais das armas não estão habilitados para a chefia do Estado, toda vez que são preparados – como lembrou com propriedade o saudoso amigo Paulo Mercadante (1923-2013) em Militares e Civis: a Ética e o Compromisso (Rio de Janeiro: Zahar, 1978) – para defender com coragem e eficiência os interesses soberanos da Nação, à luz da ética de convicção weberiana, que se caracteriza pela fidelidade aos princípios, sem que haja preocupação com o resultado da ação. Falta aos nossos homens de armas a sensibilidade da ética de responsabilidade, que exige que o governante calcule, nas decisões tomadas, as consequências que decorrerão para a comunidade, sendo esta, segundo Weber, a ética dos políticos.
Em segundo lugar, anotaria mais este ponto: por formação, os militares estão preparados para gerir a unanimidade decorrente da hierarquia e da obediência do profissional das armas. Afinal, ninguém realiza assembleias no front, quando as balas silvam sobre a cabeça dos soldados. Eles cumprem as ordens dadas por seus comandantes, sem discussão. Ora, a política é o reino do dissenso, em decorrência da nossa natureza racional essencialmente dialética, condição já apontada por Aristóteles (384-322 a. C.) na sua Política. A organização da comunidade politicamente estruturada deve ser pensada como construção de consensos a partir do dissenso, não como eliminação pura e simples deste. Esse é o difícil trabalho dos homens públicos, que precisam armar-se de dose infinita de paciência a fim de conciliar os interesses dos seus representados, os cidadãos que votaram neles.
Anotemos sumariamente os aspectos positivos do regime de 1964: a intervenção militar evitou que os comunistas tomassem o poder, instaurando uma ditadura do proletariado, com o banho de sangue que isso provocaria num país de dimensões continentais como o Brasil. A opinião pública sabe que o que a extrema esquerda buscava era isso. O Brasil não teve a sua "República das Farc", com que se debate até os dias de hoje o governo colombiano, depois de meio século de guerra, graças à corajosa intervenção das Forças Armadas, notadamente do Exército, que aniquilou a possibilidade de um território controlado pelos terroristas, sendo essa a finalidade perseguida pela guerrilha do Araguaia.
No que tange à economia, o Brasil transformou-se num país industrializado. Consolidou- se a indústria petroleira e desenvolveu-se a petroquímica, bem como a siderurgia e a fabricação de maquinaria pesada. A engenharia deu um grande salto para a frente, com as obras públicas que pipocaram pelos quatro cantos do território nacional.
Acelerou-se, por outro lado, a indústria bélica – em que pese ofato da falta de continuidade de uma política para o setor, como tem sido analisado oportunamente por Expedito Bastos, do Centro de Pesquisas Estratégicas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Efetivou-se, com o fantástico desenvolvimento das telecomunicações e com a política de abertura de estradas, a denominada – por Oliveira Vianna (1883-1951)–"circulação nacional", unindo ao centro nevrálgico do poder as regiões mais afastadas e ligando estas às mais importantes áreas metropolitanas do País. O regime militar tinha um propósito, em que pese o viés autoritário evidentemente criticável. Mas hoje, 30 anos após os governos militares, carecemos de um projeto estratégico que nos indique para onde irá o País nas próximas décadas. Este é o grande desafio: costurarmos uma proposta estratégica, no contexto da democracia que conquistamos, superando o vezo tutorial que empanou o regime de 1964.
MEMBRO DO CENTRO DE PESQUISAS ESTRATÉGICAS DA UFJF E DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO, É PROFESSOR EMÉRITO DA ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME)