por José Carlos Coelho Leal
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
"CHEIROS DA VIDA" - 87 - "UM DIA DA CAÇA, OUTRO..."
Não chega a ser nem um regra, nem uma tradição, nem mesmo uma constante. Acontece. Aconteceu várias vezes ao longo de minha vida. Possivelmente ainda acontecerá.
O fato: determinada pessoa me prejudica seriamente. As vezes é uma prejuízo financeiro, outras vezes é moral e por ai vai...
Quase sempre sofro mais do que devia. Fico abatido, pois meu temperamento cultiva um velho hábito em não acreditar que alguém possa agir comigo de modo diferente daquele que sempre pautou minha vida: seriedade, respeito à palavra dada, e ainda mais, utilizando um vocábulo desgastado que o mundo atual está enxovalhando: com transparência.
Muitas vezes demora, em certas ocasiões não: o tempo passa, o munda dá voltas e, por fim. acontece. Novamente estou frente a frente a quem me desgostou. Por mais que não guarde rancor tenho, gratuitamente, a oportunidade de recuperar algo perdido.
Não há nada se sobrenatural nisso. Apenas coincidência.
Assim aconteceu mais uma vez naquele início de 1964.
Passada a euforia da vitória conquistada no vestibular e sucesso com as matrículas, as aulas começando com as turmas completas de novos, e alguns velhos alunos, previa que aquele ano seria bem mais trabalhoso que os dois primeiros (1962 e 1963).
Certa manhã a Cidade de Petrópolis se vestiu de luto pelo falecimento do Professor Abreu, respeitado mestre de matemática do Liceu Estadual Washington Luiz, inclusive com vários livros didáticos publicados.
Alguns dias após o funeral o Professor João Francisco, então vereador e Presidente da Câmara, veio conversar comigo, na sala de professores do Colégio Werneck, num intervalo entre aulas. De imediato estranhei o fato por não ser usual.
- Professor Leal!
- Pois não Professor João.
- Gostaria de fazer um convite formal ao senhor em nome da Presidência da Câmara de Vereadores de Petrópolis.
- Pois não, respondi sem muito entusiasmo.
- Em reunião com algumas lideranças da Casa seu nome foi indicado para ser o Professor de Matemática do Liceu Washington Luiz, na verdade as turmas do 2º e 3º Científico, devido à vacância da cadeira com a morte do Professor Abreu.
- Eu???!!!
- Isso mesmo. O senhor tem feito um belo trabalho para nossa Cidade (Havia sinceridade nessas palavras, ou era apenas uma daquelas conhecidas jogadas políticas?...).
- Professor João Francisco: me sinto muito honrado mas para mim é muito difícil aceitar tal convite devido à falta quase que total de tempo livre.
Ai veio a verdade que eu imaginava.
- Professor Leal caso o senhor não aceite a oposição vai impor seu indicado e isso nos fragilizará para as próximas eleições.
- Como assim?
- Estão querendo nomear um tal de Almirante!
- Como? Um almirante? Será que é quem estou pensando...
Trocamos algumas palavras e não havia dúvida. O almirante era aquele mesmo que me deu o golpe no aluguel da sala do Curso Pio XII. Lembram-se!
- Professor João Francisco, pode contar comigo. Vou dar um jeito nos meus horários e, terei o máximo prazer de dar aula no respeitado Liceu Washington Luiz.
- Assim que se fala Professor Leal. Fico-lhe muito grato. Petrópolis sairá ganhando.
- Quem lhe agradece sou eu.
Imagino a cara com que ficou o Almirante ao ler a minha nomeação no Diário Oficial. Valeu aquele provérbio: "Um dia da caça, outro do caçador...".
Com todo respeito, evidentemente.
Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do anos de 2004.
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